COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

SÁBADO PERDIDO

O que aprendemos depois da goleada do Brasil sem “europeus” sobre a Bolívia sem altitude? Pouco. Pouco além do que já sabíamos. Que o nível do mar e seus arredores são kriptonita para o futebol boliviano; que Neymar é um jogador diferente; que Ronaldinho Gaúcho está de bem com a vida e com a bola; que há jogadores atuando em nosso país que podem sonhar com a Copa das Confederações. Antes de qualquer coisa, que um amistoso contra um adversário tão débil produz conclusões duvidosas. Não há novidades.

Felipão nos contou algo sobre suas impressões. A observação de alguém como Jean atuando como lateral, a entrada de Réver na relação de opções para a zaga. No mais, Jadson e Osvaldo deixaram Santa Cruz de La Sierra com as sensações que Alexandre Pato, de volta ao time, gostaria de ter. O técnico assumiu a Seleção numa fase de amistosos contra times de pedigree importante, mas só encontrou a primeira vitória quando enfrentou um combinado nacional desprovido de sua maior força.

Preferências e estilos à parte, não há como deixar de notar a areia enchendo a parte de baixo da ampulheta, pressionando um trabalho que já começou atrasado. E não há como deixar de lembrar que tudo o que está acontecendo com o time de Felipão já tinha acontecido com o time de Mano Menezes. No aspecto da construção de uma maneira de jogar (não há nada que seja mais imperativo do que isso, agora), o sábado na Bolívia foi uma colossal perda de tempo.

Também foi um desperdício no aspecto, digamos, humano do amistoso. Este Bolívia e Brasil estava na agenda há cerca de um ano, como festejo do meio centenário da maior conquista do futebol boliviano: a Copa América de 1963. O pretexto de honrar Kevin Espada acelerou a conversa e acrescentou o slogan “jogo pela paz” ao encontro. Como acontece com tudo que começa errado, ficou pior. A incompetência generalizada levou a família do garoto da condição de homenageada à de indignada. Os parentes de Kevin, morto por um foguete em um jogo de futebol, recusaram-se a ir ao evento.

Fizeram bem. O ambiente no estádio era de barulho e festa, com a presença dos jogadores bolivianos campeões há 50 anos. Nada que sugerisse a consternação por uma morte absolutamente estúpida. O ápice do descaso se deu durante a observação de um minuto de silêncio, antes do jogo. Não era em respeito a Kevin, mas a um ex-presidente da Federação Boliviana. Nem quem excede em criatividade poderia inventar algo assim.

A parte da renda do amistoso que será doada à família Espada ainda não foi definida. Assim como a quantia da arrecadação do próximo Corinthians x San Jose, pela Libertadores. Políticos brasileiros que estiveram na Bolívia honraram sua vocação ao capitalizar a atenção e esquecer a ação. Fica tudo para depois, porque a agenda foi cumprida e isso é o que importa.

Uma homenagem que não se fez, uma goleada que não serviu, um amistoso que não ensinou. A Copa das Confederações se avizinha. Dois meses para a estreia.

SOFÁ

O São Paulo deixou de se preparar adequadamente para jogar na Bolívia pela Libertadores, entre outras coisas, por causa de um clássico válido por um torneio sem valor. O Fluminense perdeu Fred para as duas próximas rodadas da competição continental, por uma lesão sofrida num jogo contra o Resende. Os Estaduais são a mulher infiel, os clubes são os maridos traídos. Falam, falam, mas voltam para os braços dela após uma conversinha mole. Merecem-se.

É ISSO?

O tratamento privilegiado que permite que se treine menos do que os outros e se dispute apenas os jogos mais importantes é, normalmente, dispensado a jogadores fundamentais, especiais. Pelo que se deduz das últimas declarações de Gilson Kleina, Valdivia atingiu esse patamar no Palmeiras.

HOLA, QUÉ TAL?

Pelo que tem feito nos jogos do Newell’s Old Boys na Libertadores, não há desculpa para Ignacio Scocco não jogar no Brasil no ano que vem.



  • Emerson Cruz

    O jogo da mentira na Bolívia foi mais um evento que demonstra a maneira nefasta como se usufruem do futebol brasileiro. Aliás, este uso político e nefasto do futebol por aqui, está diretamente ligado a ainda realização dos chatíssimos estaduais.
    Sobre o Scocco, certamente é o melhor jogador em atividade na Argentina, acho que poderíamos vê-lo atuando por aqui ainda este ano, pois seu contrato de empréstimo ao Newell’s encerra-se na metade de 2013.

  • Dyl Blanco

    A deprimente situação dos campeonatos estaduais torna palpável o que chamei no comentário de sua Coluna da Terça em 02/04, em adendo ao comentário do leitor Marcos Nowosad, de tiro no pé. A imprensa esportiva vem abrindo o horizonte do torcedor trazendo até nós campeonatos de outros continentes com níveis de estrutura e organização que nunca vimos por aqui, preenchendo as lacunas abertas durante décadas de desrespeito. O torcedor hoje exige equiparação ao que existe lá fora. Os jogadores e técnicos praticamente imploram por isso. Os clubes começam a cobrar isso também, dando pouca ou nenhuma importância a jogos que venham a ser “descartáveis”. Só os eternos administradores e/ou aproveitadores tentam manter a qualquer custo fórmulas falidas. Se numa sociedade de 04 componentes (público, jogadores, clubes e administradores) a vontade de 03 desses elementos são contrárias ao que está sendo feito, o desfecho será inevitavelmente de ruptura. Já que nos enfiaram a modernização das estruturas físicas goela abaixo, é hora de pegar os limões e fazer uma grande limonada.

    • Concordo em partes com você (deveríamos ter iniciado a mudança do futebol brasileiro ontem) mas ponho em dúvida o fato de que será que estes personagens imploram mesmo por mudanças?
      Os falidos estaduais de que reclamam, são desvalorizados por todos desde que não se ganhe, caso contrário passa a ser a coisa mais importante do mundo. Dirigentes trocam ofensas e caneladas públicas enquanto nos bastidores das federações e CBF assinam regulamentos e tabelas ridículas destes mesmos campeonatos falidos regados a Whisky Escocês e tapinhas nas costas (não se preserva o negócio que é o futebol e todo sorte de picuinhas prevalece em nome da tal defesa dos interesses do clube). Depois jogam para a torcida passando o resto do ano colocando em suspeição o campeonato ou reclamando do tal calendário brasileiro que eles mesmos assinaram em baixo quando o seu clube vai mal.
      Os dirigentes de federações coadjuvantes ou na maioria das vezes protagonistas que propõe estes campeonatos sem pé nem cabeça, são eleitos por estes mesmos clubes em um jogo de toma lá da cá e se o presidente da Confederação for amigo, aí que mau tem?
      Torcedor (assim como o dirigente do clube) então é cheio de ética que termina quando os interesses de seu clube estão em jogo. Ontem li um comentário que resume bem independente de que cor de camisa se torça e define bem o que se passa na mentalidade (infelizmente da maioria) do futebol brasileiro:
      “O que não pode é se passar por um radical em busca da ética quando na verdade se é só um torcedor querendo ver o seu rival se ferrar” e acrescentaria apenas: ou ver o seu time levar vantagem. A ética e a indignação para muitos terminam por aí.
      Quanto aos jogadores? Sem comentários. Estão preocupados com badalação que visam apenas uma venda rentável ao futebol internacional e de resto não estão nem um pouco preocupados.
      Enquanto não se colocar o futebol brasileiro antes de tudo em vez dos interesses individuais pequenos do clube ou “paixonites doentias”, ninguém tem o que reclamar.

      • Gufsouza

        Cara, você disse tudo! As coisas andam assim por culpa dos próprios clubes. Eles assinam o regulamento, elegem presidentes das federações e da CBF. Os estaduais são os quintais dos clubes. A chance de ganhar a libertadores é muito menor que vencer o estadual. Então os grandes que estão na competição vão levando as duas (estaduais e libertadores) e quando caem fora da libertadores, voltam para o estadual.Só lembrando que a federação paulista paga 10,8milhões para o Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos disputarem o campeonato.

      • Dyl Blanco

        Concordo com você que a intrincada e pouco racional relação entre os clubes e as federações passa, quase que
        exclusivamente, pela quantidade de dinheiro envolvida nas cotas comercializadas. Tudo é aceito desde que recompensado. Mas as cotas envolvidas remuneram o que? Os jogos e suas estrelas. Hoje os clubes ainda dependem fundamentalmente dessas cotas de transmissão, recebendo-as antecipadamente, mas começam a perceber o potencial de suas marcas, conseguindo valores cada vez mais significativos a cada temporada. Deixando de lado uma utópica ética, ao ser obtida uma quantia equivalente de forma independente, é muito provável que a tão sonhada Liga Independente deixe de povoar nossos sonhos e se torne realidade. E a forma mais eficiente de implantação é concentrar as ações nas regiões pouco desenvolvidas do país, até hoje ausentes no cenário futebolístico, aproveitando o que sobrar de estrutura física herdada da Copa do Mundo. Nessas regiões os conglomerados da comunicação não blindaram as negociações, tornando possíveis vários tipos de torneios, principalmente no início das temporadas. Viabilizar comercialmente não é uma missão impossível, mas requererá critério e profissionalismo, principalmente para não permitir novos compromissos leoninos. A chance está se apresentando e não pode ser desperdiçada.

  • Ricardo Turqueti

    Off-topic-mas-nem-tanto: André, já que na coluna se fala na tragédia anunciada do SPFC… não é o caso de um comentário ou mesmo de uma coluna (pra ser arquivada na tag “nós avisamos”) dissecando a histórica aparição/demonstração de colossal despreparo do Ministro do Esporte no Roda-Viva ontem? Vale nem que seja só pelas (muitas) pérolas, se você ainda não viu.

    AK: Eu infelizmente vi. Está na lista de temas para a próxima coluna. Um abraço.

    • Kleber M

      Tive “vergonha alheia” assistindo aquilo ontem. Essa figura ignóbil não tem qualquer condição de ser ministro, demonstrou ser um verdadeiro fantoche no governo. Assim, mais constrangimento vem por aí, mais roubalheira com nosso suado dinheiro… Muito triste.

  • Nosdelg

    Perdi novamente meu tempo. Que coisa.

    AK: Não se preocupe. Tempo é o que não lhe falta. Obrigado pela visita e um abraço.

    • Alisson Sbrana

      hahahahahahahhah

    • francotimao

      kkkkkkkkkkkkkkkkk!!!!!!!!!!!!!!!!

  • Bom dia A.K!

    Ao finalizar a leitura deste texto quase entrei em depressão.
    É muito difícil aceitar a verdade e você a mostrou de uma forma evidente e até a um certo ponto de forma dramática. E com relação ‘a Copa 2014???

    Aproveitando a menção ‘a ampulheta, sem ser pessimista, imagino todo o cenário exposto por você na parte de baixo da mesma e já sendo engolido pela areia.
    Muito triste.
    Abraços.

  • Diogo

    Isso que aconteceu foi uma vergonha, dissociaram o time do Corinthians da torcida na hora que lhes era conveniente, tudo pra diminuir a pena da Conmebol, agora que já estão com torcida estão fazendo manobras pra libertar os “anjos” presos “injustamente”, tudo isso com a imprensa fazendo vista grossa e corpo mole na divulgação e averiguação dos fatos!
    VERGONHA!

    AK: Vista grossa? Há diversos repórteres brasileiros na Bolívia, desde que a tragédia aconteceu. Provavelmente você não está procurando nos lugares certos. Um abraço.

    • Diogo

      É ter repórter lá não significa nada, as notícias publicadas falam sobre coisas nada a ver como o que eles estão fazendo, se jogam bola ou se tomam banho de sol estão, sobre o caso mesmo nada, as declarações do Gobbi sobre o menino e os presos foi noticiada mas sem nenhum alarde dos “especialistas” comentando o caso, procurei aqui no seu blog e também não vi você falando nada sobre isso! Se fosse o Juvenal ou outro presidente que tivesse dito um absurdo daqueles duvido que não iriam fazer um escarcéu!

      AK: #miau…

  • O Scocco já tinha ido muito bem naquela Superbobagem das Américas, na Bombonera

  • E parabéns pela metáfora da relação promíscua entre Estaduais e Clubes

  • clodoaldo

    infelizmente nosso futebol é uma MENTIRA há muito tempo

  • Juliano

    Perfeita coluna, como as notas.

    Achei esse amistoso o mais non-sense dos ultimos tempos (e olhe que a CBF tem se esforçado para isso, a concorrencia é grande). Não sabia que já estava na agenda e dessa comemoração do título boliviano. Só comprova como tá tudo muito errado, quando misturam a morte do garoto, os corinthianos presos, confusão que só a politicagem brasileira e boliviana conseguem promover. Lamentável.

    Se tem algo positivo é Jádson, que eu tanto critiquei quando MM dirigia a seleção. Muito participativo, está em fase ascendente! Grata presença.

    AK, sobre os comentários infelizes (não porque discordam, mas porque não tem educação) que têm aparecido, teria como sugerir para os responsáveis do LANCENET vincular contas antes do cidadão poder postar o que quer como um anônimo? Outros portais vinculam à uma conta no próprio portal, ou à uma conta do indivíduo em uma rede social. Talvez seja uma forma de inibir a falta de educação anônima… se bem que perderia um pouco da graça nas réplicas… hehe

    Abraço!

  • toninho

    amigo, futebol brasileiro em franca decadência…
    Ninguém mais, deixa de fazer alguma coisa para assistir a jogos de um país, aonde quem convoca são os empresários e os patrocinadores, aliás, até o treinador não é o melhor do país, e sim, alguem em franca decadência tambem, após rebaixar um time no futebol brasileiro (palmeiras), esta parecendo brincadeira o fut. brasileiro.
    fora marins, fora felipão, fora parreira, fora murtosa, gangues, quadrilha na cbf.

  • Marcel de Souza

    “Os Estaduais são a mulher infiel, os clubes são os maridos traídos. Falam, falam, mas voltam para os braços dela após uma conversinha mole. Merecem-se.”

    Sem mais!!!

    Agora sim no off-topic total, se me permite: o “Mais Gelo” morreu????

    Abraço!

  • francotimao

    Andre, tal pai tal filho, certeza herdou do pai este senso critico, sagaz e inteligente de ver o futebol e ainda são corintianos???, nada melhor, parabéns!!!!!!!!!!

  • Castigo excessivo em Dortmund e premio para a soberba em Istambul…
    “O futebol castiga, mas reconhece”
    http://500copa.blogspot.com.es/2013/04/o-futebol-castiga-mas-reconhece.html

  • RENATO77

    Incrível, saber que o jogo estava combinado há tempos….incrível a capacidade do marin se apoderar do alheio…

  • Frann Jr .

    Gostaria de ver um jogo entre uma seleção brasileira , formada por jogadores que atuam aqui , contra os chamados ” brasileiros estrangeiros ” , percebo que os maiores craques estão aqui , exemplos : NEYMAR , RONALDO , PAULINHO , RALF , GANSO , GIL , DEDÉ , FRED , LUÍS FABIANO , JADSON , AROUCA , CASSIO , ROGERIO CENI , entre outros …..

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