ENTREVISTA COM JÉRÔME VALCKE



Estive com o secretário-geral da Fifa na terça-feira, na Costa do Sauípe, para uma entrevista para a ESPN Brasil.

A conversa, de cerca de vinte minutos, está aqui em vídeo.

E abaixo, para leitura:

André Kfouri: Senhor Valcke, muito obrigado por conversar conosco hoje…

Jérôme Valcke: O prazer é meu.

Nós apreciamos a oportunidade de lhe fazer algumas perguntas. Permita-me voltar à Copa das Confederações. Todos sabemos que foi um evento-teste. O que a Fifa aprendeu aqui no Brasil que ela não sabia antes?

Não estou certo de que isso é sobre a Fifa. Eu acho que o principal aprendizado foi para as seis cidades que não fizeram parte da Copa das Confederações, que aprenderam o que significa fazer esse evento, que é mais do que realizar um jogo do Campeonato Brasileiro. Mais instalações, mais serviços a serem disponibilizados para a mídia internacional, para os torcedores, etc. Então eu penso que o aprendizado foi menor para Fifa do que para o Brasil. Nós trabalhamos por três dias, depois da Copa das Confederações, para trocar com o governo e com os comitês organizadores locais, as cidades e a Fifa, toda essa informação que tivemos durante o torneio. Aprendemos que você precisa estar pronto antes do prazo de sessenta dias para a competição começar, senão você não estará perfeitamente preparado. Mas não estou certo de que nós, a Fifa, aprendemos muito.

Talvez o Brasil tenha aprendido algo?

Sim, tenho certeza. O Brasil entendeu que quando dizemos que um estádio de Copa do Mundo é diferente de qualquer outro estádio, eles aprenderam o que queremos dizer. Sempre dizemos que um estádio de Copa do Mundo é um lugar que tem um nível de infraestrutura temporária… se você olhar para uma fotografia, e eu acho que é a melhor foto que você pode olhar, é a foto do estádio em Berlim antes da Copa do Mundo e o estádio em Berlim quando a final da Copa do Mundo foi disputada. É um estádio diferente. O estádio está lá, como estrutura, mas ao redor dele há milhares de metros quadrados usados para que ele se torne um estádio de Copa do Mudo.

Esse é o estádio mais bonito do planeta. Berlim.

Berlim?

Sim.

Ah, há muitos outros estádios bonitos. Mas é verdade que Berlim é um estádio maravilhoso, e se você visitou a parte de dentro do estádio, não só fora, é uma estrutura maravilhosa. É maravilhosa a infraestrutura do estádio em Berlim.

Tenho certeza. É impossível falar sobre a Copa das Confederações sem mencionar os protestos nas ruas do Brasil e nos locais onde os jogos estavam acontecendo. Foi assustador para o pessoal da Fifa que veio trabalhar no torneio? E essa foi a verdadeira razão para o senhor Blatter ter deixado o país por um período?

Primeiramente, para entender sua segunda pergunta: Blatter deixou o país porque tinha de ir à Turquia para a abertura da Copa do Mundo Sub-20. Que isso fique claro. Não teve nada a ver com o Brasil. Eu acho que, se estou correto, foi na noite de 20 de junho, quando as coisas atingiram o auge. Eu me lembro de estar vendo pela televisão e estar em contato com Luis Fernandes (secretário executivo do Ministério do Esporte) e pessoas da segurança até quatro horas da manhã. Não foi a noite mais fácil para nós. Pela manhã, fizemos uma reunião de crise para falar sobre a situação no Brasil e como nós poderíamos lidar com ela. Vocês estavam surpresos, da mídia, o governo estava surpreso, a polícia e a segurança estavam surpresos. Eu acho que ninguém poderia esperar tamanho nível de manifestações no Brasil. Então foi uma grande surpresa para todos e a questão era como ter certeza de que todas as pessoas que estavam indo para os estádios, e os estádios estavam cheios de brasileiros, passando pelas manifestações, iriam conviver com isso. Nossa maior preocupação era garantir o mais alto nível de segurança para o torneio. Não para proteger a Fifa. Para proteger os jogadores, os torcedores, vocês da mídia, e ter certeza de que o show iria continuar. Seria a pior coisa se tivéssemos de tomar a decisão de adiar a Copa das Confederações. Seria o pior para o Brasil, não só para a Fifa. E por isso houve uma decisão tomada entre o governo, o comitê organizador local e a Fifa, com todas as instituições de segurança, para dizer “não, nós vamos organizar o torneio até a final”.

Não haveria Copa do Mundo se vocês tivessem decidido adiar a Copa das Confederações?

Tecnicamente falando, sim.

Não haveria Copa do Mundo?

Tecnicamente falando, se a Copa das Confederações não fosse organizada até o final, poderia não haver Copa do Mundo no Brasil em 2014.

Por outro lado, foi um aprendizado? Porque é praticamente uma certeza de que haverá protestos durante a Copa do Mundo.

Pode acontecer, é verdade. É um direito. As pessoas podem ir para as ruas e nós podemos ter esse tipo de manifestação. O aprendizado é aquele que Luis Fernandes disse em sua entrevista coletiva, como a segurança pode estar organizada para a Copa do Mundo, pensando no que aconteceu na Copa das Confederações. O aprendizado vem do fato de esperarmos que haverá apoio para a Copa do Mundo. Eu não espero que ninguém apoie a Fifa. Espero que o Brasil apoie a Copa do Mundo. O Brasil entregou uma maravilhosa Copa das Confederações. Não estou falando sobre as manifestações, mas mesmo com elas, o que aconteceu em todos os estádios, o que aconteceu em Espanha x Taiti com apoio dos torcedores brasileiros, o que aconteceu com a Seleção Brasileira, que foi criticada por todos, pela mídia, três semanas antes da Copa das Confederações, e ganhou o torneio. Neymar foi criticado e se tornou uma estrela ao final. Há um time que tem potencial para ganhar a Copa do Mundo pela primeira vez em sua casa. Eu espero que esse seja o principal apoio que vamos receber do Brasil. O Brasil pediu para organizar a Copa. O Brasil pediu para receber milhares de pessoas durante esse período de 32 dias. O Brasil tem de dar isso ao mundo.

Para parte da opinião pública, estou certo de que o senhor compreende isso, e os manifestantes representam essas pessoas, o custo das arenas e a opulência de um estádio Fifa para a Copa do Mundo, estão relacionadas diretamente a alguns dos problemas sociais que temos aqui neste país.

Mas você pensa assim, realmente?

Para mim?

Sim.

Eu não faço essa relação direta, mas em minha opinião as arenas são muito caras. Nós poderíamos fazer a mesma Copa do Mundo com arenas construídas de maneira mais conservadora.

Mas isso não tem nada a ver com a Fifa. O custo de uma arena não tem nada a ver com a Fifa. Primeiro, a Fifa nunca pediu 12 estádios. O Brasil, baseado no tamanho do país, à época da presidência de Lula, decidiu junto com o comitê organizador que o país deveria ser dividido em quatro partes em que deveríamos basear a organização da Copa do Mundo, e que deveria haver 12 estádios. Esse será o caso da Rússia, a propósito, mas pelo tamanho do Catar teremos menos do que 12 estádios. Nós nunca pedimos a ninguém que construa estádios que sejam os mais bonitos. Existem as exigências da Fifa, e se você ler essas duzentas ou trezentas páginas, é sobre o espaço entre cadeiras, sobre a estrutura dos banheiros, a estrutura de comida e bebida, sobre como retirar as pessoas dos estádios em 8 minutos por questões de segurança, etc. Novamente, é verdade que quando você organiza um grande evento, você quer mostrar o melhor. No caso de exposições internacionais, você quer mostrar o seu melhor pavilhão, com o melhor que seu país pode mostrar ao mundo. Sempre que você organiza um grande evento, em que você sabe que será o centro do mundo por certo período, você quer ter o melhor. E você certamente gasta mais dinheiro. E se você faz as coisas um pouco mais tarde, se você perde tempo, custará mais dinheiro. Mas o que eu quero dizer é que não é verdade, e é injusto, associar a Fifa aos problemas do país. Não há nada a ver. O país, de um lado, tem um plano de investimentos – como Dilma Roussef disse em seu pronunciamento durante o período das manifestações – em saúde, educação, transporte público, etc. Não existe dinheiro retirado deste plano para organizar a Copa do Mundo. A Copa do Mundo é outra coisa. A Copa do Mundo é uma questão de querer organizar o maior evento, porque é algo muito importante para nós, porque somos o país do futebol, e vamos investir em coisas para que nosso país esteja pronto para receber o mundo. Enquanto isso, a Fifa não está tirando nada do Brasil. Todo dinheiro investido no Brasil permanece no país. Eu entendo que nós temos a melhor plataforma, o futebol é a melhor forma de expressar opinião, mas nós podemos gastar horas e eu sempre argumentarei que é injusto ligar problemas à Fifa, ou ao futebol, o tempo todo.

Há muitas sedes nesta Copa? 12 é muito?

Não é muito. É o mesmo número que já tivemos no passado em outras Copas do Mundo. Eu acho que é o número máximo. Mais de 12 sedes e começa a ficar muito difícil.

Porque temos pelo menos duas em área do país em que podemos honestamente dizer que não existe futebol profissional para usá-las após a Copa do Mundo.

De novo, essa foi uma decisão do Brasil.

Estou pedindo sua opinião.

Eles disseram “queremos que o Brasil aproveite a Copa do Mundo”. A questão era a Amazônia, o que fazer com ela? É muito longe, não há um time, faz sentido investir em um estádio, que por sinal é um belo estádio? E a resposta foi “sim, precisamos. Não podemos ignorar a Amazônia, não podemos deixar de ter um estádio em Manaus e fazê-la cidade sede”. Então foi uma decisão política que foi para o Comitê Executivo da Fifa, na época, com Ricardo Teixeira. Ele disse “aqui está o nosso plano, com 12 cidades-sede, queremos fazer isso e aquilo, fazer a Copa nestas condições, vocês concordam?”. Perguntamos se o Brasil seria capaz, ele disse que sim, e concordamos.

Quando o Brasil recebeu a Copa, o senhor Teixeira era o presidente da CBF e o senhor Lula era o presidente do país. Agora o senhor Marin e Dilma estão no comando. Mudou algo para a Fifa, para melhor ou pior, neste relacionamento?

Não. É verdade que quando acontece uma mudança de pessoas, sempre há um período em que você deve se adaptar. As pessoas devem compreender o projeto e isso leva tempo. Eles têm de montar um time e devemos interagir novamente. Se nós nos conhecemos bem, existe a primeira fase de troca de simpatias e entendimento de quem somos, mas podemos ir direto ao ponto. Nós aprendemos a trabalhar juntos e acho que estamos trabalhando muito bem agora. O comitê organizador local comandado por Marin, o governo, com Aldo Rebelo e Luis Fernandes e a Fifa.

Os senhores Teixeira e Havelange se envolveram no escândalo da ISL e não são mais membros da Fifa. Mas, pelo que sabemos, eles foram cruciais para trazer a Copa do Mundo para o Brasil. Como a Fifa lidará com eles durante a Copa?

Por enquanto eu não tenho ideia. Nós não recebemos nenhum pedido de ingressos por parte deles. Precisamos reconhecer que o senhor Havelange tem 97 anos e terá 98 quando a Copa acontecer. Não tenho certeza se ele poderá ficar viajando de uma cidade a outra, não sei se ele estará no Maracanã para ver um jogo. Novamente, essa não é minha responsabilidade ou minha preocupação.

Última pergunta, por favor. Eu quero citar o senhor Blatter.

Uma boa, espero.

Ele sempre diz que a Fifa é a casa do futebol. E o futebol obviamente é o esporte mais popular e mais importante neste planeta. Por que a Fifa é tão secreta ao lidar com algo que é tão popular?

Mas onde somos secretos? Se você pensa em nossas finanças, tudo está publicado. Nada fica sem ser publicado, porque estamos sob esse sistema padrão internacional. Sobre finanças, você sabe quanto ganhamos e o que estamos fazendo com o nosso dinheiro. Só há um ponto que não é publico: os salários dos membros do comitê executivo e do estafe administrativo. Quantas companhias no mundo deixam de publicar seus salários? Há milhares, não somos os únicos. Nós publicamos o montante que é pago a todos, mas não dividimos por nomes ou pessoas. Novamente, é algo comum no sistema padrão internacional, nós não somos diferentes. Eu acho que desde 2011, desde que enfrentamos alguns problemas na Fifa, e nós reconhecemos isso, poucas pessoas deixaram o Comitê Executivo. Nós temos trabalhado com diferentes comitês e forças-tarefas, de modo a adaptar o nosso estatuto. Fizemos isso em nosso congresso em 2012 e 2013 e faremos em 2014, para garantir que a Fifa seja mais transparente e tenha as ferramentas em seu Comitê de Ética independente e em seu Comitê de Auditoria e Conformidade independente, onde os presidentes são eleitos pelo congresso e não pelo Comitê Executivo. E eles poderão agir, investigar e punir sempre que perceberem que algo errado aconteceu na Fifa. Eu gostaria de dizer que, neste período, não há um episódio em que administração da Fifa foi responsabilizada. Você nunca viu um único arquivo ou um único caso em que era responsabilidade ou corrupção dentro da administração da Fifa. Como você disse, é o maior esporte. Como Blatter diz, são duzentos milhões de pessoas ao redor do mundo. Coisas aconteceram? Sim, aconteceram e continuarão a acontecer no futuro. Quando você tem tanta gente, coisas podem acontecer. Mas eu posso lhe dizer que nós construímos uma estrutura de paredes dentro de nossa organização, que qualquer pessoa que queira fazer algo que seja contra os nossos interesses deve pensar duas vezes. Porque nós temos as ferramentas e a estrutura para encontrar, investigar e punir quando alguém quiser ir contra o futebol. Nunca será o suficiente para você, nunca será suficiente para a mídia, porque estamos falando de futebol. Ninguém está olhando para o que o resto do mundo está fazendo, e eu não estou dizendo que devemos fazer errado apenas porque os outros também fazem, mas digo que temos um nível de transparência, uma estrutura para nos proteger, para proteger os interesses do futebol, para proteger os seus interesses como fãs de futebol, que é única no mundo do esporte. E eu assino por ela.

São Paulo e Curitiba são os lugares que mais preocupam, por causa dos atrasos nas obras. O jogo de abertura está sob risco neste momento?

Não. São Paulo é uma situação diferente porque tivemos esse acidente traumático. É uma coisa diferente. Mas eu posso lhe dizer que não estou nervoso, hoje diante de você, mas, mais importante, quando estou sentado à minha mesa, e não estou olhando para uma alternativa para o jogo de abertura da Copa do Mundo de 2014, em relação a fazê-lo em São Paulo e no dia que temos na programação de jogos.

Obrigado, senhor Valcke.

Obrigado a você.



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