COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

REGRESSIVA

Do outro lado da mesa, o telefone do agente vibrou. A foto surgiu na tela identificando um de seus clientes. “Um minuto, preciso atender”, ele disse. Mas não se levantou, não se preocupou em falar baixo ou em monossílabas.

O jogador na linha atua por um grande clube brasileiro. Grande mesmo. Você não diria que tal clube enfrenta problemas de falta de dinheiro para honrar a própria folha de pagamento. O jogador estava insatisfeito porque seu último salário havia completado dois meses naquele dia. Ligou para o agente para discutir o que fazer.

A conversa baseou-se em um tema principal. O jogador queria “meter a boca”, jargão usado para levar a história a conhecimento público, como forma de pressionar o clube. O agente, balançando a cabeça em sinal de reprovação, tentou convencê-lo a permanecer calado. “Fica tranquilo porque quando der três meses, a gente se manda”, explicou.

A lei determina que o terceiro mês de atraso nos pagamentos é a porta de saída. O jogador vai à Justiça e fica livre para dar prosseguimento à carreira em outro lugar. Clubes que não têm o hábito de pagar seus atletas em dia controlam o calendário de cada um deles (sim, é comum alguns receberem e outros não) para não correr o risco de perdê-los. O esforço não é para fazer os depósitos a cada mês, por inviável. É para não deixar o terceiro mês se completar. Claro, nem sempre é possível.

Muitos clubes manobram entre o salário e o direito de imagem. Depositam o que tem menor valor, ou apenas o salário, para não configurar o mês vencido. A prática nem sempre cola quando o problema chega ao tribunal, pois advogados conseguem provar que o que o clube chama de direito de imagem é, de fato, uma parte da remuneração mensal do atleta. No caso do jogador mencionado aqui, o clube está em situação ainda mais sensível: o agente fez garantir em contrato que o limite dos três meses vale para qualquer tipo de atraso.

As irresponsabilidades cometidas pelo clube em questão são assustadoras. Há salários de nível europeu sendo (ou melhor, não sendo) pagos a futebolistas que ainda têm muito a provar. Alguns nem estão jogando. Como a conversa corre no vestiário, todos sabem quanto cada um ganha e há quanto tempo o dinheiro não aparece na conta. O agente calcula que se o clube não for salvo por um torcedor milionário disposto a fazer um empréstimo a fundo perdido, simplesmente não haverá recursos para as próximas folhas.

O alicerce do caixa do clube era uma operação financeira que não se materializou, situação agravada por decisões tomadas pelas pessoas erradas. As semanas passam e vários jogadores ponderam que providências tomar. O curioso na história é que questões dessa natureza sempre terminam nas páginas dos jornais. Esta ainda está controlada, talvez porque certos jogadores têm sido privilegiados pela diretoria. Ainda.

A conversa terminou com um plano de ação. “Com duas semanas, a gente notifica. Quando faltar uma, a gente notifica de novo. É para eles não poderem dizer que não foram avisados”, explicou o agente.

EQUÍVOCOS

Bayern, Dortmund, Barcelona e Real Madrid são os semifinalistas da Liga dos Campeões. Bom para o torneio, bom para quem assiste. Mas a quantidade de erros de arbitragem na fase de quartas de final passou dos limites. Quatro jogos foram marcados por gols irregulares, em que impedimentos deveriam ter sido marcados. Alguns lances foram realmente difíceis, os chamados “impedimentos de TV”, como o primeiro gol do Real Madrid no jogo de volta contra o Galatasaray. Mas para outros, não há explicação. No gol da classificação do Dortmund havia quatro jogadores impedidos.

ACERTOS

Cenas bonitas em Dortmund, depois do jogo. A torcida do Málaga aplaudiu os jogadores alemães durante a comemoração. Como retribuição, foi aplaudida pela torcida do Borússia, ao deixar o estádio. O episódio raro precisa ser registrado, pois futebol, de verdade, é isso.



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