COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

FALÊNCIA

Paulo Schmitt se equivocou. A falência do STJD não será decretada se não houver punição à Portuguesa e ao Flamengo por jogadores escalados em situação irregular. A falência do tribunal, seja qual for o resultado do julgamento desta segunda-feira, já foi decretada há muito tempo. O processo é irreversível.

Você sabe o que se passa em uma sessão do STJD? Descubra, se tiver tempo e paciência. As deliberações podem ser acompanhadas pela internet, em tempo real. Alguns julgamentos se prolongam por horas, com argumentações tão excêntricas que custa crer que sejam sustentadas em um ambiente sério. Auditores defendem suas convicções com verve semelhante à dos melhores thrillers de tribunais, só que o enredo e as atuações são mais compatíveis com filmes de baixo orçamento.

Campeonatos são decididos nessas condições, como se sabe, ligando potentes holofotes direcionados a quem não treina, não joga, não faz gols. Mas certamente se sente assim. E por algum motivo difícil de explicar, o tribunal costuma ser chamado a atuar em momentos de repercussão garantida. Um protagonismo nato, como o dos grandes artilheiros que ficam na história por gols marcados em jogos inesquecíveis.

O caso em questão – jogadores suspensos que entraram em campo – revela a inoperância do sistema vigente, representado pelo STJD e, por consequência, pela CBF. A organizadora do Campeonato Brasileiro e seu órgão disciplinar patrocinam um mecanismo arcaico, que promove o espetáculo dos auditores em detrimento do bom andamento da competição. Criam o problema para depois resolvê-lo, porque o show não pode parar.

É inaceitável que em uma era em que telefones celulares inteligentes fazem leitura de códigos de barras para transações financeiras, um clube dependa de um telefonema, na noite de sexta-feira, para saber quais jogadores estão impedidos de atuar no fim de semana. De fato, a questão central vai um pouco além: é inaceitável que um clube corra o risco de escalar um atleta suspenso em um jogo do principal campeonato do país que vai receber a Copa do Mundo. É algo que não acontece em torneios escolares.

Estamos diante de uma fábrica de denúncias, recursos e penas. Uma indústria que permite a atuação da versão “esportiva” do advogado de porta de cadeia, à espera de oportunidades. A defesa que ele pode fazer é menos importante do que o telefonema após o julgamento, desde que, é claro, a informação sobre o resultado seja passada corretamente. Em resumo, o sujeito é contratado como advogado, mas atua mesmo como mensageiro. Enquanto isso, a internet possibilita ligações em vídeo entre uma pessoa no Ártico e outra no Mali.

Um dos subprodutos mais nocivos de tamanho atraso é o impacto na opinião pública, que tem nos destinos dos clubes no STJD uma amostra de justiça. É o que converte opiniões em questões meramente clubísticas e, em muitos casos, faz com que se confunda Direito com Matemática. Se fosse apenas uma questão de aplicar regras, o mundo não precisaria de advogados. E não haveria debate jurídico a respeito de tema algum.



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