COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

GIGANTE

A sábia simplicidade de Jayme de Almeida. A flamejante energia de uma nação. A irresistível inspiração em um menino. Aspectos que conspiraram para materializar um título improvável, e escrever uma das bonitas histórias de futebol deste ano. Uma história de crença, de força e esperança, que terminou com um gigantesco sorriso em duas cores.

Só os mistérios do futebol explicam que o momento da concepção do título da Copa do Brasil tenha sido o instante mais sombrio da temporada do Flamengo. A noite em que o mesmo Atlético Paranaense esteve no Maracanã e venceu de virada. A noite em que só havia medo e dúvidas dentro de um vestiário abandonado por seu treinador. A noite em que o Flamengo redescobriu do que é feito.

Ao se olhar no espelho, viu a imagem de Jayme. O homem que enxergou coragem em jogadores receosos. Que conduziu um colosso com ternura e gratidão. Que recuperou uma verdade imutável sobre a profissão de técnico de futebol. Entre o planejamento de treinos, os conceitos táticos e a aplicação de métodos, existe a necessidade de administrar não apenas jogadores, mas pessoas. Como diz Pep Guardiola, é preciso encontrar a tecla que funciona com cada um. Jayme, a exemplo de outros treinadores da casa que levaram o Flamengo a conquistas, parece ter descoberto todas as teclas.

Ao sair para a luta, recebeu o abraço de um povo. A simbiose que realiza o impossível. O motivo e a razão de tudo. Os jogos do Flamengo como mandante nesta Copa do Brasil produziram noites incríveis no país dos estádios vazios. Até mesmo na noite do clímax, a preços abusivos que não se justificam, sejam quais forem as explicações. É provável que a vitória sobre o Cruzeiro, gol de Elias no final, tenha dado o alerta. Um momento “Campo dos Sonhos”, adaptado: se vocês vierem, nós venceremos. Não existe futebol sem estádios ocupados. É o aviso que ficou, uma vez mais, aos que tomam decisões e se esquecem do que é verdadeiramente importante.

Ao abaixar a cabeça, uniu-se em torno do pequeno Davi. Internado com pneumonia por dias, transformado em símbolo de uma caminhada, recuperado para ver seu pai preencher o Maracanã de orgulho. À parte o fato de Davi ser um menino maravilhosamente lindo, desses que queremos ter em casa, é um desafio para qualquer pai entender como Elias foi capaz de seguir jogando. Ou como ficou em pé quando o estádio cantou o nome de seu filho. Ou como consegue falar – sem a voz lhe faltar – sobre a noite em que chegou em casa e mostrou a ele o gol marcado contra o Goiás, comemorado com a mão imitando a máscara de oxigênio que Davi usava no hospital.

Já faz três dias. Mas preste atenção: Jayme ainda está sorrindo na linha lateral, o rubro-negro ainda está em êxtase coletivo, e o menino de menos de dois anos ainda está olhando para o futuro, tentando entender o que já viveu. Pense no que aconteceu com o Flamengo nos últimos três meses, aplauda quem o fez crescer tanto, e lembre que o nome do filho de Elias é Davi.

(Adriano Lima, editor dos canais Espn, é um mestre nesse negócio de dar vida a textos na televisão. Fizemos uma versão eletrônica da ideia acima, que você pode ver aqui.)

CONDECORADO

Da Série B ao Mundial de Clubes da Fifa, Alessandro tocou todas as taças, chorou todas as lágrimas, sorriu todos os sorrisos. Técnicos ressaltam seu profissionalismo, companheiros elogiam sua liderança. O futebol sem dúvida lhe fará falta. É o que acontece ao final de uma carreira plena.

ATRASADO

Interessante a postura do presidente do Náutico, Paulo Wanderley, durante o debate sobre o atraso de salários no clube. O jogador que reclama o cumprimento de uma obrigação profissional “falta com o respeito a uma instituição centenária”. A instituição centenária que não paga salários, ao que parece, merece todo o respeito. Estranho conceito, estranha lógica.

APROVADO

O episódio no Náutico marcou a primeira queda de braço da vida do Bom Senso FC. A possibilidade de paralisação do Campeonato Brasileiro teve impacto na solução do problema. Vitória dos jogadores e do movimento.



  • Jeferson Gama

    Absolutamente tendenciosa a posição da maioria dos “cronistas” a fovor do (BOMSenso ?), querem fazer reprentantes jogadores em final de carreira ou aproveitadores.
    Lembro aos clubes que devem sim negociar, mas, com quem de direito os Sidicatos e Confederações.
    De resto é lamentar a posição de alguns falsos críticos, sempre contra clubes/dirigentes.

    AK: Posicionamento partidário da estrutura arcaica que prejudica o desenvolvimento do futebol brasileiro há décadas. E mal informado, o que não surpreende. Um abraço.

    • JJunior

      Eu concordo com quase 100% das propostas do BSFC com relação ao calendário do futebol brasileiro. Já tivemos bem pior (2/3 partidas de um time no mesmo dia), mas ainda falta evoluir muito para chegar num modelo ruim…. em outras palavras, tem muito trabalho a ser feito nesse item.

      Sobre o air play financeiro eu discordo 100%. Acredito que questões como a do Náutico (atrasos) estão previstos em leis e deve-se procurar por esses meios para resolver o problema. Se esse meio não está funcionando, então temos um problema estrutural enorme no país (e não um problema esportivo), que deve ser resolvido o mais rápido possível, já que isso irá beneficiar todos os trabalhadores do Brasil.
      Quando se trata de contratos (relação salário base x direito de imagem) ambas as partes devem chegar em comum acordo para que ele seja assinado – se os termos não lhe agradam, negocie ou recuse. Interferir de forma arbitrária na administração dos clubes não é o caminho adequado (sequer legal) para resolver questões de má gestão.

      Apenas para abordar o comentário acima, um sindicato jamais deve ser o único órgão para representar uma categoria, é extremamente válido o movimento organizado independentemente pelos próprios jogadores.

  • Edson de Moraes Neto

    Impressionante a sua capacidade de descrever um título com as palavras certas. Emociona sem ser melodramático. Texto que parece escrito por um flamenguista (o que sei que você não é). Muito obrigado pelas belas palavras…

    • Márcio

      Pensei a mesma coisa. Parabéns André!

  • Eddie The Head

    Espantosa a postura do presidente do Náutico. ” Deram um prazo e eu não vou cumprir (dia 9 de dezembro). Se quiserem fazer greve que arquem com as consequências”. Ainda ameaça os jogadores por pedirem seus direitos.

    Semana passada vi uma entrevista do Leandro Ávila,que estava no elenco do Fluminense que foi rebaixado para a Série B em 97. Ele disse que o elenco estava com 6 meses de salário atrasados,e que quando o time entrava em campo não se preocupava apenas em jogar bola,pois tinha vários problemas pessoais decorrentes do atraso de salários. Não existe o cara trabalhar sabendo que não vai receber. Mesmo com o elenco fraco que tem,a desastrosa campanha do Náutico teve início fora de campo.

    Não acho que tenha sido vitória do Bom Senso F.C. Seria se os jogadores recebessem,coisa que não aconteceu. E,parece,não vai acontecer,pelo menos por enquanto.

    AK: Houve um acordo entre o clube e os jogadores. Um abraço.

    • Eddie The Head

      Nota:

      Louvável a atitude dos jogadores do Náutico. Mesmo com todos os problemas extra campo,mesmo com o atrito com a diretoria,mesmo com os salários atrasados,os jogadores entraram em campo contra o Vasco dispostos a fazer tudo o que a torcida espera deles. Perderam porque o time é fraco,mas em nenhum momento facilitaram o jogo.

      • Marcão Mengão

        Eu até concordo, mas achei o Martinez meio molengão depois de tomar uma escovada pública do presidente do Náutico. Não há profissionalismo que supere uma afronta pública desse porte.

  • Emerson Cruz

    1- Alessandro está na lista dos maiores da história do Corinthians. Claro, não entra na mesma galeria em que figuram Rivellino, Sócrates, Luisinho, Cláudio e tantos outros. Mas marcou seu nome noutra lista corintiana, aquela dos que foram grandes no clube, ainda que tecnicamente nunca tenham sido brilhantes, ele agora está ao lado de ícones como Basílio, Biro-Biro, Hidário, Tupãzinho… Todo meu espeito e admiração a esta legenda, sim legenda, da vida corintiana.
    2- O movimento Bom Senso FC já havia feito alguns gols desde o início de sua vida, mas o primeiro merecedor de uma placa foi marcado neste episódio envolvendo os jogadores do Náutico.

  • José Leonardo

    Excelente texto. O Fla se reergueu de uma forma impressionante. Parabéns a equipe Flamengo, do Presidente do clube, passando por comissão técnica, jogadores até aos torcedores, que apoiaram o time mesmo sabendo que este ano seria de briga para não cair, e não caiu. Bem como ainda trouxe a Copa do Brasil de brinde para coroar um ano considerado perdido que acabou bem melhor que esperávamos!!!
    Saudações Rubro-negras!!!

  • Paulo Vicente Gomes

    Sou fã de carteirinha do seu pai e vejo que você, independente dele, está fazendo uma brilhante carreira de jornalista. Seu texto é riquíssimo, porque retrata de forma simples uma realidade que o Flamengo se deu conta e que, graças ao título, servirá de modelo para os Clubes cariocas. Diga-se de passagem, Vasco e Fluminense, já estiveram lá na Segundona e, ao que tudo indica, mesmo com modelos de gestão diferentes entre si,não aprenderam a lição. Quis Deus que o Flamengo de Sant’Jayme fosse Campeão, quis Deus que o Bahia de São Cristóvão (apesar de inúmeros e graves problemas) não caísse, para que daqui em diante a ambição dos técnicos de futebol e seus empresários, não vá mais de encontro com a realidade do nosso país. Vou usar as palavras do Lúcio de Castro (Este, tão brilhante quanto seu pai): A era que se renova de técnicos de futebol, para o nosso prazer traz Lord’s tais como os dois que acabei de citar e muitos outros que estão sufocados por talentos duvidosos e que custam perto de R$1.000.000,00/mês aos cofres sangrados dos clubes. Queira Deus que Vasco e Fluminense caiam, só assim ficará, mais que provado, como são mal administrados. Daria pra falar mais, mas (sem “i”) é melhor ficar por aqui. Parabéns pelo seu texto e Parabéns ao seu Pai “pelo filho”.

  • Teobaldo

    Exelente texto. O Jayme de Almeida já pode utilizá-lo como carta de apresentação para 2014, afinal o Mengão precisa de um técnico com maior experiência, mais bagagem… tipo assim, um professor. Já vimos esse filme com o Andrade. Aguardemos…. Um abraço a todos os amigos do blog!

  • Silas

    Caro André,

    Como já observado em posts anteriores, a situação do Jayme de Almeida vem confirmar que, antes de “técnicos conhecedores” e milionários, deve-se valorizar a pessoa, a “alma”, o caráter e as boas intenções dos postulantes.
    Aliás, esses parâmetros deveriam servir não só para os “professores” mas também para toda e qualquer atividade, inclusive a de jornalista.
    Daí pelo que me proponho a escrever somente para este blog. É onde encontro profissionalismo competente, precedido de valores morais que aprecio e cultuo.
    abç

    Silas

  • Ana

    André, qual a possibilidade do Jayme ser o novo Andrade? Tenho um certo temor em relação à postura da diretoria do Flamengo em relação ao técnico Campeão da Copa do Brasil. Outro ponto que eu nunca entendi: por que o Andrade, recém campeão nacional, não conseguiu uma vaga em nenhum clube do Brasil?
    Um abraço.

    • Paulo Pinheiro

      Porque as pessoas passaram a rotulá-lo de “milagreiro” e depois de 2009 não foi dado a ele (nem no Flamengo!) um elenco condizente com um técnico que venceu o prêmio de melhor do ano. Todos queriam que ele reerguesse “defuntos”, coisa que ele não faz. Em 2009 ele apenas foi inteligente pra lidar com o material que tinha (que era muito bom!). É preciso destacar em 2009 o trabalho do Marcos Braz, que acertou em todas as contratações, e muitas delas seriam consideradas apostas arriscadas, como Zé Roberto, Petkovic, Maldonado, Álvaro…
      Dentro do Flamengo também a politicalha atrapalhou E MUITO.

    • Marcão Mengão

      Também penso nisso, mas começo lembrando que a diretoria do Fla não é a mesma da época do Andrade. Acho essa infinitamente mais competente e comprometida com o clube. Eles sempre quiseram pagar pouco para um técnico, tanto que o Jorginho foi a primeira aposta. Só trouxeram o Mano por pressão da torcida, coisa que não vai acontecer agora, pois o Jayme tem apoio maciço das arquibancadas.

      Creio que o Andrade não tenha se firmado pq, além da praia dele ser o Flamengo, ele foi buscar times expressivamente mais fracos que buscaram nele um milagreiro, coisa que ele nunca foi. Ele conseguiu dissipar divergências e buscar comprometimento num elenco que contava com jogadores de alto nível. Os demais clubes não o quiseram, imagino eu, que pela sua identificação com o Flamengo, pouca experiência, por não terem elencos como o Flamengo tinha e pq há cultura de que técnico bom é técnico caro…

      SRN’s!

  • Gustavo

    André,

    Li o seu texto e pensei em comentar. Li o comentário do Edson e percebi que não há mais nada a dizer.

    Parabéns. Abç.

    Gustavo

  • Fabiano Filho

    André… Ha coisas que so o Jaime explica. Depois dele o Paulinho parece outro jogador. Ate o estilo mudou. Ninguem da torcida sabia do lado driblador e velocista dele. Isso e o dedo do treinador.

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