COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

NÃO, OBRIGADO

A entrevista de Claudio Maldonado a este diário, publicada na sexta-feira passada, é extremamente oportuna para a discussão do calendário do futebol brasileiro. O trecho em que o volante chileno expõe a conversa que manteve com Marcelo Bielsa em junho passado, quando o treinador analisava o convite feito pelo Santos, é mais um exemplo de como as características da temporada no Brasil são prejudiciais.

Maldonado tocou em pontos evidentes, para os quais dirigentes de clubes e de federações teimam em fechar olhos e ouvidos desde sempre. Apontou a frequência e a quantidade de partidas como fatores que ameaçam as carreiras dos atletas e a qualidade do jogo. Comentou como o trabalho dos técnicos é limitado a apenas planejar atuações, pois não há intervalos suficientes para efetivamente treinar os times. Uma das melhores frases de toda a conversa é “quem trabalha é o departamento médico e físico”.

Mas a maior contribuição da entrevista para o debate que está na ordem do dia – graças ao movimento Bom Senso FC – é uma resposta de Maldonado a Bielsa. Uma revelação do que perdemos por ser como somos. O técnico argentino considerava a oferta do Santos e procurava informações sobre o que encontraria no futebol brasileiro. Maldonado, que jogou sob o comando de Bielsa na seleção do Chile, elogiou o clube e a cidade, mas o desaconselhou a vir. Ao ser perguntado se Bielsa teria sucesso no Brasil, o jogador do Corinthians disse que não. Por quê? “Você não terá tempo para trabalhar. Aqui se joga quarta e domingo, quarta e domingo”, explicou o chileno.

Poucos profissionais merecem a descrição de “treinador de futebol” como Marcelo Bielsa. Um obcecado pelo dia a dia, pela programação de treinamentos, a aplicação de conceitos, a atenção aos detalhes. Maldonado contou que Bielsa o questionou sobre cada jogador do elenco santista, uma indicação de seu preparo. Quem contrata Bielsa contrata uma visão de futebol, uma forma de entender o jogo e um método para ensiná-la (há um vasto material publicado sobre o tema, a quem estiver interessado). Mas se não há condições para trabalhar, no sentido literal da palavra, tudo perde o sentido.

A indústria do futebol no Brasil se beneficiaria muito da presença de técnicos estrangeiros, especialmente aqueles que representam mudanças. Mas essa mesma indústria os repele ao não permitir o desenvolvimento dos que estão aqui. Não temos intercâmbio de experiências, não proporcionamos um ambiente de aprendizado. Como resultado, profissionais de fora são refratários à possibilidade de dirigir nossos times, e nossos técnicos não aparecem no radar do primeiro mundo do futebol.

Nesta segunda-feira, representantes do Bom Senso FC serão recebidos para uma reunião na CBF. Levarão para a conversa um dossiê que sustenta os cinco pontos apresentados na semana passada como pilares das reivindicações. Tomara sejam levados a sério – os jogadores e o dossiê – pela confederação, para que, um dia, alguém como Marcelo Bielsa se sinta estimulado a trabalhar no Brasil.

INACEITÁVEL

As irresponsabilidades cometidas no estádio Frasqueirão, no sábado, não podem ficar sem investigação e punição dos envolvidos. O que se viu antes de ABC x Palmeiras (jogo que não deveria ter sido realizado) foi tão assustador que lembrou a tragédia de Hillsborough, em 1989, quando 96 torcedores morreram em um jogo entre Liverpool e Nottingham Forest. Gente prensada no alambrado, pânico estampado no rosto de crianças, campo invadido por quem não tinha outra saída. Ao contrário do que aconteceu na Inglaterra, a polícia de Natal aparentemente agiu com calma e cuidado, auxiliando os torcedores em apuros, o que pode ter sido a diferença entre um susto e um desastre. Não deve ser complicado entender o que levou à superlotação do estádio e às cenas vistas pela televisão. Não se pode esperar que pessoas morram para que providências sejam tomadas.



MaisRecentes

Porte



Continue Lendo

Segunda vez



Continue Lendo

Paralelos



Continue Lendo