COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

BRAVURA

Na noite da última segunda-feira, véspera da leitura do relatório e da votação da Medida Provisória 615, uma informação chegou à sala em que membros da Associação Atletas pela Cidadania estavam reunidos em São Paulo: o lobby da Confederação Brasileira de Futebol havia acampado no gabinete do senador Gim Argello (PTB-DF), relator da MP, pressionando por alterações no texto.

As notícias não eram animadoras. Políticos do naipe dos senadores Renan Calheiros (PMDB-AL) e José Sarney (PMDB-AP) articularam pela retirada da emenda que exige transparência na gestão esportiva, sugerida pelos atletas. Não foi surpresa para ninguém quando, no dia seguinte, soube-se que Argello havia feito as mudanças solicitadas ao relatório, que só não foi votado na data marcada porque os membros da comissão preferiram adiar a leitura. Na quarta-feira, um contragolpe da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República (o governo é favorável à emenda) conseguiu remarcar a sessão para a semana que vem.

O embate entre as forças que querem avanços na administração esportiva no Brasil e as que desejam manter tudo como está não aconteceu em Brasília, ainda. Mas aconteceu em São Paulo, ontem, durante o Fórum Nacional do Esporte. O evento teve a presença do presidente da CBF, de vários bajuladores desprovidos de capacidade de constrangimento e de componentes dos Atletas pela Cidadania: Ana Moser, Raí e Paulo André.

O eterno ídolo são-paulino e o atual zagueiro do Corinthians submeteram José Maria Marin a um extenuante debate. Não por acaso, o dirigente preferiu responder perguntas simples e diretas com divagações de difícil compreensão. Paulo André o questionou sobre ações da CBF para o progresso estrutural do futebol no Brasil, e Marin argumentou com as dimensões territoriais do país. Quando Raí tocou na responsabilidade da confederação e dos clubes no trabalho de base, o cartola disse que nossos clubes sempre revelaram muitos jogadores, como por exemplo Luizinho, o pequeno polegar (que surgiu no Corinthians na década de 1940). Ao falar sobre exportação de jogadores, citou Ulk (provavelmente se referindo a Hulk) e “aquele menino do Atlético Mineiro” (talvez seja Bernard).

Marin se posicionou contra a criação de uma liga de clubes no Brasil e a favor da eternização de dirigentes esportivos em seus cargos, o que não surpreende. São questões de sobrevivência da gestão paleozoica e deletéria que ele representa. Os cartolas de clubes – responsáveis por figuras como Marin – devem ter adorado a declaração sobre o desgosto do São Paulo com a remarcação de jogos por causa da excursão ao exterior: “Ninguém obrigou a viajar”. É possível imaginar o presidente de uma liga falando assim?

Ao final, a desconexão da realidade do principal dirigente do futebol brasileiro ficou tão evidente quanto a postura destemida de quem o contestou, especialmente se pensarmos que se trata de um jogador de futebol em atividade. Bravo, Paulo André.

Que os atletas vençam o jogo na terça-feira, em Brasília.



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