CORAGEM



O que encanta no maravilhoso gol de Éverton Ribeiro é a coragem.

A coragem de arriscar, ir para o “tudo ou nada”, porque às vezes só o tudo vale a pena.

Pode parecer um exagero tratar da qualidade técnica envolvida no lance, porque, não fosse ela, nada teria acontecido.

O talento de Éverton está bem evidente.

Mas é difícil resistir à vontade de dissecar um gol tão espetacular.

Lembro de uma conversa com Alex, há muitos anos, após um jogo do Cruzeiro em que a bola se apresentou a ele na meia-lua. Alex a ajeitou para bater de pé esquerdo e, antes do chute, uma imagem lhe veio à mente.

O gol que ele marcou pelo Palmeiras, na semifinal da Copa Libertadores de 1999, contra o River Plate.

Naquela noite no Palestra Itália, Alex matou a bola no peito, deu mais um toque e bateu forte, alto, no canto direito do goleiro. No Mineirão, anos mais tarde, ele cogitou fazer igual.

Só que algo lhe chamou a atenção – ele contou, mas não me lembro o que foi – e Alex mudou de ideia. Bateu cruzado, buscando o outro canto, e a bola subiu demais.

A conversa é uma amostra do que pode passar pela cabeça de um jogador de futebol durante um lance.

Na hora em que ajeitou a bola que veio da grande área, a memória de Alex localizou um gol no passado e lhe sugeriu repetir a jogada. E até o momento do chute, num intervalo que não passou de um segundo, ele optou por outro caminho e acabou perdendo o gol.

Lembrei de Alex ao ver o replay lateral do gol de Éverton, pois há um instante em que ele olha para Felipe. É enquanto a bola faz o trajeto do lençol em Luiz Antônio.

Éverton utilizou a viagem da bola para se localizar e saber se Felipe tinha saído do gol. As informações recebidas certamente o ajudaram a tomar uma decisão sobre como finalizar a jogada.

Tudo isso em uma quantidade mínima de tempo.

Ele poderia ter deixado a bola quicar e resolver o lance de maneira conservadora. Provavelmente faria o gol, pois Felipe ficou imóvel.

Mas quero acreditar que fazer um gol “comum” não lhe pareceu interessante, diante do que seria um golaço de sem pulo.

Aí entra a coragem para enfiar o pé na bola caindo, de primeira, e estufar a rede.

Éverton Ribeiro apostou tudo e ganhou.

Que gol fenomenal.



  • Marcelo Morais

    Muito interessante essa analise de um gol em camera super lenta. Nao vi o gol ainda, portanto vai ser mais gostoso ve-lo depois desse texto.

    Por falar em belo gol, que tal o de Villa ontem contra seu ex-time?

    AK: Estupendo. Um abraço.

  • Willian Ifanger

    A força estúpida do chute, o jeito com que a bola estufou a rede, no ângulo…sortudos aqueles que aproveitaram isso “in loco”.

    Pena não termos mais câmeras em jogos que se preocupam com os torcedores. Seria bacana ver as diferentes reações ao lance.

    • Marcos Tulio

      Willian Ifanger,

      Estava nesse jogo, exatamente esse sentimento que tive no momento. Fui um sortudo por ver esse lance no estádio, já fui inúmeras vezes no Mineirão e afirmo categoricamente, o gol mais bonito da minha vida.

      Sobre reações dos torcedores, no site do clube tem uma câmera mostrando quais foram as reações dos torcedores, fizeram uma matéria com próprio Éverton sobre isso, muito legal.

      Abs

  • marco

    boa tarde! eu estava lá,sentado atras do gol onde esta obra prima foi imortalizada,o gol do joãozinho contra o fluminense e outros do Alex em 2003 chegam perto,mas a coragem em arriscar mandar a bola na torcida se erra-se fez deste o gol mais bonito que vi em minha vida de cruzeirense,” benditos sejam os corajosos que não aceitam a simplicidade e se ariscam porque deles serão a eternidade do talento!

    • Raphael

      Concordo com sua frase. “o gol mais bonito que vi em minha vida de cruzeirense”

  • Fernando

    Não existe gol feio, mas esse aí é brincadeira.
    GOLAÇO!

  • 89

    Everton Ribeiro da base do Corinthians,
    que o Sr. Tite não aproveitou em 2011.
    Que golaço.

  • Mário Sérgio

    No gol mais bonito da história das Copas, Maradona atravessou o campo vingando as Malvinas pensando em lançar a bola para Valdano, mas não achava brecha. Mais: na hora de concluir a jogada, lembrou de um lance parecido da infância em que chutou a bola em cima do goleiro, razão pela qual tomou uma bronca do irmão por não tê-lo driblado também. Por isso, naquela fração de segundo, também resolveu deixar o goleiro inglês estatelado no chão…

  • Paulo Pinheiro

    Tudo isso é verdade e aplaudo a competência do Éverton Ribeiro.

    Agora… que essa coragem só existiu porque o Cruzeiro já estava na frente, isso é fato.

    Se estivesse, por exemplo, 1×0 para o Flamengo ele possivelmente passaria para um companheiro (tinham dois) ou teria feito como o André Kfouri falou.

    Os gols mais bonitos do futebol talvez tenham surgido sempre em situações mais confortáveis de se arriscar uma pintura.

    • Ruan Santos

      A questão é que jogo 0 X 0 e algum jogador tenta algo diferente e erra todo mundo vai criticar eu, você e até o Kfouri.

      • Paulo Pinheiro

        Sim. Por isso que achei a palavra “coragem” relativa. Se ele tivesse arriscado a jogada numa situação dessa de 0x0 eu também consideraria corajoso.

        AK: Eu tenho sérias dúvidas se o placar do jogo influiu na decisão que ele tomou. Um abraço.

  • João Sardinha

    O gol maravilhoso de Everton Ribeiro pode ter sido ironicamente a pá de cal na sua esperança em ser convocado por Felipão para a seleção. Felipão leva Neymar por ser uma unanimidade mundial senão não levaria, o mesmo se aplica a Lucas que mesmo sem jogar bulhufas na seleção tem cadeira garantida por pressão da mídia aqui em SP. Felipão é um cara avesso a jogadores habilidosos exemplos há aos montes, o mais clamoroso foi o de Alex em 2002 só isso já basta para traçar o perfil desse Nero do futebol. Com a mesma facilidade que ele convoca o fundista Ramires ele deixa um jogador como Alex, Kaka, Tardelli de fora.

    AK: Felipão levou Denílson para a Copa de 2002. Levou Bernard para a Copa das Confederações. Um abraço.

    • F…a, hein!

      Além de não escrever coisa com coisa, ainda compara o Tardelli ao Kaká e ao Alex!

      Hunpf!

    • Paulo Pinheiro

      Tá, mas… se você fosse técnico da seleção levaria ele por causa dessa partida? OU… por causa desse lance?

  • Esse é o tal ‘Sr. Golaço’!!!

    Éverton era da safra dos Dentinhos e Lulinhas da vida, no SCCP. Era lateral esquerdo na base, mas já mostrava um futebol ofensivo, com bons dribles, passes precisos e ótimo arremate de fora da área. Teve azar de estar no lugar errado e na hora errada (Corinthians rebaixado de 2007). Depois veio a reformulação de 2008 e, com André Santos jogando bem, foi preterido por Mano, emprestado ao São Caetano. Sequer voltou e foi negociado.

    Desabrochou como meia no Coritiba, comeu a bola e agora repete tudo isso no Cruzeiro.

    Sorte dos cruzeirenses, azar nosso… 🙁

  • Andre

    Estava lá no Mineirão e nem consegui vibrar direito com esse gol. Na hora só soltei um P Q P, que gol foi esse que acabei de ver!!!
    Não me canso de rever essa pintura de gol.

    Abraços

  • Ailton

    Caro André

    Eu vi a entrevista do Evérton, um golaço, não sei se ele também não viu o Borges e o William entrando, o que poderia pensar em tocar por cima do Luis dando passe para um dos dois, mas acho que a indecisão do Felipe em sair do gol para o abafa, facilitou o chute forte para estufar a redes. Acho que se o Felipe tivesse saído a opção por cobertura ou até dominar a bola seria difícil.
    André o Felipe é apenas indeciso para sair do gol ou é falta de treinamento mesmo?

  • Marcos Nowosad

    Excelente análise do gol, André!

    Chapéu de atacante sobre um defensor na área não chega ser exatamente uma raridade.

    O que tornou esse gol um verdadeiro “golaço” foi exatamente a coragem (e a felicidade) do Éverton de meter com um sem-pulo a bola no ângulo, mesmo tendo somente o goleiro na frente.

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