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MITO DIVIDIDO

Até a noite de 16 de outubro, quando o São Paulo venceu o Náutico por 3 x 0, Rogério Ceni estava decidido a se aposentar no fim do ano. Essa era a posição que ele passaria à diretoria do clube quando se encontrassem para uma conversa definitiva, após o encerramento da temporada.

O São Paulo também trabalhava com o iminente adeus do goleiro, capitão e ídolo. O departamento de marketing planejava o que pretende ser a maior despedida de um jogador na história do futebol brasileiro. Um evento com características diferentes de tudo o que nos acostumamos a ver.

Havia até um plano para o pós-aposentadoria, idealizado pelo presidente Juvenal Juvêncio no breve período em que Paulo Autuori comandou o time. Autuori passaria a exercer um cargo executivo no departamento de futebol em 2014, com Rogério como novo treinador da equipe profissional. Seria uma forma de iniciar a carreira à beira do gramado num ambiente confortável e com a tutela de um profissional que ele considera um amigo. Mas hoje está tudo em espera. Ceni não sabe se quer parar ou seguir jogando.

Não foi a vitória sobre o Náutico que fez Rogério voltar a conviver com dúvidas, mas a declaração de Muricy Ramalho após o jogo. Ao dizer que tentaria convencer o goleiro a renovar seu contrato se fosse diretor do São Paulo, o técnico acarinhou o capitão e proporcionou a oportunidade de rediscutir o assunto. O excelente desempenho de Rogério embaixo das traves, aos 40 anos, vinha sendo camuflado por uma temporada de mau futebol coletivo, ameaça de rebaixamento e pênaltis desperdiçados. As palavras de Muricy permitiram que Rogério enxergasse pontos positivos em 2013 e a possibilidade de um 2014 muito melhor.

O próprio retorno de Muricy teve impacto no processo de decisão, uma vez que com ele a opção de Rogério ser técnico do São Paulo no ano que vem está afastada. Trabalhar como treinador em outra cidade, ou até outro país, são alternativas complicadas do ponto de vista familiar. Um período sabático de aprendizado com técnicos consagrados, obrigatoriamente no exterior, também imporia uma mudança de vida que não lhe agrada no momento. Por outro lado, ficar em casa em frente à televisão não lhe passa pela cabeça. A falta de um desejo claro sobre o futuro próximo estimula Rogério a prorrogar sua trajetória no gol.

Suas condições físicas e técnicas não seriam obstáculos. Rogério tem se sentido bem e jogado ainda melhor. A atuação notável contra a Universidad Católica, anteontem, ajudou a comprovar que os reflexos estão em dia e que a confiabilidade permanece intacta. Basta dizer que a noite em Santiago tem sido comparada com a final do Mundial de Clubes da Fifa de 2005, contra o Liverpool, quando Rogério fez o melhor jogo de sua vida.

Outros aspectos o impulsionam a continuar: a disposição da diretoria do São Paulo de concordar com qualquer decisão que ele tome, e as manifestações de pessoas que Rogério considera importantes. Em seu círculo mais próximo, ninguém deseja vê-lo aposentado. E há também a chance de estender a marca de Pelé como o jogador que mais vezes vestiu a camisa de um clube, recorde que Rogério pode superar já neste ano.

Contemplar a retirada é um processo angustiante até mesmo para quem tem um caminho estabelecido na chamada “segunda carreira”. O ícone são-paulino experimenta as idas e vindas desta conversa interna, em que o vislumbre de um encerramento apoteótico é um objetivo e uma miragem. O ano sofrido simultaneamente o empurra para longe do gramado e o impede de sacar as luvas. Por isso a Copa Sul-Americana tem um papel dúbio e potencialmente decisivo: pode representar um 2014 atraente e, ao mesmo tempo, significar a despedida perfeita. Dúvidas que se recusam a ir embora.

Há um ano, Ceni vivia um impasse. Pretendia jogar mais uma temporada, mais uma Copa Libertadores, mas o clube estava politicamente dividido quanto ao jogador que o simboliza. Hoje, todas as opções estão estendidas diante dele, como cartas de um baralho. Rogério só não sabe qual escolher.



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