COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

MEDO

Chegou-se ao ponto em que os funcionários da Fifa, obrigados a trajar o uniforme azul-marinho da entidade, estão se sentindo expostos e sob risco nas ruas de cidades brasileiras. Delegações de países que vieram para a Copa das Confederações foram orientadas a permanecer em seus hotéis. A Confederação Brasileira de Futebol fechou sua sede mais cedo, ontem à tarde, e mandou os funcionários para casa.

Joseph Blatter pegou seu jato e voou para a Turquia. O presidente da Fifa quer que as pessoas acreditem que o Campeonato Mundial Sub-20 também merece sua presença e atenção. Na comunicação oficial sobre sua retirada, não consta a explicação para os compromissos que foram agendados – alguns com políticos brasileiros importantes – e não serão cumpridos nos próximos dias.

A essa altura, é provável que Marco Polo Del Nero já tenha percebido que não são exatamente “199 milhões trabalhando e esses querendo atrapalhar”. Uma olhada para a televisão, em qualquer noite desta semana, teria mostrado ao representante brasileiro na Fifa que a situação é bem diferente, e não é simples.

Não se vê ninguém tratando a questão diretamente. Alterna-se entre o silêncio, o desdém e o oportunismo. Jerôme Valcke, por exemplo, declarou que “somos (a Fifa) o alvo errado. Infelizmente, porque não fizemos nada para estar no meio desta confusão”. Como se não fosse a Fifa quem impõe as diversas exigências que transformam estádios em obras bilionárias. Como se não fossem os estádios construídos com o dinheiro de impostos os verdadeiros símbolos da indignação que gera os protestos.

É verdade que a Fifa não pediu para trazer a Copa do Mundo, essa caixa registradora itinerante, ao Brasil. Foi o Brasil que bateu à porta do palácio de Blatter para organizar o torneio. Mas a entidade suíça e o governo brasileiro são sócios na realização do Mundial, que, como temos visto na Copa das Confederações, proporciona o ambiente perfeito para que as manifestações alcancem a repercussão internacional que as fortalece.

Apesar das negativas oficiais a respeito da possibilidade de interromper o torneio-teste, estuda-se levar a fase semifinal para outro lugar, caso o clima piore. Os ultimatos não podem garantir que não piorará. Entre o medo a ameaça, a única posição da Fifa que faz sentido é a de que a solução dos problemas não está nas mãos dela.

Valcke já disse que “a democracia era ruim para a Copa”, referindo-se às dificuldades para a tomada de decisões e a demora em executá-las. Agora, observa um efeito colateral do estado democrático – a conversão de manifestações pacíficas em explosões violentas – abalar a Copa das Confederações e contaminar a Copa do Mundo.

Interessante refletir se, no futuro, o caminho para a Fifa está restrito a dois tipos de países. Os desenvolvidos, que não precisam de estádios novos ou do “legado”, e os regimes autoritários, em que a população está proibida de se manifestar.

O Brasil está no grupo das nações que não deveriam querer a Copa a qualquer custo. É o que as ruas estão gritando.



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