COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

MENTE QUE VENCE

Um dia alguém conseguirá explicar o que aconteceu com a psique do futebol alemão numa noite de maio de 1999, no Camp Nou. Foi quando o Manchester United conseguiu uma das mais improváveis vitórias já vistas num campo de futebol, ao virar a final da Liga dos Campeões contra o Bayern Munique. Os dois gols ingleses foram marcados nos acréscimos do segundo tempo, em lances que se iniciaram com escanteios cobrados por David Beckham do lado esquerdo. O nome do clube alemão, e fitas com suas cores, já decoravam o troféu quando o mundo acabou.

Desde então, dissipou-se a mentalidade vencedora que marcou o futebol da Alemanha durante tanto tempo. Não, não esquecemos do título europeu do mesmo Bayern em 2001, após disputa de pênaltis com o Valencia. Foi o único momento de júbilo do período, apequenado diante das frustrações vividas por clubes e pela seleção.

Vejamos. Em 2002, derrota para o Brasil na final da Copa do Mundo da Coréia e do Japão, um mês e meio depois que o Real Madrid venceu o Bayer Leverkusen na decisão da Liga dos Campeões. Na Copa de 2006, em casa, eliminação nas semifinais pela Itália, na prorrogação. Na Euro 2008, derrota na final para a Espanha.

Um clube alemão só voltaria ao jogo decisivo do futebol da Europa em 2010, quando o Bayern caiu ante a Internazionale. Pouco depois, no Mundial da África do Sul, nova decepção nas semifinais, cortesia dos espanhóis. A semifinal foi o fim do caminho também na Euro 2012, quando os gols de Mario Balotelli impulsionaram a Itália. Um mês antes, o Bayern tinha perdido a Liga dos Campeões para o Chelsea, na dolorosa decisão por pênaltis que deprimiu Munique.

Cerca de um ano mais tarde, dois times alemães estão a um passo de encerrar a longa e escura noite que ilude um país habituado a vencer no futebol. Se o Bayern e o Borussia Dortmund sobreviverem à passagem desta semana por estádios espanhóis, determinarão que a Alemanha comemorará a conquista da temporada europeia de clubes. São vários os resultados que produziriam tal panorama, já que ambos têm o luxo de perder fora de casa sem que isso os elimine. Um deles, o Bayern, pode até ser goleado.

A volta ao Camp Nou soa como obra do destino para o clube da Baviera. Foi lá que o duríssimo golpe foi sentido há 14 anos. Foi lá, também, que uma goleada por 4 x 0 imposta pelo Barcelona em 2009, nas quartas de final da Liga dos Campeões, marcou a correção dos caminhos da instituição dirigida por Karl-Heinz Rummenigge. A humilhação está na origem do trabalho que levou o Bayern às portas de mais uma final europeia.

Para o Borussia Dortmund, um clube de futebol no sentido mais puro da expressão, sair vivo do Santiago Bernabéu significa alcançar a decisão pela primeira vez desde 1997, quando venceu a Juventus em Munique e reinou no continente.

Para os que consideram que o gol é um detalhe: se o Barcelona fizer 4 x 0, o jogo irá para a prorrogação. Se o Real Madrid fizer 3 x 0, estará classificado. As tarefas dos espanhós e as chances dos alemães são proporcionalmente colossais.

O reencontro com a mentalidade vencedora nunca esteve tão próximo.

FAÇANHA

Preocupante, mesmo, em relação à Copa do Mundo de 2014, não é o atraso das obras nos estádios. Estarão prontos de um jeito ou de outro. Não é a situação dos aeroportos, onde o “imagina na Copa” ganha os contornos mais assustadores que podemos imaginar. Não é o inacreditável serviço das operadoras de telefonia celular, incapazes de cumprir um mísero percentual do que prometem. Não. O que dá medo é a tal caxirola. A Copa das Confederações nos mostrará que conseguimos piorar a vuvuzela. Não é pouca coisa.

BOLSO

Eu ia falar dos estadu… mas felizmente tem Copa Libertadores nesta semana. Todos os clubes brasileiros em campo, com destaque para mais um interessantíssimo clássico entre São Paulo e Atlético Mineiro. Nos outros confrontos, é hora dos orçamentos dos nossos clubes falarem mais alto. Não foi o que se viu, em muitos casos, até agora.



  • Thadeo Pinhão

    Palpites pra Libertadores, André?

  • Emerson Cruz

    Faz algum tempo que torço para o futebol alemão se tornar novamente vitorioso e hegemônico na Europa, isto se deve menos a alguma simpatia minha aos clubes de lá, e mais a uma admiração ao modelo de gestão adotado na Bundesliga, que se não é perfeito, sem dúvida é o melhor modelo de liga do futebol mundial.

  • Joao

    No Brasil também há a filosofia do “Mente que Vence”, só que aqui acredita-se no mentir para vencer.

    Se houvesse o tal legado da Copa, o mundial não seria de todo o mal. Teríamos revitalização urbana em algumas áreas, aeroportos um pouco melhores e estádios dignos do país do futebol. Uma pena que esse país não é sério e passaremos um vexame monumental ano que vem.

    Abraço – Joao CWB

  • Gustavo

    André,

    Estive na Fonte Nova no domingo e recebi minha caxirola de presente. Posso assegurar que tem sonoridade bem menos desagradável do que a vuvuzela. Chacoalhada coletivamente, lembra uma salva de palmas e o ruído não chega a ser agressivo. O design é funcional, mas a associação com uma granada é inevitável.

    Mas o ridículo mesmo é a criação de um “instrumento” para simular uma tradição inexistente nos estádios brasileiros. Tá claro que a finalidade é a comercialização como souvenir licenciado para turistas ansiosos por conhecer a personalidade festeira do povo tropical.

    Enquanto isso, será proibida a venda de acarajés nas imediações do estádio (hábito secular na capital baiana) e já estão sendo indeferidos pela prefeitura os pedidos de licença para realização de festas juninas na cidade em 2014.

    Viva a Fifa!

    Abraço.

    AK: É absolutamente artificial. Mas lucrativo, claro. Um abraço.

  • Leonardo Moamed

    Escrevi um texto no meu blog sobre este Borussia Dortmund:
    Texto III
    Borussia Dortmund e o ‘Projeto Scout’.
    Ao assumir o clube, em novembro 2004, o atual presidente do Dortmund, Reinhard Rauball, encontrou uma situação financeira desesperadora. A dívida do clube era de 170 milhões e aumentando 25 por ano. Adotou uma política de austeridade, que levou o clube de volta à elite. Nesse processo, foi fundamental a capacidade de montar um time gastando pouco.
    Quem acompanha os esportes americanos está acostumado com o termo “scout”. Os scouts são aqueles que têm o objetivo de encontrar atletas em outros países ou em times menores para serem contratados. O Dortmund utiliza um modelo parecido.
    Uma demonstração desse projeto ‘scout’ pôde ser vista no último jogo, pela semifinal da UEFA Champions League, contra o Real Madrid. Os onze titulares, que golearam o time merengue por 4 a 0, somados, custaram 40,8 milhões de euros aos cofres dos clube – menor valor entre os quatro finalistas (listas abaixo). O camisa 7 do time adversário – Cristiano Ronaldo – foi contratado pelos madridistas por 93,9 milhões de euros.
    A diferença, que assusta, pode ser interpretada de duas formas: 1ª, Cristiano Ronaldo não vale tudo isso; 2ª, Borussia tem olheiros espetaculares e contrata muito bem. A segunda leitura é a correta.
    Se na hora de contratar os ‘aurinegros’ são competentes, na de negociar, também. Na terça-feira que precedeu o jogo contra o Real Madrid, foi anunciado o acerto de Mario Gotze, meio campista da equipe, com o rival Bayern de Munique. Formado nas categorias de base, o alemão foi vendido por 37,5 milhões de euros. Um dinheiro graúdo. Lewandowski, autor dos quatro jogos na semifinal, interessa diversas equipes – Real Madrid e Bayern, por exemplo. Se deixar o clube, o polonês provavelmente gerará lucro similar.
    A formação de jogadores é igualmente valorizada. A renovação do time é constante. Além da média de idade do elenco ser de 24,3, o clube tem o passe de oito jogadores que freqüentaram as seleções de base recentemente (lista abaixo).
    O próximo passo, porém, é conseguir manter os destaques na equipe. Aliando isto ao excelente trabalho de formulação do time, que envolve contratar jovens e “desconhecidos, o Borussia se credenciará a disputar todos os títulos – UCL, inclusive, por temporadas consecutivas. Mas para um time que há 10 anos estava quebrado, e, desde então, conquistou dois campeonatos alemães, cumprir esta meta parece ser questão de tempo. Ou alguém duvidará da equipe do Norte de Westfalen?
    Lista de titulares contra o Real Madrid e valores (em euro) pelos quais foram contratados:
    Roman Weidenfeller (Kaiserslautern, sem contrato – de graça);
    Łukasz Piszczek (Hertha Berlim, sem contrato);
    Mats Hummels (Bayern de Munique, 4,2 milhões);
    Neven Subotić (Mainz 05, 4,5 milhões);
    Marcel Schmelzer (Formado no clube);
    Sven Bender (Munique 1860, 1,5 milhões);
    İlkay Gündoğan(Nuremberg, 5,5milhões);
    Jakub Blaszczykowski (Wisla Krakóvia – POL, 3 milhões);
    Marco Reus (Borussia Mönchengladbach, 17,1 milhões);
    Mario Götze (Formado no clube);
    Robert Lewandowski (Lech Poznań – POL, 4,7 milhões).
    Total: 40,8 milhões.
    Preço (em euros) dos titulares dos outros três semifinalistas:
    Real Madrid: Diego López, 3,5; Sérgio Ramos, 27; Pepe, 30; Varane, 10; Coentrão, 30; Xabi Alonso, 35,4; Khedira,14; Modrić, 30; Özil, 18; Cristiano Ronaldo, 94; Higuaín, 12. Total: 303,9 milhões
    Bayern de Munique: Neuer, 22; Lahm, fnc; Boateng, 13,5; Dante, 4,7; Alaba, fnc; Javi Martínez, 40; Schweinsteiger, fnc; Robben, 24; Müller, fnc; Ribéry, 25; Mario Gómez, 30. Total: 159,2 milhões.
    Barcelona: Valdés, formado no clube (fnc); Daniel Alves, 35,5; Piqué, 5; Bartra, fnc; Jordi Alba, 14; Busquets, fnc; Xavi, fnc; Iniesta, fnc; Pedro, fnc; Messi, fnc; Alexis Sánchez, 26. Total: 80,5 milhões.
    Atletas que passaram pelas seleções de base:
    Zlatan Alomerovic – 21 anos – goleiro (Sub-21);
    Lasse Sobiech – 22 anos – zagueiro (Sub-21, 19 e 18);
    Marc Hornschuh – 22 anos – zagueiro (Sub-21, 19 e 18);
    Koray Gunter – 18 anos – zagueiro (Sub-19, 17 e 16);
    Julian Koch – 22 – zagueiro (Sub-21, 20, 18 e 17);
    Moritz Leitner – 20 anos – meio campista (Sub-21, 19 e 17);
    Daniel Ginczek – 22 anos – atacante (Sub-21, 20, 19, 18 e 17);
    Leonardo Bittencourt* – 19 anos – zagueiro/atacante (Sub-21, 20, 19, 18 e 17);
    *Por ainda não ter jogado pela seleção principal, Bittencourt pode decidr entre a Alemã e a Brasileira. Segundo os jornalistas, optará por atuar ao lado de seus companheiros de clube. Pela mídia e torcedores, é considerado o substituto de Gotze e, ao lado de Draxler, do Schalke 04, de Reus, do Dortmund, e do próprio Gotze, a partir de Julho do Bayern de Munique, é apontado o futuro do futebol.

    AK: Obrigado pelo comentário. Na próxima vez, que tal disponibilizar o link? Um abraço.

  • Alexandre

    Bela descrição do (aparentemente terminado) calvário alemão, André.
    Espero que daqui a uns anos você possa começar um texto com: “Um dia alguém conseguirá explicar o que aconteceu com a psique do futebol brasileiro numa tarde em 2006…” e que, claro, possa também terminar com “O reencontro com a mentalidade vencedora nunca esteve tão próximo.”
    Mas o meu palpite é que ainda vai demorar…

    AK: Frankfurt. O dia em que Zidane jantou o meio de campo da Seleção Brasileira. Uma das maiores atuações individuais que vi. Um abraço.

    • Alexandre

      Depois disso, nosso brilho foi se esmaecendo, se esmaecendo, até que…cadê o futebol brasileiro???

      • Excelente lembrança, Alexandre!
        E não dá pra não ter saudade do Zidane ditando o ritmo dos outros 19 em campo …

        Um gênio!

  • Alexandre

    A caxirola é uma benção!
    É o símbolo concreto que faltava para o fracasso que se anuncia.
    Depois de 2014, ninguém mais vai falar deu zebra, deu m. Vão falar: deu caxirola!
    Que grande contribuição à cultura popular brasileira!

  • Alexandre

    “É hora dos orçamentos dos nossos clubes falarem mais alto”.
    Mas aí acabou de vez a Libertadores, né?
    A mesma disparidade de recursos que matou os Estaduais vai matar também o Campeonato Brasileiro e a Libertadores…

    AK: Foi um comentário crítico a quem deveria jogar mais. Um abraço.

  • Clayton

    Depois de colocar 50.000 com o time semi condenado no último jogo, eis que a carga de 64.000 está esgotada para o jogo de quinta contra o Galo. Parabéns à massa tricolor.

    Em resposta ao torcedores atleticanos, com aquele papo de “caiu no horto, tá morto”, vou levar uma faixa ao Morumbi escrito: “Caiu no Morumba, tá na tumba!”.

    André e colegas do blog, não é que o discurso motivacional arrepiante do Capitão Ceni foi parar no site do espanhol “Marca”? Depois de ter repercutido no site do “Olé” também… É mole a moral do M1T0? Sensacional.

    Um abraço a todos!

  • Walter

    Perfeito André Kfouri! Existem coisas que a transpiração e a razão tática não explicam no futebol. Que o digam Freud e Jung, no caso, principalmente este último com o inconsciente coletivo. Interessante sua abordagem sobre o futebol alemão. Muito se tem falado sobre como a organização extra-campo e a preocupação em pensar o futebol estruturalmente influenciou a qualidade do futebol que lá é jogado, mas existem realces ainda inexplorados, um deles você acabou de apresentar!

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