COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

TREINO É JOGO

Ver o São Paulo chegar ao fim do jogo contra o Strongest sem implorar por um balão de oxigênio sugere que o time não foi derrotado pela altitude de La Paz. Mas foi.

Manejar os efeitos das alturas em jogadores de futebol não adaptados é uma tarefa que preocupa, acima de tudo, pela questão fisiológica. Estratégias de viagem são feitas levando em consideração o que a ciência aponta como opção “menos pior”: subir a montanha no mesmo dia do jogo, para minimizar os sintomas.

A noite de quinta-feira mostrou que o planejamento do São Paulo foi um sucesso no aspecto do rendimento físico da equipe. O meio-campo Maicon foi o único jogador que não suportou as condições da capital boliviana, solicitando substituição antes do intervalo por fortes dores de cabeça e problemas respiratórios. De modo geral, o time foi competente ao dosar o esforço durante todo o jogo, evitando o colapso sofrido na experiência anterior no estádio Hernando Siles, quando levou quatro gols do Bolívar no segundo tempo.

Mas ser competitivo a 3.660 metros de altitude é apenas parte da equação. A missão do São Paulo não era sobreviver ao jogo. Era vencê-lo. Para isso, a questão técnica é tão – ou mais – importante. A aclimatação às diferentes características do jogo nas nuvens também precisa ser feita. Sem ela, o prejuízo é igualmente devastador.

A ironia é que é muito menos complicado adaptar-se tecnicamente do que fisiologicamente. Não há ciência envolvida na providência de ajustar os reflexos ao comportamento estranho da bola, principal problema no caminho de forasteiros que estacionam o avião (sim, pois lá não é necessário “descer”) em lugares como La Paz em busca de três pontos. Basta treinar.

Só a prática é capaz de fornecer aos goleiros as informações sobre a velocidade e os hábitos da bola, de forma a não ser surpreendido por um chute, ou vários, quando for para valer. O mesmo vale para atacantes calibrarem suas pernas e descobrirem, a tempo de usar o mesmo recurso, que não é por acaso que os times mandantes passam a noite inteira chutando de fora da área.

Ocorre que, para treinar e se acostumar ao fuso da bola, é necessário chegar antes. Claro que não precisa ser duas semanas antes, o que garantiria, também, a imunidade fisiológica. Três dias proporcionam o aprendizado que oferece tranquilidade e oxigena, por assim dizer, a confiança.

Alguém pode argumentar que o São Paulo perdeu muitos gols e poderia ter deixado a Bolívia com seu destino nos próprios pés. Ok. Mas não se pode garantir que os gols não foram perdidos justamente por falta de adaptação às condições técnicas. Afinal, é no instante da conclusão que tudo tem de estar em seu devido lugar.

Há menos de um mês, o Atlético Mineiro esteve no mesmo estádio Hernando Siles para enfrentar o mesmo Strongest. Saiu de campo satisfeito por ter superado não só a altitude de La Paz, como também o adversário, por 2 x 1. O time boliviano chutou dez bolas no gol de Victor, que só cometeu uma falha na partida.

O jogo aconteceu numa quarta-feira. O Atlético chegou a La Paz no sábado. Fez três treinos.

OMISSOS

A Conmebol é tão culpada pelo que aconteceu no estádio Independência, na noite de quarta-feira, quanto os jogadores do Arsenal e a Polícia Militar de Belo Horizonte. A punição contraditória imposta ao São Paulo e ao Tigre, por conta da final da Copa Sul-Americana que não terminou, reforçou a sensação de impunidade que está na origem da “valentia” dos que foram para cima dos policiais. A reação desproporcional, inexplicável, da PM, foi consequência. Ao punir o São Paulo (com um jogo longe do Morumbi e multa) e o Tigre (só com multa), a Conmebol não decidiu quem estava errado e passou uma mensagem confusa. Agora vai querer consertar. Mais triste do que a omissão da CSF, só mesmo a imbecilidade que domina as mentes preconceituosas, que não entendem, não enxergam, não pensam. Só alimentam a violência que pretendem criticar.



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