ESSES ALEMÃES…



Leitores mais antigos certamente se lembrarão do “Vascaíno”.

Já publicamos aqui textos enviados por ele, quase sempre sobre o Vasco.

Eis que, após algum tempo, creio, se ocupando com temas muito mais importantes do que contribuir com este blog, o Vascaíno reapareceu com uma pensata sobre o que dois clubes alemães nos mostraram nesta semana.

É minha obrigação agradecer a ele e, claro, dividir com vocês.

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O QUE PODEMOS APRENDER COM OS ALEMÃES

Eu me permito acreditar que o sonoríssimo 8×1 aplicado tem relação clara com o comportamento dos alemães e a maneira como eles se desenvolvem. Tipicamente, em uma visão folclórica, o indivíduo alemão é visto como cidadão obediente, imune a emoções, “certinho”, ou como dizem lá nas Minas Gerais, um sujeito “sistemático”.

Mais que isso, o alemão é, com certeza, um pragmático. E este pragmatismo se reflete em muitas, muitas coisas, muito além do futebol.

O alemão é um povo estudioso.  Não à toa, tantas descobertas no campo da ciência são devidas aos alemães.  Duvida? É fácil pensar em Albert Einstein.  Menos óbvio é saber que é por causa de um alemão que, toda vez que você visita algum país anglo saxão, precisa fazer as contas para descobrir a temperatura, convertendo dados da escala Fahrenheit, a cujo criador (Daniel Gabriel Fahrenheit) a humanidade também deve os termômetros de mercúrio (sim, aquele, com o qual sua mãe media sua febre). 

Hans Geiger, que participou da pesquisa que descobriu os núcleos dos átomos e que criou o contador de Geiger, usado para medir radiação e para detecção de metais, nossos portais de acesso aos aeroportos da vida.  Quem ouve rádio certamente já pagou seus respeitos a Heinrich Hertz, que está na unidade de medida de frequências (os MegaHertz do FM e os KiloHertz do AM).

Talvez muitos destes devam a alguma coisa a Carl Friedrich Gauss, gênio da matemática, que criou e/ou deduziu muito das teorias dos números, álgebra, estatística, geometria analítica, geodésia, geofísica, eletrostática, astronomia e ótica.

Mudando um pouco o campo de conhecimento, a invenção do automóvel, no século 18, é creditada ao francês Nicolas-Joseph Cugnot, mas foi na Alemanha que nasceram BMW, Mercedes, Daimler, Volkswagen, Audi, Porsche, DKW e Trabant (estes últimos, em homenagem ao Flávio Gomes – :))

Nem sempre a coisa é tão lúdica.  Ingleses e franceses criaram os primeiros tanques de guerra.  Mas os alemães os transformaram em arma e doutrina de combate na Segunda Guerra Mundial, em que estiveram perto de saírem vencedores.

Tudo isto para dizer que o alemão estuda, entende suas forças, suas fraquezas e constrói soluções.  Foi assim também no futebol.  Percebendo sua dificuldade em lidar com alguns adversários de habilidade superior e pragmáticos o suficiente para perceberem que não seria de lá que sairiam novos garrinchas e pelés, trataram de criar um estilo adaptado às suas características físicas e culturais.  Times fisicamente muito fortes.  Defesas consistentes.  Alguma habilidade.  Toma-se poucos gols.  Organização e jogadas ensaiadas – faz-se gols.

Assim, ganharam uma copa em 1974, outra em 1990.  Foram vice campeões em 82, 86 e 2002.  Mais os terceiros lugares em 2006 E 2010.  Nas últimas 10 Copas, estiveram entre os 3 primeiros colocados 7 vezes.  Se voltarmos mais duas copas, 66 e 70, veremos mais um segundo e um terceiro lugares – 9 em 12.  Sim, esses caras fazem alguma coisa bastante certa.

Isso bate em seus clubes.  Reconheceram que, embora tenham Schweinsteiger, Muller, Lahm, Neuer, Kroos e tantos outros, não teriam um Messi, nem Xavi e nem Iniesta.

É curioso notar que o Real Madrid, por mais que seja um baita de um time de futebol e apesar de seu treinador multimilionário, não apresenta nada de muito novo.  É um time formado por jogadores caríssimos, muito bons (nem todos), mas que joga o mesmo futebol de sempre. Um 4-4-2, que varia para um 4-5-1 ou um 4-3-3.  E aí, com os recursos financeiros que levam à contratação de seus craques, é time para ganhar de qualquer um.

Os alemães fizeram diferente.  Olharam o Barcelona, perderam para o Barcelona, se irritaram com o Barcelona.

Mas lembre, eles são pragmáticos.  Eles não têm os recursos do Real Madrid.  Eles não podem sair comprando a torto e a direito (as normas da Bundesliga são rigorosas com as dívidas estratosféricas de clubes de futebol).  E, acima de tudo, eles sabem que não adianta rezar para que surjam, ao mesmo tempo, novos busquets, xavis, iniestas e messis comendo strudel e joelho de porco.

Por isso, ao invés de comprar uma penca de jogadores caríssimos e criar uma imitação barata do Barcelona, trataram de parar de choramingar com a vida e foram a campo.  Viram o Barcelona, admiraram o Barcelona, ESTUDARAM o Barcelona.

E trataram de encontrar meios de combater o Barcelona.  Trataram também de encontrar meios para subjugar o Madrid. Não ficaram no ferrolho (o ônibus azul do Chelsea nem sempre para no mesmo ponto).  Nem tentaram o combate a peito aberto.

Se todas as jogadas do Barcelona passam por Xavi e Iniesta (e todas as do Madrid por Xabi Alonso), trataram de não lhes dar um único segundo de paz.  Se todas as jogadas de desafogo do Madrid passam por Cristiano Ronaldo, trataram de lhe limitar o espaço.  Se Messi é um perigo até mesmo dormindo, que a bola caia no pé do Alexis Sanchez.

Anulando os pontos chave dos adversários, suas forças puderam aparecer.  Força física. Treinamento.  Não, não foi à toa que o Bayern fez dois gols em “bola aérea” com alguém escorando para a conclusão de alguém.  Esta jogada permite um cruzamento mais alto, mais lento, de tal forma que o jogador mais alto e forte tenha mais probabilidade de tocar a bola.  Ao tocarem a bola, não tentaram marcar os gols improváveis (a bola veio alta e fraca).  Sabiam que algum companheiro estaria ali perto para concluir.  Isto é ESTUDO, que leva a um PLANEJAMENTO, que permite uma PREPARAÇÃO adequada através de TREINAMENTO.

E habilidade também.  Os gols de Robben e os gols 2 e 3 do Lewandowski não sairiam, jamais, dos pés de um perna de pau qualquer.

Mas o Bayern, ao invés de queimar algo em torno de 50 milhões de euros para comprar o Neymar, comprou o bravo Dante.  Dante fez sua carreira profissional nos poderosos Juventude, Lille, Charleroi, Standard Liège, Borussia Mönchengladbach.  A transação para o Bayern é estimada em 4.7 milhões de euros. 

Lewandowski, por sua vez, passou pelos possantes Delta Warsaw, Legia Warsaw, Znicz Pruszkow, Lech Poznan antes de chegar ao Dortmund, por algo em torno de 4.5 milhões de euros.  Isto é pesquisa de mercado.  MUITA pesquisa de mercado.

O time do Dortmund que entrou em campo e massacrou o Madrid tem uma idade média de 25 anos.  Já o time do Bayern é um pouco mais velho: 26,4.

É razoável supor que ambos ainda têm alguma lenha para queimar.

O futebol brasileiro precisa, urgentemente, largar sua arrogância institucional coletiva de “únicos penta campeões mundiais” e ver. Ouvir. Ler. Estudar. Pesquisar. Aprender. Trabalhar. Progredir.



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