COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

LUTAR, LUTAR, LUTAR

A vida de esportistas seria muito mais fácil se uma das máximas repetidas à exaustão – especialmente após derrotas – fosse, de fato, possível. A ideia de que há como apagar da memória certos momentos, junto com as sensações que eles produzem, é ficcional. Fosse assim, lances de jogos não se reproduziriam na mente de técnicos e jogadores por dias, tais quais filmes exibidos ininterruptamente no teto do quarto, na parede do banheiro, na imensidão escura dos olhos fechados.

Fosse assim, não haveria arrependimento ou vontade de retornar alguns dias no tempo e resgatar a chance de tomar uma decisão, bater na bola de outro jeito, prestar atenção a algo que, na hora, escapou. O desejo de ter oportunidades de volta não pode ser desligado, como se dependesse de um botão. Não pode ser ignorado, como se fosse voluntário. É da natureza humana e independe de formação ou experiência.

Enquanto se preparam para experimentar mais uma noite de cinema no estádio Independência, os jogadores do Atlético Mineiro lidam com o filme do jogo em Rosario passando em suas telas particulares. É seguro afirmar que dois, em especial, travam batalhas individuais com episódios cruciais da primeira partida contra o Newell’s Old Boys. Impossível calcular o que eles estariam dispostos a oferecer em troca da chance de revivê-los.

Um deles é Bernard. O jovem candidato a astro continua sonhando com o lance em que a defesa argentina falhou na linha do impedimento. Foi aos 41 minutos do primeiro tempo, 0 x 0 no placar. Ronaldinho recebeu a bola no campo de ataque e pesquisou suas opções. Jô se moveu para a esquerda, perseguido por um zagueiro. Os outros dois defensores do Newell’s imediatamente se adiantaram para deixar o atleticano em posição irregular, mas o marcador de Jô não o abandonou. O radar de Ronaldinho detectou o corredor que se abriu e o movimento em diagonal de Bernard, da direita para o meio. O passe, magistral, encontrou o velocista no interior da meia-lua, diante do goleiro Guzmán. Em seu sonho, Bernard bate de primeira, no canto. Ou passa pelo goleiro com um drible seco. Na realidade, Guzmán mergulhou para a direita e lhe tomou a bola.

O outro é Victor. O herói da classificação contra o Tijuana, autor de uma das defesas mais transformadoras dos últimos tempos, ainda digere o gol de falta de Ignacio Scocco, aos 35 minutos do segundo tempo. Não se discute o enorme mérito do cobrador, que executou uma batida de curva, rente à trave esquerda, com a bola quicando a um metro do gol, conforme manda o manual. Scocco criou todos os tipos de dificuldade para Victor. A questão é que o goleiro atleticano não pode dizer o mesmo. Não que ele tenha falhado no posicionamento, ou demorado a voar atrás da bola. O problema foi a barreira de quatro homens, montada em altura crescente (de Luan a Jô, passando por Pierre e Rafael Marques), mas estreita. Jô, o mais alto, foi posicionado de forma a dificultar a batida por cima da barreira. Se houvesse um quinto jogador ao lado dele, a opção pelo lado estaria bloqueada. Foi por ali que a bola passou.

A maravilha do futebol está no próximo jogo.

DE LEVE

Nos quinze minutos finais, e depois do clássico da última quarta-feira contra o São Paulo, jogadores do Corinthians pediram a Renato Augusto que dosasse sua intensidade em campo. O Corinthians já tinha perdido Danilo e Douglas, machucados, não poderia ficar sem Renato no jogo. O meia, que voltou a atuar após cerca de 90 dias em tratamento de uma lesão muscular, é visto por companheiros como o jogador que pode elevar o Corinthians no segundo semestre. O melhor período do time neste ano coincidiu com Renato Augusto em ação.

MAIS UM

Independentemente de quem seja o próximo técnico do São Paulo, o fato de o nome de Muricy Ramalho ecoar pelo Morumbi é um inegável recibo de incompetência diretiva. Muricy foi demitido em 2009. Desde então, o São Paulo moeu técnicos até o ponto em que todos parecem interinos. Um que não pareceria foi contratado pelo Flamengo enquanto a diretoria são-paulina dormia.



  • Ivan Alves

    Sua descrição do lance do Bernard é um show. Parabéns, tens o dom da escrita.
    Vejo esse Galo, embora galanteador, meio repetitivo. Se o adversário sacar o jogo dele, o Cuca não tem um “approach” diferente, um esquema alternativo pra surpreender. E parece que já não tá mais fazendo tanto efeito. Se passar, terá sido um jogo épico em Belo Horizonte.

  • Emerson Cruz

    O Galo jogou muito mal e foi merecidamente derrotado, em Rosário. Agora no próximo jogo é bem provável que o time caia morto mesmo com vitória no Horto…( Perdão pelo trocadilho óbvio)
    Ah, e o Renato Augusto acaba de se contundir no jogo contra o Bahia e deve ficar algum tempo fora…

  • Teobaldo

    Eu não acredito em jogador de um metro e meio e meio-quilo. R-10, jogai por nós! Um abraço a todos os amigos do blog.

  • Caio Mourão

    André,

    me preparo para essa noite que será épica. Vou ao jogo, e sei que será um turbilhão de emoções, e apesar da dificuldade, se acreditei na defesa de Victor – não pode ter sido a toa – vou acreditar de novo, até porque esse grupo merece.
    Pena você ser hoje mais estúdio que rua, seria interessante ver um texto seu sobre a cobertura do jogo in loco.

    Um abraço.

    AK: Seria ótimo estar lá. Um abraço.

  • Juliano

    Mal comparando, o Galo tem tido no caminho dificuldades como o Corinthians teve no ano passado, e também não era campeão continental. Quem não se lembra do jogo contra o Vasco, onde Diego Souza não matou, e Paulinho, no final, classificou o time? E nessa dose de emoção que estou comparando. Vai dar Galo. É a minha torcida, que seja campeão.

    AK, sem tempo para as notinhas do retorno? Abraço!

  • silas

    Caro André,

    Engraçado. Ao ler os seus dois primeiros parágrafos, imaginei que (surpreendentemente para mim) você iria abordar a luta de sábado/domingo do Anderson Silva.
    Embora não seja também fã desse “esporte”, fiquei impressionado com a forma como ele menosprezou o adversário e se sentiu onipotente ante seu rival.
    Imagino como ele desejaria, agora, acreditar na ideia de que há como apagar da memória certos momentos, junto com as sensações que eles produzem!

    abç

  • Gustavo Xavier Almeida

    AK, boa noite

    fosse você JJ, quem contrataria para treinar o SPFC???
    MURICY, AUTUORI, CUCA, BIANCHI, BIELSA ou outro nome????

    explique o motivo por favor…

    abraço e parabéns pelo espetacular texto.

    AK: Entendo que o futebol brasileiro se beneficiaria muito da presença de técnicos estrangeiros, com métodos de trabalho diferentes. Eu contrataria Marcelo Bielsa. Obrigado e um abraço.

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