COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

PRETO E BRANCO

A semana começou com uma frase edificante, proferida pelo cartola mais influente do futebol brasileiro. Procurado pela Folha de S. Paulo para comentar as reclamações feitas por Tite, no sábado passado, sobre o calendário do Campeonato Paulista, Marco Polo Del Nero homenageou a própria arrogância. “Não vou responder a treinador fazendo um comentário desses. Quando o presidente falar, eu respondo”, disse o chefe da Federação Paulista de Futebol.

Soou familiar? Faz todo o sentido. Ricardo Teixeira ficaria orgulhoso do tom esnobe de Del Nero, que o faria se lembrar de um de seus célebres epitáfios como presidente da CBF. “Só vou ficar preocupado (com denúncias de corrupção), meu amor, quando sair no Jornal Nacional”. Momento nobre da infame entrevista concedida à Revista Piauí.

A mórbida semelhança entre os raciocínios não é um acaso. Del Nero é a eminência que Teixeira escolheu para manter as engrenagens da CBF bem lubrificadas. O dirigente paulista é o presidente de fato da confederação. José Maria Marin é sua criação, seu passaporte para a cadeira de Teixeira, hoje ocupada pela data de nascimento de Marin, um político especializado em ocupar cargos por indicação.

Del Nero é o dirigente das trapalhadas, como a tentativa desastrosa de prejudicar o São Paulo – à época, inimigo da FPF – em dezembro de 2008, no caso dos ingressos para um show de Madonna no Morumbi. Depois de intensa movimentação nos bastidores, o Pleno do STJD o livrou do que seria uma condenação histórica na esfera esportiva.

Del Nero também é o dirigente das situações constrangedoras, como a visita que recebeu de agentes da Polícia Federal em sua casa, na madrugada de 26 de novembro do ano passado. Documentos e computadores foram apreendidos para elucidar sua relação com uma quadrilha que roubava e negociava informações sigilosas. O cartola espionava a própria namorada.

Perceba o padrão. Marin é o dirigente da medalha (e dos picolés) embolsada e do gato de luz. E o que é muito mais preocupante: da ligação com o período do autoritarismo e da repressão. A exposição de seu discurso – como deputado estadual pela ARENA, em outubro de 1975 – na Assembleia Legislativa de São Paulo, com implicações na prisão, tortura e assassinato do jornalista Vladimir Herzog, o levou a uma medida extrema. Marin considerou boa ideia transformar o site oficial da CBF em uma espécie de blog pessoal, com o objetivo de negar o inegável.

O texto publicado na última quarta-feira na página da confederação na internet é um retrato de Marin. Antiquado, ultrapassado, digno de desconfiança. A “estratégia” é incompreensível. Aumentou a repercussão de algo que Marin deveria tentar esconder, culminando com a chegada do tema a Brasília.

O deputado federal Romário (PSB-RJ) pretende realizar uma audiência pública denominada “Futebol e Ditadura” no Congresso Nacional, para apurar o envolvimento de Marin com o governo militar e as circunstâncias da morte de Herzog. Bingo.

O jogo está para começar. De preto, o projeto de poder de Del Nero e Marin. De branco, a verdade.

PÉSSIMA IDEIA

Os recentes casos de violência envolvendo “torcedores” organizados estimularam a criatividade das nossas autoridades esportivas. A novidade é a ideia da “torcida organizada oficial”, que seria bancada pelo clube e, portanto, absolutamente pacífica e incentivadora. Dois absurdos reunidos. O primeiro é a tentativa de transferir a responsabilidade de resolver o problema. O segundo é um atentado ao exercício de torcer. É expressão da natureza humana, que não pode ser alugada. Os autores da proposta devem ser apresentados ao futebol.

O DONO

Que semana para Lionel Messi. Na terça-feira, foi decisivo na classificação do Barcelona para as quartas de final da Liga dos Campeões. No dia seguinte, não só escolheu um compatriota como novo líder do mundo católico, como também determinou seu nome, em homenagem ao técnico Francesc Vilanova. Dono do mundo, o rapaz.



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