CAMISA 12



(publicada ontem, no Lance!)

ECLIPSE

O momento mais revelador da aula que o Barcelona ministrou na terça-feira não foi um drible ou um gol. Não foi a comemoração raivosa de Messi, o êxtase de Villa ou a loucura de Alba. Foi o trecho do jogo em que o Milan foi reduzido a um time de meninos.

Começou na saída de bola italiana, após o terceiro gol. Terminou com um passe defeituoso de Ambrosini, logo antes de ser substituído por Robinho. No total, 3 minutos e 36 segundos de uma roda de bobinho em plena Liga dos Campeões. Período em que não houve jogo, porque só um time jogou. Os jogadores do Milan, hipnotizados, teriam fugido do campo se fosse permitido. Ou sentado no chão para chorar.

Nesta pequena janela da partida, o Barcelona teve 79,6% de posse de bola. Trocou 65 passes, dos quais 54 no campo de ataque. Uma ocupação de tal ordem que os jogadores catalães mais recuados fizeram desarmes na intermediária milanista. O contato do Milan com a bola limitou-se a 44 segundos, apenas 11 passes. Verdadeiramente assustador foi o número de passes no campo de ataque: zero. ZERO.

Levar o jogo a ser disputado em apenas metade do gramado é a maior prova de dominação que existe no futebol. É como um eclipse. Há times que constroem uma barreira diante da própria área e especulam. O Barcelona também tem uma barreira. Ela fica na linha do meio de campo e exibe uma placa dizendo que dali a bola não passará. É um conceito defensivo e ofensivo simultaneamente, uma ideia de futebol. Vencendo por 3 x 0, outros times administrariam o resultado. O Barcelona invadiu o oponente.

O lance que livrou o Milan do próprio sofrimento foi um erro de Ambrosini. Um passe que saiu pela lateral. O árbitro aproveitou para autorizar a substituição, instante em que os italianos puderam finalmente respirar. O quarto gol estava à espreita, em contra-ataque nascido num desarme de Messi no campo de defesa. Gol de Alba, lateral. Onze defensores, onze atacantes.

Esqueça os gols. Eles acontecem em quase todos os bons jogos. A lição é o eclipse.

MANUAL

O terceiro gol foi simbólico. Uma amostra de tudo o que o Barcelona faz. Iniesta errou um passe dentro da área e correu para tentar recuperar a bola. Pressionada, a defesa do Milan apressou a saída pelo meio. Mascherano fez um desarme crítico, Iniesta parou a bola de primeira para Xavi, que, magistral, achou Villa em posição de marcar. Nada seria possível sem o ato anterior, e tudo começou com a volúpia para manter a posse.

PESSOAL

Foram necessárias três derrotas, muitas dúvidas e um enorme risco de eliminação precoce para produzir uma atuação como a goleada sobre o Milan. O que sugere que este Barcelona já não consegue se manter em “alta temperatura” o tempo todo, uma das marcas do período de Pep Guardiola. Se for irreversível, por força da natureza humana, só uma reciclagem seria capaz de recuperar o apetite coletivo. Gente nova, antigas ideias.



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