CENSURA E GANÂNCIA



Em 2008, Fernando Meligeni e eu escrevemos juntos um livro de histórias da carreira dele, chamado “Aqui Tem!”.

Apesar de abordar passagens que aconteceram na infância e adolescência de Fernando, e também tratar, brevemente, do pós-carreira nas quadras, o livro passa longe de ser uma biografia.

É uma coleção de memórias, algumas interligadas, para quem gosta de tênis, do Fernando ou simplesmente tem interesse de conhecer um pouco do cotidiano de um esportista.

Minha contribuição para o debate atual sobre biografias de pessoas públicas resulta de uma outra experiência.

Dois anos mais tarde, colaborei com outro projeto, escrito em conjunto com Paulo Vinicius Coelho, o PVC.

O livro se chama “Os Cem Melhores Jogadores Brasileiros de Todos os Tempos”. É o resultado de uma enquete online que teve a participação de mais de cem mil pessoas. Os cem jogadores eleitos foram para o livro, acompanhados de informações sobre suas carreiras e um texto em homenagem a eles.

Na verdade, havia mais. Havia também uma ilustração, algo como uma charge, na página ao lado de cada texto. A ideia inicial era utilizar fotos, logo abandonada por causa dos direitos autorais. A editora argumentou que o projeto ficaria muito caro.

Um artista, Fraga, foi contratado para fazer as charges e, por precaução, a editora tomou a iniciativa de procurar os jogadores, representantes e/ou herdeiros para obter autorizações de uso de imagem.

Lembro-me de reuniões em que questionei a necessidade de tanto cuidado. Charges de personagens públicos da vida brasileira são publicadas quase que diariamente nos jornais, afinal.

A resposta foi sempre a mesma: a penalização imposta à editora Companhia das Letras, por causa da biografia não autorizada de Mané Garrincha, escrita magistralmente por Ruy Castro, deixou em alerta os advogados que prestam serviços a empresas que publicam livros.

Eu conhecia o caso. Argumentei que o livro que estávamos fazendo era uma homenagem a cem jogadores. Uma obra em que a privacidade dos atletas não seria exposta, que não tínhamos a intenção de revelar detalhes secretos ou comprometedores.

Sem sucesso. Os contatos para autorizações foram feitos enquanto PVC e eu escrevíamos os textos. Apesar das dificuldades, tudo corria bem até uma tarde em que meu telefone tocou. Era a notícia de que o advogado da família de Garrincha só nos daria a autorização se os herdeiros do imortal Mané recebessem uma quantia em dinheiro.

O valor foi rapidamente infomado e, ainda mais rapidamente, recusado pela editora. Assim como a autorização para publicarmos uma reprodução artística da imagem de Garrincha em um livro que o celebrava.

Não se tratava de uma medida tomada pela família para proteger a memória de um ex-jogador conhecido em todo o Sistema Solar. Tampouco uma maneira de evitar a divulgação de conteúdo sensível, argumento utilizado por aqueles que, hoje, pretendem censurar obras que contam a vida de pessoas que construíram a história do nosso país.

Era, apenas, uma forma de ganhar dinheiro. Com uma charge.

A página 91 do livro que escrevemos e publicamos está decorada com uma ilustração das costas da camisa 7 do Botafogo. Número de Garrincha, o único jogador que não aparece na obra porque seus herdeiros não permitiram.



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