COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

COBRADOR

Houve um momento estranho na noite de quinta-feira, no Morumbi. Um momento carregado do tipo de dúvida, de insegurança, que não se encaixa com um time que está em casa, abraçado por mais de 30 mil torcedores. Que não se encaixa com a imagem de seu jogador mais importante prestes a fazer algo que sempre fez.

Aloísio sofreu o pênalti de Galato e imediatamente pegou a bola. Antes de ajeitá-la na marca, olhou para trás e levou duas vezes a mão ao peito. “Eu bato”, avisou. Por instantes, pareceu suficiente. Tanto que o goleiro do Criciúma o procurou para a tradicional catimba. Aloísio o abraçou. Ao se abaixar para arrumar a bola uma vez mais, algo chamou sua atenção. Olhou para trás, era Rogério Ceni. O goleiro, capitão, ídolo e cobrador de pênaltis do São Paulo trotava em direção à área. Aloísio olhou de novo, abaixou a cabeça e se afastou. O pênalti não era dele.

Enquanto Aloísio imaginava que seria o responsável pela cobrança, Rogério estava do outro lado do gramado, em sua própria área. Uma parte do Morumbi entoou os gritos que geralmente se apoderam do estádio são-paulino quando há um pênalti a ser batido. Mas Rogério ficou. Paulo Autuori chamou sua atenção no banco, gesticulou apontando o lugar onde ele achava que Rogério deveria estar, como se dissesse “vai!”. Em vez de correr, Rogério abriu os braços. Foi necessário um gesto mais enérgico do técnico para estimulá-lo a atravessar o campo.

A reação de Rogério à primeira sugestão de Autuori pode ter tido várias razões. Conjecturas que empalidecem diante do que é a configuração normal de um pênalti a favor do São Paulo. Nenhuma possibilidade supera em importância o fato de ser desnecessário que Autuori lhe diga o que fazer. Ele é o cobrador. A experiência com Jadson, no jogo contra o Flamengo, provou-se equivocada.

Dúvidas têm um efeito erosivo em times de futebol. É por isso que equipes costumam definir quem faz o quê. Para pênaltis, há um batedor designado e opções para quando este jogador não estiver em campo. Questionar a ordem estabelecida é permitir que a incerteza entre em campo. É criar a oportunidade para situações como a de anteontem.

Aloísio pegou a bola porque se viu no direito de bater. A questão teve de ser resolvida na hora, muito provavelmente à sombra das falhas recentes do batedor de sempre. Rogério foi para a cobrança porque Autuori determinou e porque sabe que este é seu papel. Mas não foi inteiro, convicto. Talvez preferisse não bater, pelos erros nas duas cobranças anteriores ou por não se sentir nas melhores condições. As circunstâncias podem não ter absolutamente nenhuma relação com o terceiro pênalti perdido em sequência. E podem ter todas. Isso é o que a dúvida faz quando se abre uma porta.

Estuda-se destituir Rogério do “cargo” de cobrador oficial. Entregar a missão para outro jogador é melhor do que deixar a situação indefinida, mas nada pode ser pior para o São Paulo do que ver sua principal liderança em crise de confiança. E a confiança só será reestabelecida com pênaltis convertidos.

CONTABILIDADE

Estamos chegando ao fim do primeiro turno do Campeonato Brasileiro, momento apropriado para certas projeções. O São Paulo tem dezoito pontos ganhos e sessenta a disputar (Coritiba, amanhã, e mais dezenove jogos do segundo turno). Para atingir a média de pontos (44) do décimo-sexto colocado nos últimos sete campeonatos, precisará de mais vinte e seis. Será necessário melhorar o desempenho atual, de 33%, para 43%. É menos da metade dos pontos disponíveis. Na virada do returno do ano passado, por exemplo, o Palmeiras precisava dobrar seu aproveitamento para se manter na primeira divisão.

PÉ NO CHÃO

O espetacular gol do botafoguense Hyuri veio acompanhado de declarações inteligentes após o jogo. Consciência, humildade, foco. Que a boa cabeça e o bom futebol continuem lado a lado, para que um gol tão lindo não seja usado contra ele.



  • Emerson Cruz

    E o pior momento do SPFC, em mais de 20 anos, acontece justamente quando ocorre a pior fase da carreira de Rogério Ceni. Os próximos meses devem ser bem sinistros e com grande possibilidade de um final catastrófico para a equipe do Morumbi no Brasileirão.
    Sobre o Hyuri, tomara que além de “a boa cabeça e o bom futebol ” permanecerem lado a lado, que o Botafogo, desta vez, consiga segurar suas promessas por um bom tempo.

  • Carlos Domiciano

    Andre, estão dizendo que o Autuori não teve tempo para treinar o SPFC ainda, assim não conseguiu arrumar o mesmo. Não é verdade, ele pode ser um ótimo treinador, mas veio na hora errada. Eu queria na época da troca o Muricy ou o Dorival Júnior, mais o Muricy doque o Dorival. O SPFC já é acomodado por natureza, sua grande estrutura acomoda muitos jogadores, então sempre vai bem com treinadores de fibra, assim como foi Telê e Muricy.
    Se a diretoria continuar fazendo jogo de ciumes políticos o SPFC vai cair mesmo. Devia trocar o Autuori agora pelo Muricy ou Abelão que tá aí também. Outra sugestão: R.Ceni, Maicon, Tolói e A.Carlos e Reinaldo, Denilson, Wellington e Jadson, Ganso, L. Fabiano e Aloísio. O Ganso jogando na frente assim como o Danilo no corinthians.

  • Tadeu Silva

    Dúvida da altura de um personagem apenas: O Sobrenatural de Almeida (Nelson Rodrigues)

  • Josaurelio Medina

    É de estranhar você comentar os pénaltis perdidos pelo arrogante Rogério Ceni e se calar sobre as inúmeras falhas cometidas ultimamente quando em sua posição de origem. Isso é oportunismo e não jornalismo.
    Só com a aposentadoria do Vice-Rei (Rei é o Jujú) e do Autuori o São Paulo irá respirar.
    (sou sampaulino mas não me iludo)

    AK: Você se ilude, sim. Tanto que se mostra incapaz de perceber que o assunto do texto é a questão do cobrador de pênaltis. E acha que sabe o que é jornalismo. Um abraço.

  • Paulo Pinheiro

    A esperança do SPFC vem da Bahia. Os dois baianos estão em queda livre. Essa é a esperança do tricolor.

    Mas essa crise de autoridade (quem afinal manda naquela bagunça ?) vai ter que acabar.

    Sobre o Hyuri, é ótimo que não queiram fazer dele o “novo Pato”. Em Criciúma ontem já sentiu a marcação individual que reservaram para ele.

    O que fazer nessa hora? Passar a bola rápido para o companheiro desmarcado que certamente aparecerá. Essa é a única vantagem de receber marcação especial: atrair adversários, liberando companheiros. Tem que soltar a bola rápido.

  • marc

    André,

    Não faço a menor idéia de “onde” veio esta sua conta aritmética com relação ao São Paulo.

    Oras, se em 2012 o Palmeiras terminou o primeiro turno com 16 pontos, e agora o São Paulo terminou o mesmo primeiro turno com 18 pontos (somente dois pontos de diferença) como pode ser possível que o Palmeiras precisava dobrar o seu aproveitamento, enquanto o São Paulo somente precisa melhorar em 33% o seu (33% para 44% significa uma melhora de 33%, mais ou menos).

    História para boi dormir. O número que realmente importa é que o São Paulo somente fez 2 (dois!) pontos a mais do que o Palmeiras de 2012, que foi rebaixado antes do término do último brasileiro. Em 2011 o Atlético Paranaense foi rebaixado com exatamente o mesmo número de pontos no final do primeiro turno. Em 2009, Santo André e Náutico tinham também exatos 18 pontos no término do primeiro turno e também foram rebaixados. Em 2008, o Vasco tinha 19 pontos, e acabou rebaixado. Em 2006, o Fortaleza tinha 20 pontos e foi rebaixado, e por ai vai…

    É bom o São Paulo acordar pois, os números, diferentemente do que vc postou, são MUITO semelhantes ao do Palmeiras do ano passado.

  • RENATO77

    A má fase não pode durar pra sempre.
    A qualidade do elenco vai prevalecer, uma hora ou outra vai. Tem equipes piores do que essa do SPFC. Pra não falar na força da camisa.
    53% de aproveitamento no segundo turno tiram o clube da ZR. O primeiro passo é fechar a defesa e jogar como time pequeno até a qualidade que existe na frente voltar a aparecer.
    Clube grande pra ser rebaixado tem que ter time RUIM, elenco RUIM e estar de mal com o poder. Não me parece ser o caso do SPFC.
    3 clubes grandes estão na proximidade da tabela, mas em seguida tem Criciuma, Vitoria e Bahia com menos elenco e menos camisa.
    Nesse intervalo da tabela vejo Flamengo e Fluminense com os mesmos riscos que o SPFC. E o Vasco que se cuide também.
    Enfim, aposto que o SPFC não cai e no final do ano será a única coisa a ser comemorada.
    É pouco. É pensar em 2014.
    Abraço.

  • Teobaldo

    Sempre vejo comentários do tipo “esse ano o nível do campeonato está muito baixo”, mas o que eu vejo, cada vez mais com o passar dos anos, é um maior equilíbrio entre os times, mesmo que alguns deles tenham recursos que outros. Não pesquisei os números, mas em valores absolutos, mas tenho a impressão que os 40 pontos do Cruzeiro estão abaixo do ocorrido em campeonatos passados, com o mesmo número de jogos. Mas o que impressiona é a parte de baixo da tabela: entre o 17º (Portuguesa) e o 8º (Goiás), apenas 7 pontos de diferença, apesar da total bagunça com times jogos à menos (Santos – 2; Náutico, Ponte, Inter, São Paulo e Atlético – 1). Ao que parece, mesmo de forma lenta, os times vão aprendendo que num torneio de pontos corridos o que mais vale é a organização. E, pelo visto, a organização está fazendo mais diferença que o volume de dinheiro que cada um tem à disposição. Um abraço aos amigos do blog.

  • Denis Akira

    O trabalho de Autuori no ano até aqui é muito lamentável. Tanto no Vasco, agora muito melhor com Dorival Junior, como no São Paulo, de desempenho infinitamente pior que na época de Ney Franco. E agora ele já teve algum tempo para treinar o time, desculpa usada até outro dia para justificar a falta de futebol da equipe.
    Uma reformulação (mais uma…) da comissão técnica e do elenco no fim do ano é essencial, caso consiga continuar na série A ou não. Dos dirigentes também seria ótima, mas isso já é menos provável, infelizmente.

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