CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

MANEQUINS

Foi um encontro inesperado e revelador. Banheiro masculino do Ginásio da Paz e da Amizade, santuário do vôlei brasileiro, Atenas 2004. O espelho refletiu a entrada de um sujeito vestido, dos pés à cabeça, com a roupa da Olympikus, então patrocinadora do COB. Era o ministro do esporte do Brasil, Agnelo Queiroz.

A princípio, a falta de decoro estético de um ministro de estado chamou a atenção. Senão por falta de liturgia, por ausência de necessidade. O agasalho de mangas compridas era absolutamente dispensável numa cidade em que fazia 38 graus à noite.

Mas é possível que o desejo do ministro em sentir-se atleta – verificado pela fobia de comparecer às cerimônias em que nosso hino nacional era executado – fosse mais forte do que ele. De todo modo, aquele encontro serviu para suavizar a inexplicável aparição de Aldo Rebelo, o sucessor do sucessor de Queiroz, trajando uma jaqueta da Nike no Roda Viva, da TV Cultura.

Terá sido um merchan? Ou escapou ao ministro a conclusão (óbvia, convenhamos) de que a imagem não ficaria bem para o mesmo político que presidiu uma comissão parlamentar de inquérito chamada CBF/Nike? É ainda provável que a escolha tenha sido feita por patriotismo, para combinar com o discurso padrão de Rebelo quando o tema é a Copa do Mundo de 2014.

As entrevistas de Queiroz eram angustiantes, dada sua dramática dificuldade para concatenar ideias. As de Orlando Silva eram soníferas, pela carência de objetividade. A de Rebelo, na segunda-feira, foi uma provocação a quem queria ver a Copa no Brasil discutida com seriedade.

De acordo com o ministro, quem faz perguntas por obrigação profissional é inimigo do país. Quem questiona os mamutes brancos erguidos com verba pública onde não há futebol profissional revela preconceito. Ame-o ou deixe-o, 2013.

É só isso? Não pode ser. O país precisa de um ministro do esporte. Até hoje não teve um.

CHANCE

É elogiável que Aldo Rebelo tenha aceitado ir a um programa de televisão, sabendo que – e por quem – seria questionado. Há quem prefira frequentar apenas os ambientes em que a camaradagem impera. Pena que o ministro tenha desperdiçado a oportunidade de esclarecer assuntos importantes. Pior, que tenha optado por levar a conversa para rumos desnecessários, como a tentativa de desqualificar debatedores.

TAREFA

Quem conhece Aldo Rebelo o tem na conta de um homem inteligente e articulado. A versão que se apresentou no Roda Viva tende a dar razão a José Maria Marin, que foi gravado dizendo que Rebelo “tem raciocínio demorado”. Se alguém como Marin tem essa opinião sobre você, a situação é de absoluta gravidade. E se você pode impedir que Marin o represente, e a todos os brasileiros, na organização da Copa do Mundo, é sua obrigação garantir que o país seja melhor servido.



  • Fala André!

    Interessante você tocar no assunto. Gostaria de ponderar que não há como dizer que os políticos “profissionais” em nosso país são articulados, inteligentes e perspicazes, profundos conhecedores dos meandros institucionais e constitucionais do nosso país. Não dá. Simplesmente pelo fato de os nossos representantes lá estarem porque não deram certo em nenhum outro campo da vida e por isso acabaram por encontrar na política um atalho para uma vida melhor.

    O que podemos afirmar é que eles são experientes e sabem jogar o jogo do poder público – o que gostamos de chamar de “Sistema” – com um tom de teoria da conspiração. E, claro, sabem se esquivar de perguntas diretas da imprensa que, muitas vezes, se conforma com respostas superficiais e explicações pela metade. Por isso fico muito feliz em ver você questionando a validade das respostas do Ministro.

    Isso foi objeto de uma reflexão que fiz em meu blog na época das eleições, no ano passado. Aqui vai o link para quem quiser dar uma passada por lá. http://inconsequenciacriativa.blogspot.co.uk/2012/10/a-politica-da-opcao.html

    O fato é que nossos políticos não são sérios. Nem profissionais. E o ministro do esporte que (como você muito bem disse) nunca tivemos é mais um reflexo da forma como fazemos política, e da importância que damos a este assunto.

    Abraço!

  • Emerson Cruz

    A postura do ministro na entrevista foi lamentável e serviu apenas para ratificar o que já se sabia. Isto é, continuaremos sem uma politica esportiva no país, a cartolagem que tanto infecta nossas entidades esportivas continuará fazendo o que lhe convir, a farra com nosso dinheiro continuará e nós continuaremos a ser tratados como imbecis. É, vida que segue!

  • Excelente, realmente triste e constrangedora a entrevista.

  • Fábio Minghetti

    “O país precisa de um ministro do esporte. Até hoje não teve um.”

  • Absolutamente irretocável.

    Parabéns André.

  • Juliano

    Estamos mal-assessorados.

    Off-topic: Semis da UCL definidas:
    Bayern x Barça
    Borussia x Real

    Sim, possibilidade final caseira. E eu, sem palpite.

    Abraço!

  • O duro e olhar ao redor e ver as opcoes que temos…. Na saida de Marin, podemos ter Marco Polo Del Nero, Andres Sanchez e Ronaldo. Ha que se pese a capacidade dos dois ultimos, os multiplos conflitos de interesses nao fazem com que esses nomes sejam desejaveis. Pobre futebol brasileiro!

  • Kleber M

    André,
    Eu olhava pra cara de incredulidade do Mauro Cezar e imaginava o que ele estaria pensando ou desejando despejar na cara do “ministro”. Foi constrangedor imaginar que esse nível de pessoa “nos representa”. Ao defender a copa em Manaus, ele ressaltou os “clássicos” NacionalxFast (850 testemunhas em 2012) e NacionalxS.Raimundo (1169 este ano)… E mencionou preconceito do sul contra o norte! Eu realmente tenho preconceito contra qualquer gasto inútil com o imposto suado que tenho de pagar para esse governo corrupto e parasitas como o sr.Rebelo!

  • Joao

    Direita e esquerda se equivalem.

    Uns matam em nome da pátria, outros em nome da revolução.

    Ambos ferram o país e os inocentes do seu povo.

    Abraço

    Joao – Curitiba/PR

  • “A Copa do Mundo não tem segredo, não tem mistério. É um evento que se realiza de quatro em quatro anos. Basta ver o que foi feito na África do Sul, antecipar soluções e problemas e fazer isso no Brasil” – Aldo Rebelo.
    Gênio. Parei na parte do tal preconceito contra um estádio na região que representa 60% do território nacional…

    É a afronta personificada da Copa à nossa inteligência.
    Um abraço.

  • Rita

    Que ótimo você comentar esse assunto.
    Ouvi comentários na rádio hoje sobre essa entrevista.
    Preciso (respirando bem fundo antes) assisti-la.

  • Thiago

    Rapaz,desculpe MESMO,mas 38 graus à noite não foi um pouco de exagero? Nem no Rio,que é quente pra c… a noite chega a isso. Aqui,no máximo,é 25 à noite.

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