COMEÇO DE UMA IDEIA



A vitória da Seleção Brasileira (3 x 0 na Espanha: Fred-2 e Neymar) na final da Copa das Confederações me fez voltar seis anos no tempo, numa viagem até Maracaibo, na Venezuela.

Foi lá que, em 2007, o Brasil comandado por Dunga venceu a Argentina (também por 3 x 0) e conquistou a Copa América. A decisão deste domingo junta-se àquela na lista, curta, de grandes atuações do Brasil nos anos recentes. Voltaremos ao tema mais adiante.

Assim como fez com os espanhóis no Maracanã, a Seleção Brasileira foi quase impecável contra os Argentinos num domingo ensolarado, em julho de 2007. Também marcou no começo – Júlio Baptista, golaço aos 4 minutos – e aplicou uma estratégia extremamente bem sucedida no sentido de anular as virtudes de um time que tinha Verón, Riquelme, Tevez e Messi.

A exemplo do que se viu nesta Copa das Confederações, o Brasil fez, na final, uma partida melhor do que se esperava, muito superior ao que tinha mostrado no torneio.

O time de Dunga (falo sobre todo o período) era qualificado por termos como “moderno” e “competitivo”. Tinha uma defesa excelente, gostava de marcar e era referência mundial em contra-ataque. Ganhou a Copa América da Venezuela, a Copa das Confederações de 2009 e, por 45 minutos, eliminava a Holanda da Copa do Mundo de 2010.

O que houve no segundo tempo é visto por algumas pessoas como um acidente. Para mim, foi a soma dos defeitos de um time que era carente no repertório. De qualquer forma, o ponto aqui não é tratar daquela Seleção, e sim da atual, que venceu os campeões do mundo de maneira indiscutível no Maracanã.

Venceu com uma pressão intermitente e adiantada, com a interrupção dos circuitos mais importantes do oponente, com posse e com aparições decisivas de alguns jogadores.

Venceu uma seleção que estava invicta havia 29 jogos.

Por 3 x 0.

E com olé.

O que sempre me agradou nesta Espanha é como ela vence. Time de jogadores pequenos, bate seus adversários por intermédio de superioridade técnica e estratégica. Acima de tudo, aplica um modo próprio de jogar futebol que é motivo de orgulho e admiração.

É evidente que essa maneira de atuar não foi desenhada simplesmente porque alguém achou interessante. É a ideia de futebol que melhor se adapta às características e qualidades dos jogadores disponíveis. A virtude está em encontrá-la e aperfeiçoá-la. E no fato de ser particular, única. Ninguém no mundo joga desse jeito.

Entendo que escolas de futebol como a brasileira e a argentina devem ser modelos. São países que, historicamente, sempre tiveram o material humano para desenvolver e dar continuidade a uma identidade futebolística. Não gosto quando se diz que a Seleção Brasileira está jogando o tipo de futebol que se pratica em outros lugares. Isso me incomodava no time de Dunga e me incomodará no de Felipão, se ele tomar tal caminho.

Por outro lado, é necessário perceber que o futebol brasileiro não dispõe, hoje, de muitos jogadores que possam sugerir a formação de uma Seleção virtuosa, no aspecto do jogo propriamente dito. Também não dispõe do tempo necessário para construi-la.

É quase que obrigatório procurar a verticalização, a transição em velocidade.

Por isso escrevi, ao comentar o amistoso entre Brasil e Inglaterra, que analisaria a Seleção de Scolari com base no que ela pretende ser. E nessa ótica, a apresentação deste domingo foi realmente digna de elogios.

O Brasil equilibrou a posse de bola com o time que não costuma dividir a bola com ninguém. E marcou de forma tão impetuosa e inteligente, que reduziu os passes certos da Espanha aos menores números desde que o técnico é Vicente Del Bosque.

Mas não foi só isso. Especialmente no segundo e terceiro gols, o talento se fez presente na construção e na finalização das jogadas (escrevo mais sobre elas em minha coluna no Lance! desta segunda, que estará aqui amanhã). Pudemos ver o que se chama de “futebol brasileiro” em meio a conceitos que não são necessariamente nossos, e isso é muito bom.

A Copa das Confederações terminou da melhor forma possível, mas já tinha sido um sucesso em alguns aspectos, entre eles os mais importantes: a existência de um time e a relação torcedor-seleção.

Se Scolari conseguir partir do que vimos neste domingo para uma ideia que mescle a necessidade de “ser moderno” com o “gosto de jogar”, o Brasil terá uma seleção muito forte. Mais, terá uma seleção imprevisível, capaz de atuar e vencer com diferentes roteiros.

Uma seleção com repertório.

Que a formidável vitória sobre a Espanha, num Maracanã belíssimo de ver e ouvir, tenha sido apenas o começo.

______

PS: A “lista de grandes atuações recentes”, mencionada lá em cima, não é longa:

Brasil 4 x 1 Argentina – final da Copa das Confederações de 2005
Brasil 3 x 0 Argentina – final da Copa América de 2007
Brasil 3 x 2 Estados Unidos – final da Copa das Confederações de 2009
Argentina 1 x 3 Brasil – Eliminatórias para a Copa de 2010, em Rosário
Brasil 1 x 0 Holanda – primeiro tempo, Copa do Mundo de 2010
Brasil 3 x 0 Espanha – final da Copa das Confederações de 2013



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