O LINK DA LIGA



Confissão pessoal: tenho uma relação particular com o momento da entrega da taça a um time campeão. É algo que espero para ver em todas as decisões, e que sempre me emociona.

O erguer do troféu simboliza o que há de puro e bonito no futebol. É quando os contratos, o dinheiro e a fama deixam de ter importância. Quando jogadores vividos voltam a ser sonhadores em início de carreira. Quando pensamentos e sensações convergem para um objeto, quase sempre de metal, que só vale pelo que representa.

Naquele instante, o futebol, esse negócio multibilionário, resgata o caráter lúdico que nos apreende.

Durante algum tempo, tive um sonho que se repetiu frequentemente. Não saberia descrevê-lo em detalhes, mas os momentos finais eram sempre iguais e cristalinos: na tribuna de honra, eu, jogador de futebol, me aproximava de um sujeito de terno que se preparava para me entregar um troféu. Ele estendia os braços para me oferecer a taça, eu fazia o mesmo para pegá-la.

Mas no último segundo, antes de tocá-la, eu acordava.

Era uma tremenda frustração despertar no meio de noite sem poder “ver o final do filme”. Sei que há várias interpretações para sonhos, uma janela para nosso inconsciente, mas nunca os levei a sério. Há alguns anos, eles desapareceram completamente.

Este preâmbulo serve para explicar algo que me ocorreu durante a final da Liga dos Campeões, que coroou o Bayern de Munique em Wembley após a vitória por 2 x 1 sobre o Borussia Dortmund.

A cada chance perdida por Arjen Robben, me perguntei se o jogador holandês também tinha o mesmo sonho que eu. A taça intocável.

Se tinha, imagine o sofrimento. Um jogador de futebol, atormentado pela ilusão da conquista. Ver um troféu e ser obrigado a desviar o olhar, reconhecer que aquilo não é para ele.

E viver assim. E jogar assim.

Robben conquistou títulos, claro. Mas não os que mais desejava.

Esteve perto deles, especialmente em duas ocasiões em que suas falhas estiveram ligadas ao fracasso.

O chute cruzado que Iker Casillas desviou com o calcanhar na final da Copa de 2010. O pênalti desperdiçado na final da UCL do ano passado, em casa.

Continuar jogando futebol apesar do estigma de perdedor supremo não deve ser simples. O peso de sentir-se responsável pela decepção de outras pessoas não é mesurável.

Em seus momentos mais escuros, quando a consciência se faz ouvir, Arjen Robben deve ter se sentido miserável.

Até este sábado.

O gol que ele marcou já perto do final do jogo, para experimentar um sabor desconhecido, é a prova de que nada que o ser humano já teve ou terá a capacidade de criar jamais chegará aos pés dessa coisa chamada futebol.

O futebol é cruel e bondoso, egoísta e generoso, carrancudo e sorridente, irredutível e magnânimo.

Para todos os que têm a coragem de vivê-lo intensamente.

Robben, o jogador marcado pela obrigação de falhar, colocou o Bayern Munique no topo do futebol da Europa.

O mesmo Bayern, perdedor de duas finais nos últimos três anos, que se identificava com seu atacante holandês por chegar perto do troféu e não poder levantá-lo.

O mesmo Robben, rejeitado por oportunidades douradas, até mesmo na decisão deste sábado.

A cada gol iminente, o mesmo desfecho. A câmera buscava a expressão em seu rosto, e só era possível ver dúvidas.

Por isso foi surpreendente vê-lo receber o passe de calcanhar de Ribéry, evitar um marcador e tocar de leve para o gol.

Jogada de instinto, de quem está acostumado a decidir, de quem já sabe o que acontecerá antes mesmo de acontecer.

Tudo o que Robben foi proibido de ser.

Tudo o que Robben é agora.

A comemoração entrará para o panteão dos momentos em que um esportista se mostra incapaz de processar a onda de informações que inunda seu cérebro.

Ele jamais saberá dizer o que experimentou.

Épica a imagem posterior que o exibiu de olhos fixos para a plateia, fuzilando-a com uma pergunta raivosa, repetida várias vezes: “O quê?! O quê?!”

Dizem que o futebol é uma metáfora da vida e, como tal, nos impõe questões indecifráveis.

Por que a bola que decidiu a Liga dos Campeões se ofereceu ao mesmo jogador que tantas vezes a desperdiçou?

Há várias respostas, mas nenhuma é definitiva. O próprio Robben não saberia dizer por que foi escolhido.

A lição? Não basta viver o hoje. É preciso viver o agora.

Hoje, agora, a vida de Arjen Robben é um sonho.

Ele finalmente ergueu sua taça.



  • Willian Ifanger

    Arrepiou!!!!! E eu já tive vários sonhos como o seu. No começo da transmissão pela ESPN (perfeita como sempre) apareceu uma entrevista com um zagueiro do Liverpool, campeão da Copa dos Campeões, não me lembro de qual ano agora, que confessou que estar ali em Wembley naquele momento era um sonho, mas um sonho de garoto…de querer estar jogando uma final em Wembley. Depoimento lindo.

    E tenho esse mesmo vício: esperar o erguer do troféu…até mesmo depois de ver meu time perder ele. É meio masoquista, mas todo torcedor de futebol é masoquista.

    Aliás, há algum troféu mais lindo que “A Orelhuda”?

  • Pra mim, o momento mais fantástico foi ver Schweinsteiger cair de joelhos no gramado após o apito final. Apesar de todos torcermos sempre para os mais fracos quando nosso time não está em campo, torci para o Bayern por ele. É o motor deste time e, depois do ano passado, merecia muito esse título.

    Abraços!

  • Rita

    Que texto!!!
    Que final!!!

    A torcida do Borussia é linda, mas era a vez do futebol ser bondoso com o Robben.
    De fato André, a comemoração/olhar fulminante foi qualquer nota.

  • Robben é extraordinário. Sempre foi. E dos mais subestimados. Mesmo nivel de CR7, por exemplo. Mas menos midiático, menos carismático.

    Viva ele.

  • Thiago Mariz

    Quando vi Robben fazer o gol, meio que ainda decepcionado (me decidi a torcer pelo Borussia), pensei isso: “O futebol é simplesmente maravilhoso!” Como foi belo ver a entrega da taça a esses jogadores que tanto sofreram.

    O texto é de arrepiar mesmo, André. Parabéns!

  • Alexandre

    Texto espetacular, sem mais.

  • Emerson Cruz

    E o Robben, enfim, sai daquela lista de jogadores que “eram muito bons, mas…” Algo merecido para alguém tão talentoso.
    Fantástica a descrição do “sonho não realizado”. Creio que este tipo de sonho fez, ou faz parte da vida de qualquer um que ame este esporte.

  • RENATO77

    Muito legal cara.

    Só um pitaco sobre um detalhe da partida, e praticamente de todos os jogos na Europa.
    Como é mais fácil apitar jogos por lá. Sem reclamações exageradas, sem tentar enganar o árbitro a cada minuto, poucas simulações e pouca pancada.
    Cada vez mais tenho certeza de que não é que a arbitragem lá seja muito melhor que a daqui, mas o comportamento dos jogadores sim.
    Abraço.

    AK: Exato. Um abraço.

    • Junior

      Renato, apenas para não perder a oportunidade.

      Você reparou no marketing, prepotência a arrogância da torcida do Borussia Dortmund? A torcida fazia festa mesmo com o título perdido, coisa de quem se acha maior que tudo.

      • Thiago Mariz

        Ironia ao tolo comentário de Trajano?

      • RENATO77

        Junior, não tenho a mesma “fixação” do AK em acompanhar o pós jogo, a festa com a taça e tudo mais…só quando é o meu time. Pra falar a verdade, esperava ver o Barça nas finais e ver uma final alemã, por mais que respeite o futebol deles, me tirou muito do interesse. O “diferente” caiu fora diante do Bayern…o que ficou é de alta qualidade, mas sem grandes novidades, apenas uma evolução do que já foi visto.
        Então, não ví mais nada depois do apito final….mas sinto um cheiro de ironia no seu comentário…um FORTE cheiro…rsrsrrsrsrs…
        Será que o Krusty vai criticar “os alemão”?
        Abraço.

        • Junior

          Thiago e Renato, foi um brincadeira sim com relação ao comentário do Trajano. Mas apenas uma brincadeira mesmo.

          abs

  • Anna

    Perfeito,André.Fiz as pazes com Robben ontem. Detestava-o pelo que tinha aprontado contra o Brasil na Copa de 2010. Meu time foi campeão em cima de um pênalti perdido dele. Mas ontem, eu torcia descaradamente por ele.Para acabar com a sua injusta fama de loser, para o Bayern não ser vice e ser comparado ao meu Vasco,coisa que me chateia profundamente.E porque o Bayern foi o time que jogou mais plástico nessa Champions League. Enfim, valeu! E esse texto fechou com chave de ouro! Bom domingo, Anna

  • Luciano Vaz

    Texto primoroso e emocionante. Abraço.

  • Sua capacidade para analogias é insuperável, André! Texto de arrepiar!
    Quando terminou o primeiro tempo, pensei: “A mentalidade vencedora do Bayern passa pela do Robben, e hoje está difícil”. O “what?” raivoso (ao vivo achei que fosse em alemão, “was?”, mas não) também me marcou pra caramba!
    Um detalhe: logo depois que o juiz “cortou” (sem querer) um dos ataque do Borússia, lá pelos 25min do 1o tempo, o Bayern criou as suas chances reais de gol, enquanto os auri-negros “só” tiveram mais o quase gol de Lewandowski, impedido por “Nayer, do Beuern”, com os pés – os mesmo que viriam a dominar um recuo na coxa e ligar o contra-ataque do primeiro gol bávaro.
    Detalhes decisivos da vida, essa orelhudinha de surpresas.
    Um abraço!

  • Marcel de Souza

    Excelente texto!

    Durante o jogo eu e meus amigos comentávamos isso mesmo, será que o Robben finalmente desencantaria? Quantas bolas ele perderia nos momentos decisivos? Porque existem grandes jogadores que “cismam” em perder as grande decisões (como se isso fosse culpa só deles)? Foi inacreditável aquele gol no finzinho, re-vi o replay várias vezes. Que lance! O toque de leve desviando do goleiro, toque lúcido, toque pro título!!

    Sobre transmissão, UCL, etc, estamos perto do momento que a UCL se tornará maior que a Copa do Mundo, e aí a FIFA que se cuide.

    1 abraço!!

    • Felipe Lima

      Só pra constar: quis o destino (ou o Sobrenatural de Almeida) que o chute mais certeiro do Robben fosse um toque com o tornozelo!!!

  • Marcos Nowosad

    Otimo texto. Parabens!

    Foi mesmo emocionante a redencao do Robben!

  • André Kfouri, 39, jornalista. ARREPIADOR freelancer!

    Texto tão grandioso quanto o feito de Robben…

    André, vc está insuportavel//ridiculamente voando baixo! Tá perdendo a graça, parece o Messi!

    AK: Calma… obrigado! Um abraço.

  • Silva

    André,

    O merecido segundo cartão amarelo para o Dante, seguido do vermelho que não foi dado pelo covarde árbitro Italiano não deve ser comentado? Por maior e maravilhoso que seja aquele espetáculo?
    Será que um dia, a America do Sul chegará, perto, igual impossível de uma organização daquele nível?
    André, da forma que você aprecia futebol, caso não fosse filho do Juca, acho que você seria São Paulino. Certo?
    Abraços.

  • Alvaro

    O fato – e esse será um comentário polêmico – o Borússia foi GARFADO em Wembley. Dante era para ter sido expulso e o Ribery (autor da EXCELENTE assistência para o gol do Bayern) também – pela cotovelada no primeiro tempo. Acredito sim, que se fosse com o Bayern, a imprensa mundial estaria falando várias….

    Mas, tirando isso, o italiano é um ser humano, passível de erros.

    Estava no cinema assistindo a final da UCL… e que experiência. Tanto o fato de ter sido no cinema, como o pré-jogo, com aquela simulação da batalha, aquilo foi sensacional.
    Espero viver para ver um dia a Connebol (peso semelhante aqui no continente) com essa organização, exemplo, enfim… um perfeito espetáculo.

    Abs.

    • Marcos Nowosad

      Achei que o lance do Dante foi mais uma “grosseria” (no sentido de ser “grosso”de bola), do que uma agressão proposital..

      Por isso, também não expulsaria.

  • Marcos Nowosad

    Cruel. Muito cruel.

    O Bayern vence o Borussia na final e ainda “passa sal” na ferida, comprando os 2 melhores jogadores do Borussia, Lewandowski e Goetze.

    Como se fala no mundo (selvagem) dos negócios.

    Não basta causar o afogamento do seu competidor. É preciso ainda jogar água na boca dele, quando ele estiver se afogando…

  • Marcos Santos

    Pois é, o esporte é algo maravilhoso.
    Parabéns ao Robben, de vilão em 2012 a herói em 2013. O importante é não desistir.
    Ah, lembra que há algum tempo te perguntei o porque será da UEFA nunca ter feito uma final de UCL no Olímpico de Berlim? Pois é, após décadas ela conserta esse equívoco histórico e em maio de 2016 a dupla finalista se encontra em Berlim pra reparar tamanho erro.
    Abraço.

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