COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

SERENO

Fazia poucos minutos que Victor tinha entrado no vestiário do Atlético Mineiro, com o corpo tremendo por causa de uma enxurrada de reações emocionais e químicas. Seus companheiros o receberam com uma salva de palmas, momento que certamente não ajudou o goleiro a se acalmar.

A sensação era, acima de tudo, de alívio. Na hora da descompressão depois de uma experiência que é o equivalente esportivo à proximidade da morte, sente-se um vazio no estômago, a espinha congela com a lembrança do que poderia ter acontecido. E quando o cansaço se instala, fica ainda mais difícil processar os eventos e colocá-los em perspectiva. Mas foi o que Cuca conseguiu fazer.

Ao explicar que o ambiente no vestiário não era de euforia, porque os jogadores sabiam que não tinham feito uma boa partida, o técnico do Atlético demonstrou que, apesar do extremo desgaste mental e de tudo o que estava em questão, é possível analisar um jogo decisivo com equilíbrio. Ao dizer que, sim, Leonardo Silva fez pênalti em Aguillar aos 48 minutos do segundo tempo, Cuca nos presenteou com sinceridade. E ao falar sobre as lições que ficam, sobre o perigo de jogar mal novamente a esta altura da Libertadores, Cuca nos lembrou da importância do merecimento.

É necessário aplaudir quando um técnico conhecido pela relação emotiva com seu trabalho é capaz de baixar a temperatura e, quase que imediatamente após o fim do jogo, falar como se fosse apenas um observador da situação. E acertar em todas as ponderações. É surpreendente que Cuca seja assim, pois a imagem de seu rosto no instante da cobrança do pênalti expõe outro tipo de temperamento. Quando Riascos bateu na bola, ele estava praticamente chorando.

Há mais pontos a ressaltar no depoimento pós-jogo de Cuca, como a bonita relação feita entre as histórias sofridas (termo usado por ele) que o unem ao Atlético. Como o medo que sentiu de ver a caminhada terminar daquele jeito, em casa. Como a esperança de que a defesa épica de Victor seja um sopro de sorte na vida dos atleticanos e na carreira dele como técnico.

Mas como Cuca frisou, não se pode confiar na sorte. Em essência, o Atlético Mineiro fez o suficiente para se eliminar da Copa Libertadores na noite de anteontem. Não soube enfrentar a seu modo um time que lhe foi superior em dois jogos, permitiu que o Tijuana desse as cartas no Independência, fez um pênalti nos acréscimos do segundo tempo, numa jogada de contra-ataque do time ao qual o placar não interessava. Victor recolocou os mineiros no torneio, com uma intervenção de baixa probabilidade de sucesso.

O futebol é tão enigmático que, às vezes, transmite o aprendizado sem necessariamente aplicar a punição. Como o professor que perdoa um lapso de seu aluno, mas avisa que não será benevolente outra vez. A noite do pânico no Independência pode ser o momento transformador do Atlético nesta campanha, desde que se entenda que ela foi produto de defeitos, não de virtudes.

Cuca merece palmas pela franqueza.

COM EMOÇÃO

O futebol tem nos brindado com insanidades em finais de jogos nas últimas semanas. Os gols na sequência de pênaltis perdidos na segunda divisão inglesa; os gols sofridos pelo Benfica, sempre nos acréscimos; o título do América do México, com gol de goleiro; a conquista redentora do Bayern na Liga dos Campeões, com Robben como herói. O sentimento em relação a quem não liga para futebol é de compaixão.

UM CONTRA UM

Victor Valdés, na entrevista em que explicou por que deixará o Barcelona, disse que a principal qualidade que um goleiro deve ter para brilhar no clube não é a habilidade para jogar com os pés. É a capacidade de fechar ângulos em lances cara a cara. Sendo assim, o Barcelona deveria considerar Rafael em sua lista de opções. Não há ninguém como o goleiro santista nesse tipo de jogada, de acordo com vários atacantes brasileiros.



  • Juliano

    A má fase e o péssimo sistema defensivo do Santos obrigaram Rafael a elevar seu nível, jogar muito e ganhar destaque.

  • Sergio

    André, gostei muito do texto, como sempre. Mas teria duas possíveis ressalvas:
    1) A análise fria e racional de Cuca após o jogo seria motivo de elogios, ao meu ver, se o Atlético tivesse perdido. Acho que a verdadeira e admirável racionalidade aparece, sobretudo, nas derrotas. Depois de saber que está classificado, que mal há em assumir o pênalti de Leonardo Silva? Se tivesse sido eliminado, negar o pênalti seria uma tentativa de se justificar para o torcedor.
    2) A opinião de atacantes brasileiros sobre o Rafael só indica que, no Brasil, talvez ele seja o melhor no cara a cara realmente. E, por isso, como você diz, o Barcelona deveria considerá-lo como uma das opções mesmo. Entretanto, não vejo como o Rafael pode deixar de ser “uma opção” para virar “a opção” do Barcelona. Na minha opinião, eles têm alternativas com mais experiência, e tecnicamente melhores ou iguais ao Rafael, tanto em termos de presente quanto em termos de potencial futuro (por mais intangível que seja avaliar isso).

    O que você acha, André?
    Um abraço. Sergio

    AK: 1) Você está inferindo que ele não faria a mesma análise se perdesse. É futurologia.
    2) Apenas acho que Rafael deveria ser considerado.
    Um abraço.

    • Hey André!

      Apesar de entender sua resposta no item 1), acho que o termo mais correto seria “hipótese”. Afinal, temos milhares de exemplos de técnicos que são sinceros nos empates, vitórias e classificações, mas pouquíssimos quando o assunto é “derrota para um time equivalente” (não vale fazer comparações com as declarações do Muricy no pós-jogo de Santos X Barcelona, por exemplo) ou eliminações por questão de lances interpretativos.

      Portanto, acho a “hipótese” (ou exercício de futurologia) do Sérgio “viável”, sobre o que PODERIA ter acontecido.

      Abraço!

      • Concordo. Na vitória tudo fica mais fácil. Na derrota tudo, em geral, se torna motivo de crítica e/ou justificativa…

        De qualquer maneira, contente por ver o atlético passar!

    • Marcos Nowosad

      Pois é, o mesmo Cuca negou ter dado uma cotovelada em Renteria, na inesperada derrota para o Once Caldas em casa na Libertadores de 2011, derrota esta que eliminou o franco-favorito Cruzeiro (poderia até perdido de 1×0).

      Isso apesar do vídeo do lance comprovar o contrário. Procurem “Cuca cotovelada” no YouTube.

      Claro, o passado não condena ninguém eternamente.

      Mas esse mesmo passado torna aceitável especular o que ele faria se o pênalti tivesse sido realmente convertido.

      AK: Especular é uma coisa. Dizer que a declaração “só teria valor” em caso de derrota, outra. Um abraço.

  • Rita

    Cuca.
    Esse merece muito mais!

    Parabéns pelo texto André.
    Seria bom se ele lesse…

  • Rodrigo Sette

    Mais uma beleza de postagem. Parabéns, André. Falar bem de suas ponderações é “chover” no molhado. Abraço.

  • Luiz

    Não por acaso, o goleiro santista é grande fã de São Marcos. No ‘abafa’, ninguém era melhor que o ídolo palestrino. Concorda, André?

  • Rita

    Enquanto isso, Scolari vai ter de engolir Paulinho fazendo gol.
    Desculpas André, não tem a ver com o post, mas é muita boçalidade ter dito que era bom só pra imprensa.

  • Randel

    André, apesar das dificuldades encontradas contra o Tijuana, acredito que foi um dia atípico do Atlético no Horto. Tem muito mais time que os mexicanos. Acredito que desta vez o Galo sai da fila na Liberta, está tendo sorte de campeão. Parabéns pelo texto!

  • Armando Lima

    André, sou Atleticano e Cuca já nos desclassificou quando estava na Copa do Brasil e houve um pênalti no Tchô quase no fim do jogo e ele reconheceu que foi pênalti. Por vezes no Cruzeiro, ganhando ou perdendo, sempre manteve a mesma postura de HONESTIDADE. É um técnico franco, simples e muito trabalhador. Sem firulas, sem frescuras, vai sempre ao ponto certo da questão. O futebol brasileiro precisa de mais “Cucas” e menos “invencionices”. Cuca não é bom apenas como treinador, mas como cidadão digno que sabe a responsabilidade das suas convicções. Tem seus defeitos, mas é hoje minimamente o técnico mais sereno e sensato do futebol brasileiro.

    • Andre Rabello

      Concordo com a analise sobre o Cuca. Trabalhador, honesto, tem um rótulo de azarado, chorão e supersticioso que, ao meu ver, já não são verdadeiros. Rótulos frutos, principalmente, depois de um período memorável pelo Botafogo, onde não ganhou pois não tinha banco nem goleiro bom e foi prejudicado (muito) pela arbitragem. Tirou água de pedra. E chorou. Mas que treinador não chora? Felipão e Luxemburgo são os que mais reclamam!
      Sou atleticano e meu sentimento foi o mesmo: apenas alívio, sem grandes comemorações. Pra falar a verdade, não nos recuperamos ainda (o time patinou ontem contra o SP). Mas o Cuca saberá motivar os jogadores novamente.
      Vida longa a ele, mesmo que não seja campeão.
      Abs
      André Rabello

    • Venilson Fonseca

      Olá Armando,
      Desculpa, mas você está equivocado. Eu estava no Maracanã aquele dia e, ao chegar ao hotel, assisti exatamente a entrevista do Cuca após o jogo. Lembro-me muito bem dele ter dito para os atleticanos “O choro é livre”.

      Até hoje não esqueci, apesar da grande campanha dele na Libertadores.

      Se vencê-la, ficarei muito feliz e ‘esquecerei’ este triste episódio.

      No mais, Geraes.

  • Anna

    Victor foi sensacional e Cuca merece demais não só essa passagem para as semis, como ser campeão com o Galo. Grande abraço, anna

  • Teobaldo

    Pô, eu faço tudo para esquecer esse jogo e ninguém deixa! A coisa esteve tão feia para o nosso lado que eu nem quis ver a repetiçao pênalti com medo da bola entrar! É isso! Um abraço a todos!

    • Marcelo Morais

      Sensacional, Teobaldo!
      Esse jogo, pra voces atleticanos, serah motivo de “prosa” durante muito tempo.
      Pra aqueles que estiveram no estadio, entao, viximariacremdeuspadi!

  • Célio

    A verdade é que as pessoas sempre defendem e sempre defenderão a si mesmas, à suas famílias, etc…, e assim também funciona no futebol, nos esportes… Sempre defenderemos nossos times, por isso essas especulações, hipóteses, esses exercícios de futurologia às vezes é inútil, queremos falar e queremos que as pessoas falem aquilo que a gente quer ouvir, é normal, é o natural do ser humano, imagina se as pessoas que fazem isso tivessem que ser punidas por serem assim?

    Saudações alvinegras!

    Dá-lhe Galo!

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