FRANCO



Há um aspecto das declarações de Ney Franco sobre Rogério Ceni (entrevista a Carlos Eduardo Mansur, publicada na edição de hoje de “O Globo”) que não tem recebido a atenção devida.

É a primeira vez que Ceni – um jogador que representa o São Paulo como nenhum outro – é alvo de críticas públicas tão diretas a seu comportamento, que abrem uma janela para a dinâmica do cotidiano do clube.

O que Ney Franco declarou ao jornal não é novidade para quem acompanha o São Paulo com certo nível de acesso. O ineditismo está na exposição de tais opiniões, com nome e sobrenome, por causa da representatividade de Rogério e a importância de sua trajetória.

Haverá quem diga que Ceni, certa vez, foi afastado pelo ex-presidente são-paulino Paulo Amaral por um mês, o que diminuiria a importância do episódio atual. Mas são situações incomparáveis.

Primeiro porque aquela questão se deu em torno de uma suposta oferta de transferência para a Europa (queridos trolls: não faço, aqui, juízo sobre quem estava certo. Apenas retomo o contexto do ocorrido, está claro?), algo que dizia respeito apenas ao goleiro e à direção do clube.

Depois, e mais importante, porque o caso aconteceu em 2001, quando Rogério ainda não tinha o tamanho que tem hoje (seu período de crescimento mitológico se deu a partir de 2005).

De forma que a repercussão em torno da entrevista desta terça-feira faz todo o sentido.

Rogério Ceni é um jogador tão especial que praticamente não há “faixa cinza” no que diz respeito a ele. Atuações, declarações e atitudes impõem a formação de dois times, a favor e contra. Ele está sempre certo ou sempre errado, falha sempre ou não falha nunca, deve ser combatido ou canonizado.

Os extremos não levam a nada, porque ninguém é unanimidade em lugar nenhum. A sugestão de que Ceni não é uma unanimidade no São Paulo não deveria ser tão chocante.

Em relação ao que disse Ney Franco, obviamente os dois times já estão formados e se enfrentando. O que infelizmente impede que ambos os lados mantenham a distância correta (nem tão longe para poder se aproximar, nem tão perto para poder se afastar) para fazer uma análise sóbria.

O ponto aqui, apenas, é estabelecer a importância do fato, e tentar entender seu significado para o futuro.

Discute-se o caráter da atitude de Ney Franco. Coragem ou vingança? Rogério de certa maneira provocou uma reação ao fazer comentários sobre o legado (“zero, zero”) que o técnico deixou para o São Paulo, e ao saudar a chegada de Paulo Autuori (“agora temos comandante”).

Sim, Ney se vingou.

Mas por ter assinado o que disse, sem recorrer ao infame recurso do equívoco de interpretação, Ney também foi corajoso.

É preciso frisar que tais posicionamentos seriam mais valiosos se acontecessem enquanto a relação profissional está em andamento. Mas há diferenças entre o mundo ideal e o mundo real que explicam por que, na enorme maioria dos casos, opta-se por falar depois e não durante. Os motivos, creio, são óbvios. Adalberto Baptista pode oferecer um exemplo bem detalhado.

Um lado fascinante dessa história é que Ceni está a meses do fim de sua carreira em campo, e, também, a meses (provavelmente os mesmos) do início de uma carreira do lado de fora. Tudo indica que ambas as carreiras se darão no mesmo clube, de modo que seu significado para a instituição não se alterará com a aposentadoria do gol.

Rogério permanecerá influente e importante para quem quiser comandar o São Paulo. O plano pós-carreira idealizado por Juvenal Juvêncio nada mais é do que um movimento político para tê-lo a seu lado.

Vejamos quais serão as escolhas do maior ídolo são-paulino. De que forma responderá – se é que o fará – a Ney Franco, e de que maneira se posicionará no próximo capítulo de sua vida no São Paulo.
______

Ao comentar a entrevista de Ney Franco, Émerson Leão (o técnico que o antecedeu) disse à ESPN Brasil que, em sua última passagem pelo São Paulo, sentiu que o clube não queria renovar o contrato de Rogério.

A declaração me fez lembrar da coluna que publiquei no Lance! em novembro do ano passado, exatamente sobre esse assunto.

À época, indivíduos que têm dificuldade para ler e/ou raciocinar me acusaram de “clubismo” e de pretender prejudicar Ceni. Uma pena não terem comentado o que escrevi aqui e aqui, apenas dois exemplos, sobre o mesmo.

É espantoso que ao lerem um texto de fácil compreensão, pessoas percam o ponto de tal forma. A coluna tratava de uma divisão na diretoria do São Paulo a respeito da renovação do compromisso, como Leão confirmou sete meses depois.

Como se sabe, Rogério assinou um novo contrato de um ano.

É grave a falta de percepção sobre o papel de jornalistas, especialmente quando o assunto é o futebol. Lê-se apenas o que se quer, acredita-se no que é mais conveniente. Como sempre digo, é a turma dos que preferem não ser informados, e precisam se sentir ofendidos.

Como já disse Xico Sá, é o “leitor que não lê”.

Não vejo jornalistas como formadores de opinião, e sim como fornecedores de informação, opinião e contextos. Não acredito que pessoas inteligentes simplesmente adotem o pensamento de um jornalista como próprio. Entendo que nosso papel é oferecer aspectos que sejam interessantes para quem gosta de ler sobre os variados assuntos, sempre com o compromisso de publicar a verdade.

Porque a verdade aparece sempre, independentemente das vontades dos fanáticos.

Uma informação final: a divisão a respeito de Rogério permanece no comando do São Paulo, como comprovou a demissão de Adalberto Baptista. O ex-dirigente foi autorizado a confrontar publicamente um ídolo, consciente de que a batalha pela opinião interna e externa seria decisiva para seu futuro.

Baptista perdeu e saiu.



MaisRecentes

Pendurado



Continue Lendo

Porte



Continue Lendo

Segunda vez



Continue Lendo