COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

AVÔ

A cena aconteceu ao final de uma das grandes noites de futebol que tivemos neste ano. Uma noite completa, em que o espírito, as imagens e os sons do velho Maracanã se reproduziram no novo estádio. Em que se comprovou que a arquitetura remodelada e as linhas modernas não têm significado sem os componentes humanos que justificam o jogo. Uma noite em que o poder do futebol mandou um recado a quem não o compreende.

A cena aconteceu depois que o Flamengo venceu o Botafogo no jogo de volta das quartas de final da Copa do Brasil. O resultado só precisa ser mencionado porque explica o momento captado pelas câmeras do SporTV na área dos vestiários do Maracanã. Quem viu Jayme de Almeida abraçado ao neto, Breno, reviveu histórias próprias que o futebol proporciona como nenhuma outra atividade inventada pelo homem.

Ao encontrar o avô, Breno foi derrotado pela emoção. Talvez ele tivesse a precisa noção do que aqueles 4 x 0 representavam para Jayme, um treinador interino no comando do Flamengo, após anos e anos de trabalho silencioso. Talvez ele pudesse sentir a felicidade que seu avô tinha dentro de si naqueles breves intervalos em que um técnico pode saborear uma vitória. Talvez Breno estivesse, apenas, comovido. Enquanto ele chorava no peito do avô, Jayme tentava acalmá-lo, confortá-lo. Passou a mão em sua cabeça, deu tapinhas carinhosos em suas costas, beijou-lhe a testa. O garoto enxugou o rosto com a camisa do Flamengo, ainda dominado pelos sentimentos. Jayme o pegou pelas bochechas, olhou para ele e sorriu.

Não sabemos o que o avô disse ao neto durante o abraço. Não precisamos saber. Assim como não se questiona a emoção de uma criança de doze anos, não se duvida do valor das palavras de alguém como Jayme. Palavras que têm revelado sensatez, transmitido sobriedade, demonstrado a humildade de quem foi chamado a apagar um incêndio e está determinado a fazê-lo sem se vangloriar. Palavras que têm a forma e o tom do que é de verdade. Algo raro no futebol.

Jayme de Almeida é a calma que vem depois da tempestade. Emergiu para ocupar um espaço que ficou vago repentinamente, aceitou a missão de manejar o barco por águas perigosas. Tem conduzido o Flamengo da ameaça do rebaixamento no Campeonato Brasileiro à semifinal da Copa do Brasil. Já é mais do que se poderia pedir a alguém na situação dele, e parece claro que não é por acaso. A sensação não deve ser confundida com um elogio a capacidades técnicas ou táticas que não teriam aparecido em tão pouco tempo. É, sim, um aplauso à maneira como Jayme se porta e se manifesta. Posturas que refrescam uma função egocêntrica.

A cena entre o avô e o neto pode ser o retrato da atuação de Jayme como técnico do Flamengo. Ele trouxe conforto a um vestiário desamparado, descobriu confiança em um time inseguro. Abraçou-o e o acalmou num momento de descontrole. Garantiu que tudo ficaria bem e, sorrindo, beijou-lhe a testa. Desde então, o Flamengo tem retribuído o carinho.

ALERTA

Paulo André disse ao “Bola da Vez” da ESPN Brasil (irá ao ar na próxima terça-feira) que uma greve de jogadores não seria difícil de decidir e organizar. Mas frisou que a paralisação de campeonatos é vista pelo Bom Senso FC como o último dos recursos, algo a ser utilizado somente depois de esgotadas todas as possibilidades de negociação. Após conseguir mudanças significativas no calendário de 2015, o BSFC continua preocupado. E continua forte.

ATRASADO

Willian é o melhor jogador revelado pelo Corinthians nos últimos anos. Deixou o clube na época infame da MSI por um bom dinheiro, mas, na memória do torcedor, deixou apenas os indícios de uma carreira bem sucedida. Na Europa, confirmou impressões e começou a trilhar o caminho que levou à convocação para os amistosos da Seleção. Ele terá pouco tempo, mas pode ser um desses casos de vaga assegurada na Copa do Mundo no último instante.



  • Bruno Tozzi

    André, não sou de comentar notícias ou colunas, mas tenho que abrir uma exceção. Que texto brilhante! Captou um breve momento e ampliou seu significado. Parabéns.

    AK: Obrigado pela leitura e pelo comentário. Um abraço.

    • Leonardo

      Gostaria de ver esse vídeo

  • Leonardo

    Gostaria de ver esse vídeo, tem como publicar não?

    AK: Tem como procurar. Um abraço.

  • JOSÉ LEONARDO

    Excelente matéria!!!

  • Paulo Pinheiro

    Uma matéria como a das de antigamente. Você conseguiu trazer a emoção que só sentíamos após um jogo de Flamengo de Zico contra o Vasco de Dinamite.

    Diante de uma época de mediocridade é preciso saber procurar onde ainda residem recônditos os motivos do futebol ainda ser uma paixão de centenas de milhões.

    E só um jornalista do seu naipe pra isso. Abração, André.

    AK: Obrigado. Um abraço.

  • Renato Rasiko

    Brilhante, André! Acho importante ressaltar essa nova leva de técnicos interinos que estão dando certo, como o Kleina, o Claudinei, o Cristóvão, e por aí vai. Jayme alia a experiência e maturidade de um veterano com o entusiasmo e as expectativas de um iniciante (que ele, de fato, é). Alguém já o chamou de “treinador mais elegante do Brasil” e certamente não estava se referindo às suas roupas de grife. E tudo isso por um salário que deve ser o mínimo da categoria. A identificação do treinador com o clube também tem se mostrado fundamental. Significa que ele sabe o que a torcida quer. No caso do Flamengo, superar as limitações técnicas com muita garra e comprometimento. E empenho é o que não tem faltado como os resultados demonstram. Não há, na minha “mirde” opinião, técnico que valha um salário de 750 mil. Jayme, Claudinei e Kleina estão provando isso.

  • O treinador do Flamengo está dando um exemplo de profissionalismo, de humildade. É muito bom ver a sinceridade estampada nas atitudes e palavras do treinador. E o mais bacana, mesmo com o sucesso de sua empreitada, ele não foi dominado pela vaidade, que costuma cegar alguns profissionais.
    Tomara que o Flamengo saiba dar ao Jayme o mesmo carinho e valor que ele dá ao Flamengo.

    Abraço.

  • Emerson Cruz

    Realmente o futebol é muito mais que um jogo.

  • Willian Ifanger

    Putz, aquela cena realmente precisava de um texto seu. Grande texto, que sensibilidade, parabéns. Já está entre os meus favoritos de todos os tempos do seu blog.

    Aquela noite foi de gala para o futebol. Aconteceu de tudo o que pode acontecer dentro das quatro linhas, em todos os jogos.

    E foi zapeando os canais depois do encerramento, pra ver todas as informações e fatos possíveis daquela noite, que me deparei com essa cena. Foi a cereja do bolo daquela noite. Foi o toque de ternura que a noite precisava. Era só desligar a tv e ir pra cama dormir feliz.

  • Jomar Machado

    Parabéns, belíssimo texto!

  • Feliciano

    Bela matéria, André. Sou rubro-negro e é realmente visível a diferença do time, pra melhor, do Jayme pro Mano. Com relação ao comentário sobre o Willian, acho que a convocação do Éverton Ribeiro é mais iminente, você não acha?

    AK: Não creio. O Willian está na frente. Um abraço.

  • Boa tarde, Andre!

    Otimo texto. Como alguem que nao esta no pais, seu post me fez sentir mais perto das emocoes proporcionadas pelo esporte. Assim como o relato do momento do Cielo com seu pai em 2008.

    Uma unica preocupacao me veio a cabeca em relacao ao Jayme: a trajetoria me lembra muito a do Andrade… Ha de se ponderar que os clubes nao fazem questao de manter o respeito aos profissionais que tornam suas historias mais dignas. O Andrade hoje em dia guarda uma magoa do Flamengo… E sua trajetoria foi brilhante! Nao muito atras, o Jorginho tambem foi relegado ao papel de coadjuvante quando estava fazendo o Palmeiras voar, antes da chegada de Muricy. Mesmo o Caio Junior, um pouco mais valorizado no mercado, continuamente e injusticado.

    Reconhecimento perene aos profissionais que de fato merecem e muito dificil de se ver no meio do futebol…

    Faz sentido?

  • SILAS

    Caro André,

    Em tempos de tantas vaidades, valores de vida invertidos, famílias desestruturadas, nada mais agradável que ver a exaltação da humildade e da família.
    O Jayme já havia chamada a minha atenção em diversas entrevistas e principalmente durante a sua participação no “Bem Amigos” algumas semanas atrás (zapeio entre Linha de Passe e ele às segundas). Humilde, sem ser subserviente, simples sem ser simplório e com a objetividade dos que sabem o que falam. Como você ao escrever.
    Realmente, o futebol não deve ser visto somente como um jogo. É um evento que expõe as personalidades dos que jogam, torcem ou escrevem sobre ele, com todas as implicações dessas ações.
    Continue escrevendo de forma emotiva, humilde, simples e objetiva. Um dia seus netos irão abraçá-lo e reconhecer isso! Abraço.

    Silas

  • Teobaldo

    O Flamengo vai valorizar o Jayme da mesma forma como valorizou o Andrade. Quem viver, verá. É impressão minha ou pessoas que passam a imagem de serem calmas, cordatas e educadas (ex.: Osvaldo Oliveira, Andrade, Jayme de Almeida, Marcelo Oliveira, dentre outros) sempre encontram resistências aos seus trabalhos no mundo do futebol? Um abraço a todos.

    • Endosso o coro.

    • Carlos Prates

      Temo por isso, Teo.
      A esperança, é justamente a mudança de gestão.
      Mas como não agiram certo com Abreu e Ibson, não posso deixar de te dar certa razão.
      Demitir, faz parte. Mas tem que saber demitir…
      Acontece, que Wallim entende tanto de futebol, quanto eu de corte & costura.
      Sabemos, que o cargo de vice de futebol, foi um prêmio de consolação dado pelo Eduardo, em nome da campanha da Chapa Azul.
      Wallim + Pelaipe + Carlos Leite = mais 1 ano sem Departamento de Futebol…
      Passamos 3 anos com Patrícia Amorim, sem esta pasta.
      O que estamos vendo, é a prova mais cristalina de superação do elenco, e principalmente, o tiro certeiro, mas no escuro, chamado Jayme de Almeida…

      SRN’s

  • Willian Ifanger

    E outro momento “humano” do futebol foi a classificação do Santa Cruz pra série B.

    O mundão do Arruda estava espetacular.

    E, de mais a mais, o jogo foi muito bom. Emoção e tensão na medida certa.

    Aliás, todo aquele ambiente e até a transmissão me lembrou muito jogos dos anos 80…pelas camisas parecia um São Paulo x Palmeiras no Morumbi costumeiramente lotado……até o placar final do jogo é coerente com isso (:-)

  • Carlos Prates

    Grande André,
    O amigo entendeu perfeitamente o apelo da matéria.
    Jayme não só acalmou o neto, como 40 milhões de apaixonados.
    A cena no final do vídeo, em que eles saem abraçados, numa solidão absurda, valeu não só a matéria, como seu belíssimo texto.
    Jukão tem que aprender muito contigo…
    KKKKKKKKK

    Parabéns!

  • Borgaldo Lima

    Jaime e chuva de verão como Carlinhos,Andrade,Joel e outros, daqui a pouco sera chamado de BURRO,BURRO e BURRO… isso e futebol meu filho.

  • a boa arte, é aquela que desperta emoção no observador.
    caro andré, quando você surgiu como profissional de im-
    prensa, pensei,è mais um insignificante apadrinhado; mas
    lendo sua matéria, fui tomado de grande emoção. belo texto.
    não mais poderemos dizer: o filho do juca; mas, juca, o pai
    do andré. você destronou o velho. meus velhos olhos de
    setentão marejaram de emoção. nunca mais você será o mes-
    mo.

  • Caro André,

    Que texto brilhante. Passei a acompanhar o blog a pouco tempo e devo dizer que a partir de agora passarei por aqui frequentemente.

    Mais uma vez que belo texto.

    Obrigado por compartilha-lo.

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