COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

TERRITÓRIO

Deixemos de lado o teatro da negociação, o suspense artificial e as tentativas de disfarçar o que estava decidido há tempos. Deixemos de lado as cifras, as comissões e os interesses. Eis o que importa: Lionel Messi e Neymar Júnior jogarão no mesmo time na próxima temporada europeia, e algo assim não acontece sempre.

Não há garantias de que dará certo, ou de que será tão bom como pode ser, pois nada está garantido no futebol. Mas o potencial de sucesso de uma parceria desse nível atravessa o teto. Em última análise, dependerá da sintonia que ambos conseguirem encontrar em campo, sem perder de vista que as relações dentro de um time de futebol não se dividem em compartimentos. Neymar justificará – ou superará – as expectativas na medida em que seu futebol se encaixar na ideia de jogo do Barcelona, e, tão importante quanto, na medida em que ele se encaixar no organograma do vestiário azul-grená.

Tudo passa por Messi. No livro “Pep Guardiola – Another Way of Winning”, o jornalista catalão Guillem Balague revela como é difícil encontrar espaço num time em que todas as decisões são tomadas para acomodar as características do melhor jogador do mundo. O caso mais emblemático é o de Zlatan Ibrahimovic.

O sueco chegou ao clube para oferecer uma variação de jogo que o Barcelona não tinha com Samuel Eto’o. Entre outras conclusões, Guardiola entendia que um atacante mais corpulento viabilizaria a opção da bola longa e melhoraria a defesa contra jogadas aéreas. O problema surgiu quando o posicionamento que o próprio Guardiola criou para Messi produziu um congestionamento no ataque.

Ao mover Messi da lateral para o meio e gerar um dilema para os zagueiros adversários, o técnico precisou administrar o fato de ter dois jogadores ocupando a mesma região do campo. Redirecionar Ibrahimovic, um nove tradicional, não seria producente. Mexer com Messi, claro, faria menos sentido ainda. A situação ficou insustentável quanto o sueco começou a reclamar que o time não enxergava ninguém além do argentino.

Numa conversa com Guardiola, Lionel avisou que só jogaria como “falso nove”. “Ponha os outros na ponta”, disse ele, essencialmente determinando a saída de Ibrahimovic, um jogador pelo qual o Barcelona pagou mais do que o montante total investido em Neymar. Outro exemplo do “messicentrismo” do time é o impacto no desempenho de David Villa, cuja migração do Camp Nou é esperada para a próxima janela do futebol europeu. Villa joga quase que exatamente na mesma faixa esquerda do ataque em que Neymar costuma brilhar.

Geograficamente falando, a entrada de Neymar no time não deve ser problemática. Ele tem muito mais do que o talento necessário para se estabelecer. A questão passa a ser comportamental, como lembrou Johan Cruijff (“Dois chefes no mesmo barco?”) em entrevista na sexta-feira passada.

Neymar chegará a um vestiário em que a cultura do esforço é a lei, e onde o único ego permitido é o do melhor futebolista deste planeta. É um ambiente diferente do que ele conhece.



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