COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

A ORIGEM

Os livros contarão que o Atlético Mineiro conquistou a América na madrugada de 25 de julho de 2013, ao derrotar o Olimpia no tempo normal e nos pênaltis, no Mineirão. Essa é a data que ficará marcada na memória, esse é o jogo que passará de pais para filhos, esse é o momento em que o Atlético mudou para sempre.

Sócios da obviedade dirão que um título não pode ser traduzido por apenas um instante, adeptos do discurso pasteurizado argumentarão a favor de toda a campanha atleticana na Libertadores de 2013. Escolha seu lado. O meu? O Atlético foi campeão na noite em que Victor fez uma defesa no Independência.

Foi em 30 de maio, quando o Tijuana esteve a um chute de enterrar o torneio do Galo. Pênalti marcado aos 47 minutos do segundo tempo, contra o time da casa. Ocorrência incomum, diga-se, para os padrões caseiros das arbitragens da Conmebol. Se você é atleticano, é melhor nem pensar no que aconteceria se a bola tivesse entrado, pois o certo é evitar pensamentos ruins. Seria necessário um verdadeiro milagre.

Estamos falando de um pênalti (Leonardo Silva em Aguillar) apitado DEPOIS que o jogo acabou, durante os acréscimos determinados pelo árbitro chileno Patricio Polic. O atacante colombiano Duvier Riascos bateu na bola precisamente aos 47 minutos e 57 segundos, Polic encerrou a partida aos 49 minutos cravados. Calcule as chances de um gol do Atlético em pouco mais de 60 segundos. Boa sorte.

O pênalti é um ato de covardia contra o goleiro. Proibido de se mexer enquanto a bola não é tocada, ele não sabe como será a cobrança e carrega todos os anseios de seu time, sozinho, no centro de um gol imenso. O único aspecto que fica a seu lado é o fato de não ter nada a perder. O que se espera é a vitória do atacante, cenário que presenteia o goleiro com ausência de responsabilidade.

Mas não pense, nem por um segundo, que Victor só tinha algo a ganhar em seu encontro com Riascos. Lembre-se: o jogo estava empatado em 1 x 1 e a vitória classificaria o Tijuana para as semifinais. Praticamente não havia mais tempo. Quando o árbitro apitou, Victor era a única pessoa no mundo atleticano que poderia evitar o pior. Ele estava ali, no meio do gol, solitário.

É impossível medir a carga de pressão sobre alguém que precisa agir numa situação limítrofe. Ainda pior se nos colocarmos nas luvas de Victor, que não tinha o luxo de ignorar as circunstâncias e permitir que o instinto o guiasse. Havia uma informação sobre o batedor a buscar, uma decisão sobre o lado para o qual voar, ou arriscar não ir para lado nenhum. Victor era o último homem, na última linha, no que poderia ser o último jogo.

A defesa com o pé esquerdo não só manteve o Atlético no caminho da glória, como alterou a posição de Victor no momento de pegar outros pênaltis. O goleiro que espalmou a cobrança de Maxi Rodríguez nas semifinais, e desviou com o mesmo pé esquerdo o chute de Miranda na decisão, era alguém repleto de confiança.

Importante dizer que, das três defesas, só uma significou a diferença entre vida e morte. Em 30 de maio, Victor pegou o pai de todos os pênaltis. E fez o Atlético campeão, ali.

PARABÉNS

Da mesma forma que existem os “advogados do não”, aqueles que por medo ou preguiça sempre orientam seus clientes a não fazer nada, existem os “advogados do sim”, que propõem o debate com conhecimento e coragem. O raciocínio vale para técnicos de futebol. Para cada punhado de “técnicos do não”, vítimas de medos e preguiças semelhantes, há um ou outro “técnico do sim” que desafia a mediocridade geral com obstinação e conceitos. Quando um “técnico do sim” triunfa, o futebol avança. Cuca é um deles e merece cada segundo de satisfação pelo feito de levar o Atlético ao inédito título continental.

UTOPIA

“Buscamos um treinador que desenvolva a ideia do Barça, porque nossa ideia não se discute”. A frase é de Andoni Zubizarreta, diretor esportivo do Barcelona, na apresentação do técnico Gerardo Martino. Quando será que ouviremos algo parecido de um dirigente brasileiro?

ATUALIZAÇÃO, segunda-feira 29/7, 18h58: Chegou um email do Vascaíno – sim, aquele – com uma observação primordial. De fato, lamento não ter abordado esse aspecto na coluna. É mais uma que devo a ele:

“Se o amigo me permite um pequeno reparo, a defesa do Victor fez mais.

Suponha, por um breve minuto, que o pênalti não tivesse existido. E que o jogo, que estava razoavelmente morno, corresse até o final sem sobressaltos.

Como seria o comportamento do Atlético diante da derrota contra o Newell’s? Estariam clube, jogadores, comissão técnica e torcida tão motivados de que o improvável poderia ser possível?

Ao transformar o inacreditável em realidade, Victor fez com que todos acreditassem que o improvável fosse possível e isto foi tão ou mais importante do que a bola nas duas fases subseqüentes.

Abraços.”



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