COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

CÊNICOS

Paulo Schmitt citou Nelson Mandela na sessão de ontem no STJD. O disparate entrará para a história de infâmias do tribunal, o que é suficiente para qualificar sua gravidade. A memória de Mandela, ser humano mais importante de sua época, não merecia tamanha falta de respeito.

Mas é preciso reconhecer que o desatino de Schmitt simboliza com exatidão o que se viu nesta sexta-feira no Rio de Janeiro. A citação a Mandela encerrou um pronunciamento repleto de assaltos ao idioma e trejeitos histriônicos do procurador, evidentemente influenciado pela presença das luzes e câmeras de televisão. Schmitt se serviu de uma frase de Mandela para pedir perdão “aos ignorantes e amantes do casuísmo”, referindo-se aos críticos do tribunal esportivo. Momentos antes, o procurador chamou o Campeonato Brasileiro de “o melhor do mundo”.

A sessão do STJD tinha como objetivo principal o julgamento do recurso da Portuguesa, punida com perda de quatro pontos – e consequente rebaixamento para a Série B – por escalar um jogador suspenso na última rodada do campeonato. Pouco se fez nesse sentido. Os pronunciamentos dos nobres auditores, especialmente de Schmitt e do presidente Flávio Zveiter, tiveram clara intenção de responder comentários feitos por jornalistas e juristas a respeito das decisões tomadas ali.

Pareciam ofendidos, como se a matéria fosse propriedade particular daquele pequeno grupo de notáveis. Quem ousou oferecer sua visão sobre o espetáculo dos auditores foi acusado de oportunismo e tentativa de iludir a opinião pública, mas não teve seu nome revelado. Talvez por temor de respostas de juristas competentes e respeitados, cujos currículos foram construídos em tribunais de verdade.

Traído pelo fígado, o STJD empenhou-se em uma sessão de defesa da própria honra. Discursos inflamados clamaram por respeito, como se o tribunal da CBF fosse um sustentáculo de nossas instituições democráticas. Só mesmo tamanha distorção explica as posturas pretensamente eruditas de quem – ainda que seja difícil crer – se imagina em posição análoga a dos ministros do Supremo Tribunal Federal.

Mas e o julgamento? A participação do relator Décio Neuhaus desnudou a pantomima que serviu como quadragésima rodada do BR-13. Neuhaus se arrastou por quase três quartos de hora na leitura de um voto que ele trouxe pronto. Um possível fato novo provavelmente não mereceria sua apreciação, mas o repúdio corporativista a visões críticas ao tribunal constava das linhas que embalaram o sono de muitos presentes. E já passava do meio-dia.

Muita preocupação com a manutenção do status quo, pouca com o debate de argumentos. Menos ainda com a justiça. O órgão disciplinar da CBF não precisaria consumir boa parte de uma sessão para se explicar à opinião pública, se fizesse por merecer a consideração que pretende ter. Que não terá, nem que cite todas as frases célebres de Nelson Mandela, algo que ele jamais permitiria se estivesse vivo.

Enquanto isso, em recesso, a CBF lhe deseja um feliz 2014.

FOGO AMIGO

A sessão do STJD não poupou Héverton, personagem principal – em tese – do julgamento. O procurador Paulo Schmitt insistiu no argumento sem sentido de que o jogador da Portuguesa deveria estar presente ao tribunal no dia em que foi suspenso, mais uma prova do atraso do sistema em vigência e daqueles que o defendem. Mas, surpreendentemente, foi o próprio advogado da Portuguesa quem bateu mais forte. João Zanforlin argumentou que Héverton é apenas um reserva, um jogador que “não tem capacidade de decidir uma partida”. A ideia (??!) era minimizar a importância da escalação dele. É assustador que alguém imagine que uma observação como essa tenha mínima chance de sucesso.

CAOS

As ações na Justiça Comum são o pior cenário possível. Podem resultar em um campeonato monstruoso no ano que vem. Mas prestariam um serviço valioso se discutissem o sistema arcaico que o STJD representa.



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