COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

LIONEY

Lá estavam eles, juntos numa noite de verão, no lugar em que noites assim são aguardadas como colheitas. Juntos, pela primeira vez, para que o mundo pudesse descobrir como são. O que é bem diferente de ver como cada um deles é. A história os separou com a maior distância possível. A realidade os aproximou a tal ponto que a expectativa não era por apreciar um e outro. Nem um ou outro. Mas sim um com o outro.

Tão perto, tão longe. Um nasceu na Argentina, outro no Brasil. Um mantém, vazia, a casa onde viveu em Rosario, como um cordão umbilical com a terra que deixou para trás sem que pudesse senti-la em seu sangue. Volta sempre que pode, como se fosse possível rebobinar a própria vida. O outro estabeleceu raízes firmes em Santos, de onde só saiu no momento preciso, para buscar o sonho que sempre carregou dentro de si. Se pudesse, aceleraria sua existência.

Um precisou fazer as malas, empacotar os medos e viajar para Barcelona ainda menino, pois só lá conseguiria, literalmente, crescer. O outro tomou o mesmo destino apenas quando o destino de sua carreira, tão óbvio quanto uma obviedade pode ser, se apresentou como ele queria. Aos 13 anos, um não fazia ideia do que o futuro lhe guardava. O outro sabia perfeitamente como o futuro seria.

Um só pode ser visto em seu habitat natural, com uma bola colada ao pé esquerdo. Em outras condições, se transforma em fantasma. Poucas pessoas o conhecem verdadeiramente. O outro está em diversos lugares ao mesmo tempo, um rosto que se multiplica e permite a sensação de que somos, todos, “parças”. Um é refratário aos holofotes que ao outro parecem acessórios naturais.

Tão longe, tão perto. Não foi a primeira vez que os vimos no mesmo gramado. Eles já haviam se encontrado em três ocasiões, mas sempre com cores distintas. Em todas, as diferenças ficaram até mais evidentes do que o contraste entre as camisas que vestiam. Em todas, apenas um brilhou. Em um Santos x Barcelona e dois Brasil x Argentina, Lionel foi MESSI e Neymar foi Júnior. Só Neymar pode revelar o significado dessas experiências, o tamanho da influência em suas escolhas, o impacto de um gênio em sua psique. Só Messi pode relatar suas impressões.

Eles agora têm de coexistir. Não, conviver. Melhor, têm de se complementar. Para que um e outro façam sentido, precisa haver um com outro. Observando as características que os distanciam, enfatizando as qualidades que os aproximam. O universo conhece Messi, meio mundo conhece Neymar. Chegou a hora de Messi e Neymar. O papel de parceiro do melhor jogador do planeta já vitimou atacantes como Ibrahimovic e Villa, que decidiram procurar minutos e protagonismo em outras partes. Um desafio à altura da capacidade de Neymar.

Lá estavam eles, juntos no segundo tempo de um amistoso decidido. Por curtos dezesseis minutos, suficientes para uma tabela, um lançamento e palmas no momento em que Messi foi substituído. Tomemos como um rápido papo, quase um encontro casual. Um flerte de uma noite de verão.

NOVO STATUS

Messi é o único jogador do Barcelona que não tem o passe como instinto. O acabamento da ideia de jogo do time é acioná-lo em condições de fazer o que achar melhor. Neymar gozava de semelhante liberdade para tomar decisões no Santos, situação que se alterou no novo clube. O bônus é a quantidade e a qualidade das opções coletivas que ele ganhou. Um Neymar mais passador seria uma interessante novidade. Para todos.

GRANDES

Alex, 35, e Seedorf, 37, barbarizaram o Campeonato Brasileiro nas primeiras dez rodadas. Jogadores finos, merecedores do orgulho pelo brilho constante em suas carreiras. Se vieram ao Brasil para encerrá-las, têm feito questão de usar a gravata borboleta para exibições de gala. Que craques.

BOAS NOTÍCIAS

Célio de Barros intacto, concessão do novo Maracanã em revisão. Produtos da pressão popular, vitórias da sociedade.



  • Anna

    Linda coluna! Além do Celio de Barros, o Julio Delamare também não será demolido. Excelentes notícias!

  • Joao CWB

    O maior de todos é o maestro Paulo Baier que, com praticamente 40 anos, ainda trata a redonda como ela merece.

    Claro que ele não não joga o que jogava com 35, mas quero ver o Alex fazer o que o “véio” faz quando tiver a sua idade.

    Abraço

  • Juliano

    Irretocáveis, crônica e notas.

    Acho interessante observar como Neymar irá lidar com a nova e dicotômica exigência que vai enfrentar. Dicotômica porque, se o nível dos adversários será mais alto (como dizem os anti-Neymar: “contra times da copa do Brasil e Paulistinha é fácil, quero ver na UEFA” – mesmo que na Espanha também existam Levante e Getafe), é verdade também que sua responsabilidade será dividida entre MUITOS gênios da bola, diferente do que acontecia no Santos, onde tinha todo o peso nas costas desde a saída de Elano e depois PHG. Ou sejá, vai enfrentar defesas melhores, o que será mais difícil, mas está em excelente companhia, o que tornará mais fácil.

    A coluna veio ao ar no domingo pela manhã, e no final da rodada do brasileirão Seedorf e Juninho nos brindaram novamente com belas atuações, corroborando o que se sabe, e se vê. Sensacional!

    Abraço!

  • “Lionel foi MESSI e Neymar foi Júnior”… palmas!

    Só um adendo: Ibrahimovic, Villa E Thierry Henry!

  • Alberto Cruz

    André, suas colunas estão saindo tais como seus textos para o SC. Uma letra muito satisfatória, porém com os motes, as frases de impacto e as principais idéias idênticas. Um abraço!

  • As metáforas do texto são, novamente, uma seqüência de dribles impossíveis que afloram a imaginação e se concretizam em golaços!
    Parabéns e um abraço!

  • Ailton

    Caro André,

    Seu texto foi poético e inteligente. Só acho que nós brasileiros temos que reconhece que se os anos 60 e 70 foi do Pelé, no momento o século passado e este é do Messi. Neymar será tão coadjuvante, como é o Xavi, o Iniesta. Imagine se Garrincha jogasse com Pelé nos Santos nos anos 60. Você acha que o Garrincha brilharia tanto como Pelé? Se nos anos 80, Maradona jogasse no Flamengo do Zico brilharia tanto quanto o Zico? Como foi Botafogo do Garrincha, Santos do Pelé, Flamengo do Zico, hoje é o Barcelona do Messi, então dizer que “têm de se complementar. Para que um e outro façam sentido, precisa haver um com outro”, é ilusão. O Neymar irá dialogar com o Messi e o Messi terá sempre um monólogo com Neymar. Nesse momento o Messi é o Highlander. Se fosse o Neymar teria ido para o Real que tem uma postura tática que se encaixa mais para o jogo dele, no Barça na minha opinião ele será como o Pedro, mas com muito mais habilidade. Torço para o Neymar, mas os brasileiros que estão lá são muito fãs do Messi e os espanhóis, o Messi é quase um espanhol.

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