COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

CORTE SUPREMA

Independentemente de quem tenha razão na discussão sobre hierarquia de leis que promete esquentar o STJD no dia 27, é trágico que a atuação dos nobres auditores imponha à opinião pública um cenário equivalente ao julgamento de um crime.

O “caso Heverton” fez despertar uma repentina – e violenta – paixão pelo cumprimento de normas, pela moralidade e pelo o-que-diremos-aos-nossos-filhos? Como se o que dizemos aos nossos filhos tivesse qualquer relação com a decisão de um tribunal esportivo sobre a escalação de um jogador irregular em uma partida de futebol. Como se o “país da impunidade” tivesse a chance de avançar ou retroceder conforme a aplicação do Código Brasileiro de Justiça Desportiva. Hipócritas.

Textos bem melhores do que este foram escritos sobre o tema. Hélio Schwartsman, na Folha de S. Paulo, dissertou duas vezes sobre os equívocos do legalismo. Em “O Globo”, João Máximo lecionou esportividade e respeito ao jogo. Márvio dos Anjos, em seu blog no globoesporte.com, produziu a redução definitiva da confusão que se faz ao tratar um tribunal esportivo como a Corte Suprema.

“E precisamos parar de comparar Justiça Desportiva com Justiça. Porque a Justiça Desportiva é apenas um acessório da CBF, enquanto o Judiciário propriamente dito é um Poder da República. Para o Conselho Nacional de Justiça, o STJD é apenas um órgão da CBF, que o custeia, e não uma corte integrante do Judiciário brasileiro. Ou seja, tão tribunal quanto uma reunião de condomínio – basta conferir a sentença do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) que derrubou o presidente Luiz Zveiter em 2005”, escreveu Márvio.

Razão pela qual, além de ser suficientemente triste que as últimas rodadas do Campeonato Brasileiro tenham sido transferidas para o STJD, observa-se um debate contaminado pelo bacharelismo. A função primordial do tribunal deveria ser proteger o campeonato, mas o que se vê é um grupo de atores cuja única preocupação é proteger-se. A frase de Paulo Schmitt sobre o risco de falência do tribunal – abordada aqui há uma semana – é simbólica.

A brutalidade que se comete contra um clube ao lhe cassar pontos que terminam por provocar o rebaixamento, após o campeonato encerrado, é semelhante à marcação de um pênalti nos acréscimos de um jogo. A regra não distingue em que momentos um pênalti deve ser marcado, mas há um motivo pelo qual certos árbitros só os apontam nos últimos instantes quando o lance é absolutamente flagrante. A chance de recuperação é mínima. (legenda para trolls: não se faz aqui uma comparação entre um pênalti e a escalação de um atleta suspenso. A relação é com o bom senso que deve prevalecer em situações de pena desproporcional).

Esperar bom senso de quem está investido de tamanho sentimento de importância, imaginando-se diante de um crime hediondo que exige o envio do condenado à prisão perpétua é, francamente, um desperdício de tempo. Imagine os astros esfregando as mãos, já saboreando a estratosférica audiência do próximo julgamento.

VÍTIMA?

O Fluminense não é o vilão do futebol brasileiro, mas um clube que se assemelha aos demais de seu tamanho e influência. Entre os chamados grandes, será difícil encontrar algum que se comportasse de maneira diferente na mesma situação. O que não significa que esteja certo. Tampouco está correta a tentativa de reescrever a história de rebaixamentos não cumpridos, ou de imputar a repercussão do caso em questão a campanhas ou interesses. O “vitimismo”, antes de tudo, é transferência de responsabilidade.

BOM ANO?

A mensagem de fim de ano do Bom Senso FC ao presidente da CBF, José Maria Marin, tem um indisfarçável tom irônico. O movimento de jogadores não pareceu preocupado em fechar um canal de negociação, provavelmente por perceber que essa possibilidade nunca existiu. É grande a chance de greve de atletas no início do ano que vem.



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