COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

SER E ESTAR

“Kaká não consegue mais jogar no meio, numa linha de três. Tem de jogar na lateral do campo. O problema é que, no Real Madrid, quem joga ali é o Cristiano Ronaldo. E na Seleção Brasileira, é o Neymar.”

O diagnóstico, de autoria de um treinador brasileiro, identifica os problemas de mobilidade do novo jogador do Milan, que dificultaram sua escalação como “interior” – na terminologia dos espanhóis – tanto em seu ex-clube como na Seleção. O trabalho de quem cumpre essa função, de acordo com o técnico, requer capacidades físicas que estão no passado da carreira de Kaká. Esta é uma das explicações para o papel de opção que ele vinha exercendo no Real Madrid.

Há outras, como se sabe. Mesmo considerando a concorrência pela posição, o tratamento que José Mourinho dispensou ao meia brasileiro beirou o desrespeito. O repórter Diego Torres, responsável pela cobertura do clube branco no jornal “El País”, descreveu diversos episódios que evidenciaram o desprezo do técnico português pela estatura de Kaká como futebolista e por qualquer configuração que levasse em conta suas habilidades. Mourinho relegou Kaká a jogos de menor significado e/ou minutos sem importância. A resistência do ex-Bola de Ouro a deixar Madri nas últimas duas temporadas é um dos aspectos intrigantes da história.

Em outubro do ano passado, a Seleção serviu como fiadora de Kaká. Atuações convincentes em amistosos contra o Iraque e o Japão recuperaram sua condição no time então dirigido por Mano Menezes e deixaram Mourinho em situação desconfortável: o jogador que ele ignorava, contratado por um alto valor, era bom o suficiente para jogar pelo Brasil. Pouco mais de um mês depois, José Maria Marin substituiu Mano por Luiz Felipe Scolari.

Também houve troca de comando no Real Madrid, com a chegada do técnico com quem Kaká dividiu os melhores momentos de sua trajetória. Com Carlo Ancelotti, a relação seria a melhor possível. Mas a disputa por um lugar no time ficou ainda mais intensa após a contratação e a adaptação instantânea de Isco, e a declaração de Scolari sobre a necessidade de jogar agravou o quadro. Os apupos da torcida do Madrid durante o recente Troféu Santiago Bernabéu terminaram por convencer Kaká de que era hora de ir.

O retorno ao Milan tem objetivos claros: jogar mais e se colocar à disposição da Seleção. O time de Scolari utiliza apenas um meia “puro”, Oscar. Dez anos mais novo do que Kaká, o jogador do Chelsea pareceu ter agradado plenamente ao técnico durante a Copa das Confederações por completar missões táticas consideradas importantes no sistema do time. Mesmo quando foi discreto na geração de jogo, Oscar recebeu elogios de Felipão. Ele aparece como o dono da camisa se a Copa do Mundo começasse hoje.

Mas ainda há alguns meses, para alento de Kaká. Tempo suficiente para reunir saúde, consistência e quem sabe mostrar que o diagnóstico que abre esta coluna foi precipitado. Se conseguir se estabelecer, ainda que não seja titular, deve haver um lugar para ele. Houve um para Jadson.



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