COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

CHORE POR MIM

Eles choravam no estádio Independência, mesmo sabendo que o jogo estava longe de acabar. As medidas de emergência de Cuca – naquela noite sob os nomes de Luan, Guilherme e Alecsandro – estavam em campo, uma blitz ofensiva se ensaiava no final, ainda faltavam longos minutos.

Mas eles choravam. Velhos, jovens, crianças. Sob o efeito de uma “memória sentimental” que não aceita um desfecho diferente. Quem vive há tempos a história de um time “que não vence” inconscientemente se recusa a testemunhar o perdão. Quem ainda não viveu tanto, e o Independência estava repleto de pequenos atleticanos, age como se não tivesse o direito de saborear uma nova era. As lágrimas são tensão, nervosismo, medo. Mas são, também, dor.

Dor que anuncia uma tristeza iminente, da qual não se pode fugir. Dor que antecipa uma noite de angústia, em que os adoráveis perdedores encontram sua vocação. Dor que é conhecida, e, como tal, mais profunda. A face verdadeiramente cruel do futebol é aquela que nos deixa apenas com o sentimento, que testa nossa devoção. Que nos proíbe de sorrir.

Por quê? Por que devemos sempre estar do lado miserável de um jogo que oferece tantas possibilidades? Quem nos impôs essa condenação perpétua? Quem tem esse poder?

Ninguém. Por isso eles choravam. Choravam a tragédia inevitável, a injustiça incompreensível. Choravam a vitória sem prêmio, o pênalti sem apito, o gol salvador que o tempo impediu. Porque o tempo é sempre curto para quem precisa mover uma montanha para continuar vivo. O tempo sempre acaba.

Mas eis que o futebol, esse alquimista, se apresentou a quem já estava disposto a rejeitá-lo. Uma bola insinuante, um erro imperdoável, um pé direito implacável. E um gol. Sopro de oxigênio para um estádio que se asfixiava, réstia de esperança para quem não tinha muito mais a se apegar. E eles continuaram chorando. Só que agora a emoção que transbordava tinha outras origens. Para uns, era a perspectiva de um momento transformador. Para outros, a certeza do significado do que tinha acabado de acontecer.

O Atlético mudou, disse o presidente. O atleticano mudou, dizem as imagens. O que veio primeiro? Impossível responder. Há times que se confundem com suas razões de ser. São inseparáveis, univitelinos. Não há o que um faça que o outro não sinta. Não há o que um seja que o outro renegue.

E a mudança não depende de como essa Libertadores terminará. Ela já aconteceu. Foi no instante em que o jogo contra o Newell’s Old Boys acabou e os pênaltis apareceram no belo horizonte. Onde havia fé, surgiu crença. Acreditar é não ter dúvida, esperar não é saber.

Eles permaneceram chorando no Independência, após as cobranças perdidas e o exemplo de Ronaldinho. Após a defesa de Victor e o mergulho de Cuca. Após os gritos involuntários, os abraços em desconhecidos, a sensação de flutuar. Cada um deles terá uma história diferente para descrever a mesma experiência. No fundo, serão histórias iguais.

Retratos da noite em que o atleticano descobriu como é bom chorar.

DUPLO TWIST

Tudo contra as regras que punem comemorações de gols com cartão amarelo para quem tira a camisa ou escala alambrados. Mas algo precisa ser feito para evitar o que aconteceu com o jovem Maurides, do Internacional. Comemorar gols com acrobacias de ginástica artística é um risco desnecessário, do qual jogadores precisam ter consciência. Do contrário, clubes devem agir para proteger seus investimentos.

ARTICULANDO

O deputado Romário, como se sabe, pretende instaurar uma CPI no Congresso para investigar as denúncias contra a CBF. O presidente da confederação, José Maria Marin, convidou o deputado Henrique Eduardo Alves para ser chefe da delegação da Seleção Brasileira em amistoso em setembro. Ligue os pontos.

OFUSCADO

Paulo Autuori não merecia ter sua apresentação no São Paulo realizada durante um stand up comedy de Juvenal Juvêncio.



  • Anna

    Cuca merece e muito! Belo feito do Galo! Torcerei bastante pelo time na final. Bom domingo, Anna

  • Emerson Cruz

    Sobre o convite de Marin ao deputado Henrique Alves, é incrível verificar que quando se trata de defender seus próprios interesses (que em geral, nada tem a ver com algo em prol do futebol brasileiro, pelo contrário) a CBF demonstra disposição, capacidade de articulação e visão estratégica. Lamentável!

    • Thiago Rievers

      O Marin ficou com inveja e tá a fim de , além de engavetar a CPI, pegar umas caroninhas gratuitas e básicas nos aviões da FAB, prática já comprovadamente comum e habitual do Presidente da câmara.

  • Alex

    André, o comentário não é sobre o atlético, mas o assunto é interessante: matéria legal sobre o Bayern de Pep

  • Thiago Rievers

    Olha sou atleticano, mas como tudo o que o André disse, outros já disseram e me emocionaram durante a semana passada, me limitarei a comentar aquilo que, não sei exatamente porque, ainda me surpreende, e até ler esta coluna eu não sabia.

    O que Henrique Alves sabe de futebol ou mesmo de gestão de pessoas, para ser chefe de delegação? NADA….Basta ver a bagunça que é a casa legistaliva que ele preside.

    Mas como presidente da câmara, Alves tem poderes políticos para fazer com que a CPI do Dep. Romário seja engavetada, sumariamente, como quer o ditador, provincial, colaborador da ditadura e ladrão de medalhas José Maria Marin.

    Será que o Presidente da CBF ficou com inveja porque o Alves foi pro Maracanã de jatinho da FAB, às nossas custas?

    Ah sei lá, viu André…Orgulho de ser Atleticano, mas vergonha de ser Brasileiro.

  • Luciano

    Obrigado pelo esforço.

  • “Paulo Autuori não merecia ter sua apresentação no São Paulo realizada durante um stand up comedy de Juvenal Juvêncio”

    hahaehehaheahhae… genial!

    • Marcelo Morais

      Nem Paulo Autuori nem qualquer outro treinador aparentemente serio.
      Como sempre digo, um dia acaba a atual gestao. Soh nao sei dizer quantas novas gestoes serao necessarias para reconstruir o SPFC.

  • Jose Silva

    Estranho seu comentário a respeito da comemoração. Será então que um jogador habilidoso deverá, em nome de “Proteger o investimento do Clube” ser privado de “dribles” e “firulas” pois o adversário, se sentindo provocado, poderá atingi-lo deixando-o sem condições de jogo?

    AK: Exatamente. Esses jogadores devem entrar em campo e ficar como estátuas, totalmente imóveis, sem pegar na bola.

    • Jose Silva

      Resposta muito criativa André. Um abraço.

      • Bruno Uzac

        José,
        Que tipo de resposta vc queria que o André te desse para essa sua analise? A comemoração é fora de jogo ( paralisado )…. pra quê o sujeito vai se arriscar dando aquela cambalhota???? Aí vc vai e compara com o drible dentro do jogo….. Tenha paciência, né!!! Outra coisa, ele treina pra dar dribles, não acrobacias…. seria melhor ele ir pro circo.

        • Jose Silva

          Caro Bruno, comemorar “paralisado”?? Como é isso? Você conseguiu superar o André. Vou ter mais paciência na próxima. Um abraço.

          • Michel

            Não precisa de mais paciência, precisa melhorar o nível de interpretação de texto. Ele se referiu ao momento onde se dá a comemoração (jogo paralisado ou “fora do jogo”) e não ao modo como o jogador deve comemorar.
            Paciência tem que ter o André.

  • Teobaldo

    CHORE POR MIM – Ah, Galo, como tenho chorado por ti…. bem que você poderia fazer-me sorrir agora….. quem sabe…

    DUPLO TWIST – Concordo com a punição aos jogadores que levantam a camisa na comemoração dos gols. Eu não sou patrocinador de nenhum clube, mas não gostaria de ver a minha logomarca escondida no momento mais importante do jogo. Se a punição mais adequada é a advertência com o cartão amarelo, acho que esse é o ponto principal, aí, sim, cabe discussão, uma vez que o clube também é punido quando seu atleta é advertido com o cartão. Quem deveria punir o atleta que levanta a camisa é o clube, mas duvido que qualquer um exerça esse direito.

    ARTICULANDO – A atidude do Deputado Romário para com a relação Marin/Henrique Eduardo Alves é elogiável, mas não nos esqueçamos que ele é um deputado que falta às seções para jogar futevôlei e, salvo engano, foi um dos mais atuantes para liberação do “voo da muamba”, que retornou dos EUA após conquistar.

    OFUSCADO – Muito boa!

    Um abraço!

  • Paulo

    Gostei muito do texto!! Acho que qualquer atleticano de verdade vai se identificar. Transmitiu bem o sentimento do atleticano do mundo conspirando contra, do destino parecer estar sempre contra, do azar, e não da falta de sorte… Casou bem quando você comenta a declaração do Kalil, de que o pão do atleticano sempre cai com a manteiga pra baixo. Enfim, o Atlético mudou? ganhar essa libertadores vai significar isso, afinal disputar essa final depois de uma fase de mata mata da forma como está sendo: SPFC, Lúcio expulso; Tijuana: penalti defendido no último lance; NOB: gol do jogador menos querido da torcida no final do jogo, vitória nos penaltis depois de 2 chances do NOB de passar a frente, com o craque do time perdendo a última cobrança. Parece que a sorte aumenta a medida que o sofrimento aumenta… Como não poderia ser diferente, se o título vier será com muito sofrimento, se não vier o Atlético não mudou, o sofrimento continua e os títulos não chegam. Acredito que o “acaso” está nos protegendo enquanto andamos distraídos, como na música, mas uma coisa nunca vai mudar, o sentimento que o atleticano nutre pelo time, ele não ganha a torcida não diminui, ela aumenta. Isso é ser fiel? amar é ser fiel (na ausência de títulos). Ou é esperança? Vivemos esperando dias melhores, melhores na dor, melhores no amor. Abraço

  • Essa entrevista do JJ foi lendária! Como é possível que um clube como o São Paulo ainda permite que seu presidente continue sendo ele???

    Ao menos, para a imprensa, é um personagem e tanto

  • Paulo Pinheiro

    Não querendo estragar a a festa, mas:

    Se a CBF conseguir mesmo que coloquem a final da Libertadores no Independência, ao invés do Mineirão, ficará provado de papel passado que o que houve em 2005 foi uma tremenda armação para favorecer o SPFC na final contra o Atlético-PR.

    E não venham dizer que agora a diretoria é outra. Todo mundo sabe que na CBF só mudaram as moscas…

  • Belo texto, André! Meus olhos encheram de lágrimas enquanto lia cada palavra. Você soube, como poucos, descrever o sentimento atleticano. Parabéns!

    “Se houver uma camisa preta e branca no varal, durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento.”

  • haghios

    Sou torcedor do Santos … mas creio que o Galo de Minas Gerais.. vai ganhar os 2 jogos …. lá será mais difícil pois esta Juizada da Comebol … são horrorosos … e caseiros … mas mesmo assim .. apesar do Rebolativo RG … creio que o Bernard … Diego Tardelli .. e o Jô … vão fazer a Diferença…

  • Andre Paim

    Cara, que texto brilhante.
    Eu sou de família cruzeirense, mas mesmo assim tive que esconder uma lágrima que quis descer enquanto lia essa coluna no metro.
    Por essas e outras que você é um dos melhores colunistas esportivos hoje.
    Parabéns

    AK: Obrigado. Parabéns por sua relação com o futebol. Um abraço.

  • Euripedes Soares da Silva

    André, por várias vezes postei em seu Blog, como hoje mais cedo (O Futebol – em 11 Mandamentos). Meus comentários não foram aceitos? Espero estar enganado, mas se vc faz um Blog sobre futebol só para enaltecê-lo, a primeira coisa é saber se sabe o mínimo do esporte: quantos lados tem uma bola? Se joga ou jogou o suficiente para enganar? Se conhece a diferença entre entender e sacar de futebol? Por aí, vai… O Blog é seu e respeito. Só lamentaria (por vc), que me parece cheio de privilégios, desconhecer o da humildade para destacar aquilo que é público sem ofensas; e, sobretudo, porque fala de futebol como jamais escrito.
    Atenciosamente

    AK: Vários de seus comentários foram publicados, você deve saber disso. Se seu interesse é discutir o que está escrito, ótimo. Se você quer apenas divulgar o seu espaço, o sistema travará o comentário por repetição do mesmo link. A questão é com você, não comigo. Um abraço.

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