COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

SABADÃO NO CT

Perdão aos otimistas e, principalmente, aos que estudam a matéria a fundo. Mas não há como recuperar um sujeito que, em nome do “amor” por um time de futebol, agride uma mulher que apenas estava no lugar certo na hora errada. Mesmo que a funcionária da limpeza do Centro de Treinamento do Corinthians tivesse tentado impedir a invasão dos bárbaros indignados, agarrá-la pelo pescoço é uma covardia que revela absoluta miséria de princípios. E é o fim da linha.

Empurrar um roupeiro de 68 anos e jogá-lo ao chão é igualmente hediondo. Ou será que não é? Bater em um idoso, homem, é menos horroso do que bater em uma mulher? E se a mulher for idosa, empata? Se o filho pequeno de um dos jogadores perseguidos pela tropa do “por amor ou por terror” estivesse no caminho, seria poupado? Bater em criança é pior do que bater em mulher? As ações violentas daqueles que se consideram mais torcedores do que os outros nos levam a relativizar o inaceitável.

Eles queriam “falar” com os jogadores e nada seria capaz de detê-los. Nem a lei, nem a diferença entre o certo e o errado, nem a cerca, nem o portão, nem quem não tinha nada a ver com nada. Nem uma mulher, nem um idoso. Confortante saber que alguns dos invasores não foram violentos (quer dizer, foram apenas invasores) e decidiram pelo usufruto da propriedade alheia. Mergulharam na piscina e fizeram um tour não acompanhado pelo local. Programa de sábado de manhã.

Mas os líderes do movimento, pessoas verdadeiramente importantes na vida do Corinthians, estavam trabalhando. Sem tempo para lazer. Condicionaram o fim da ocupação a uma conversa com o técnico. Conseguiram. E se o time começar a vencer, eles se acharão tão responsáveis quanto Mano Menezes. Ou mais. Aqui é Corinthians.

A Polícia Militar flagrou um dos “mártires de Oruro” no meio da confusão. É o auge do esculacho. Inspiração para um game de invasão de CTs que em breve chegará a um console perto de você: o malandro que se envolver em duas ocorrências policiais, na terceira será obrigado a usar uma touca ninja. Se for preso, perde uma vida. Ou mais.

Nenhuma vida foi perdida na ocupação do último sábado. Além do vandalismo, pertences foram roubados em algo que pode ser chamado de “arrastão de oportunidade”. Jogadores profissionais de futebol se trancaram em seu local de trabalho – com armários servindo como barricadas atrás da porta – para não ser agredidos. Funcionários do clube, entre eles uma mulher e um idoso, não tiveram a mesma sorte.

O simples cumprimento da lei é a única medida que pode prevenir a repetição desse tipo de barbaridade. É preciso impedir que pessoas transformem distintivos de clubes em meio de vida. Torcedores “profissionais”, estes que se definem pelos times que “amam” e estão dispostos a “matar ou morrer” por eles, representam o pior tipo existente de relação com o futebol. Na melhor das hipóteses, são desocupados por opção. Na pior, são facínoras irrecuperáveis.

O tipo de gente que bate em idosos e mulheres.

CÚMPLICES

Ao clube que é agredido, como tantos já foram e serão em seus CTs ou nos aeroportos ou em emboscadas, não basta registrar boletim de ocorrência e divulgar nota de repúdio à violência. Nada mudará a partir de formalidades. A iniciativa a ser tomada é o distanciamento dos grupos que vandalizam e agridem, como fez o Cruzeiro após os tumultos que aconteceram durante a comemoração do título do Campeonato Brasileiro. O clube mineiro cortou a ajuda financeira, os ingressos e o transporte para jogos. E com uma decisão simbólica, proibiu as torcidas de utilizar o nome e o distintivo em seu material. Quem pretende ver o fim da violência não pode continuar alimentando os violentos. Quem os financia é cúmplice quando as coisas vão bem e vítima quando vão mal. Os clubes podem e devem agir, ao invés de apenas lamentar.



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