COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

MODELO

Uma semana antes de completar noventa e sete anos, João Havelange se despediu de seu último anel. A presidência honorária da Fifa, entidade que comandou por quase um quarto de século, se foi por renúncia. Havelange se retirou para evitar humilhação pública, ainda que o caso ISL e as “comissões” que embolsou sejam parte integrante de seu histórico em qualquer busca na internet. Para sempre.

Ele havia feito mesmo em relação à posição no Comitê Olímpico Internacional, em dezembro de 2011, semanas antes de uma reunião do comitê de ética da entidade. Antes da punição, porta dos fundos. O rastro de corrupção levou a um fim de vida infame, covarde até. Mas provavelmente não será suficiente para manchar sua imagem como modelo de dirigente esportivo brasileiro.

Numa sala repleta de cartolões e cartolinhas, mestres e aprendizes do ofício, Havelange receberia beijos no rosto de quase todos os presentes. De alguns, como agradecimento pelo patrocínio de tantos e tantos anos. De outros, por mera bajulação a um ícone. Poucos, pouquíssimos, seriam aqueles que manteriam distância respeitosa. Menos ainda seriam os que não fariam de tudo para usar seus sapatos. Se não são discípulos do homem, são do método.

Carlos Arthur Nuzman faria as vezes de cicerone, segurando a mão de Havelange e sussurrando aos seus ouvidos os nomes dos pedintes. O presidente do COB ainda discursaria por longos minutos, enumerando os feitos e evidenciando a dívida impagável que o esporte brasileiro tem com um benemérito que lhe dedicou a vida. Nuzman abriria sua participação cumprimentando as senhoras e senhores, e chamando Havelange de “meu líder”, como costuma fazer.

Foi durante o período de Havelange na Fifa, entre 1974 e 1998, que as organizações comerciais passaram a desempenhar um papel crucial no futebol. A Copa do Mundo se expandiu, os direitos de transmissão pela televisão deram um salto estratosférico, a Fifa virou o que é hoje. Seguindo o exemplo, outras entidades esportivas se converteram em agências de negócios bilionários. Havelange é o criador de um modelo bem sucedido e, ao mesmo tempo, gerador de tudo o que existe de errado no esporte.

Enquanto você lê essas linhas, a absoluta maioria dos dirigentes esportivos brasileiros está preocupada apenas em prolongar sua permanência na cadeira. Por que seriam tão apegados? Por que seriam tão refratários a conceitos saudáveis como alternância no poder? O que os mantém ali por décadas, até que a saúde anuncie o fim da festa? Certamente é algo complexo, pois nem eles são capazes de responder.

Ricardo Teixeira, ex-genro de Havelange em autoexílio na Flórida, deixou a estrutura pronta na CBF para José Maria Del Nero (ou Marco Polo Marin, como queira) gozar enquanto puder. Ignorado pela Fifa e pelo governo brasileiro, o presidente da CBF se agarra a jantares caros enquanto procura saídas convenientes.

Na semana passada, as eminências estiveram em Assunção articulando um golpe na Conmebol. Marin assumiria o comando, com caminho aberto para Del Nero na CBF. Tudo por causa da renúncia de Nicolás Leoz, o penúltimo dos acajus, também molhado pela ISL.

DRAMA

O São Paulo não tem como fugir do dilema Copa Libertadores x Campeonato Paulista. Não há dúvida sobre qual é mais importante, nem sobre em qual a chance de sucesso é maior. O problema é que o calendário presenteou o clube com três jogos eliminatórios em uma semana. No primeiro deles, o time jogou por uma hora com um homem a menos e perdeu dois atletas por lesão. O que fazer? A rivalidade e a possibilidade de um título estadual indicam escalação mais forte possível neste domingo, contra o Corinthians.

CENAS

No bonito clássico de quinta-feira pela Libertadores, três momentos: a finta de Ganso no lance do gol são-paulino, tirando dois jogadores do Atlético da foto. O escanteio cobrado por Bernard, no gol de Ronaldinho. Sem peso, milimétrico. E o passe de Marcos Rocha para o gol de Tardelli. A bola quase parou diante do atacante.



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