COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

ARQUITETOS

O Real Madrid estava em campo havia quase uma hora, sentindo-se como alguém trancado num cofre hermético. Perdia o jogo no placar e na dinâmica, via os minutos passando, estava a caminho da asfixia na Liga dos Campeões. A sobrevivência dependia de abrir as travas da porta, tarefa aparentemente impossível para quem não conhece as combinações. O primeiro socorro veio da arbitragem: Nani expulso, aos 11 minutos do segundo tempo. Intervenção que desarticulou o Manchester United , um sopro de ar para dentro do cofre.

José Mourinho ativou Luka Modric, seu jogador de 35 milhões de euros, para salvar a temporada. O United se viu forçado a proteger a entrada de sua área com mais jogadores. A missão do meia croata era encontrar espaço onde não havia. Modric oferece algo que o Real Madrid não utiliza: o toque curto, incisivo, na região mais densa de um campo de futebol. À frente da área adversária, tal qual um guarda de trânsito coordenando um cruzamento, ele começou a mover a parede inglesa de um lado para o outro. Frestas se abriram como trancas destravadas, Modric acertou um chute e um passe, o Madrid fez dois gols.

A Juventus não teve problemas para subjugar o Celtic. Vencia por 4 x 0 no resultado agregado, controlando o segundo tempo em seu estádio, à espera de um desfecho que não surpreenderia ninguém. Os escoceses, abatidos no jogo e no ânimo, procuravam um gol, um ponto, qualquer coisa que soasse positiva em sua despedida da Liga dos Campeões. Esqueceram que o perigo estava diante deles, sem a vigilância devida.

Andrea Pirlo não é capaz de causar dano de várias maneiras. Ele não se infiltrará pela defesa adversária colecionando dribles. Ninguém o verá disparando pela lateral do campo num contra-ataque. Times que o enfrentam não precisam se preocupar em evitar que Pirlo os machuque com velocidade ou força. Mas não podem presenteá-lo com o que há de mais valioso na carreira de um jogador de 33 anos: tempo. Pois foi exatamente o que a defesa do Celtic fez. Da intermediária, Pirlo calculou distância, velocidade do vento, movimentação do alvo e posição do marcador. E acomodou a bola no peito de Vidal. Gol de Quagliarella.

O Atlético Mineiro já tinha conseguido o mais difícil. Quebrou a resistência do Strongest com um gol de Jô no começo do segundo tempo. Até então, com organização e competência raramente vistas nos times do país, os bolivianos conquistavam um merecido zero a zero. Mas falhavam num aspecto perigoso: Ronaldinho Gaúcho navegava entre as linhas como se fosse um jogador inofensivo. A jogada do gol foi construída por ele, pelo lado esquerdo do ataque, contra a marcação de apenas um amedrontado lateral. Ronaldinho estava numa dessas noites de máquina do tempo que valem o ingresso no Independência.

Quando o Atlético precisava dobrar sua vantagem para não comprometer a terceira vitória na Copa Libertadores, ele apareceu de novo. Dois bolivianos o marcavam desta vez. Moveu-se para a esquerda, mudou de rota com um drible, percebeu Marcos Rocha avançando em direção à área. Passe sem olhar, milimétrico. Pênalti, 2 x 0.

Modric, Pirlo, Ronaldinho. Arquitetos do futebol. A semana valeu por eles.

OCUPADOS

É fascinante que sujeitos que gozam de tempo livre para ir a outro país, no meio da semana, para ver um jogo de futebol, arrumem coragem para chamar alguém de vagabundo. A agressão – mais uma – a jogadores do Palmeiras pelos mesmos acéfalos de sempre, é, também, uma vergonhosa ironia.

VIAJANTES

As fotos do Maracanã em obras, alagado pela tempestade que caiu no Rio de Janeiro na última terça-feira, fizeram o lendário estádio lembrar o Coliseu romano. O concreto sem cadeiras, a cobertura inacabada, as estruturas expostas. O Coliseu encanta pela viagem no tempo. O Maracanã deprime pela viagem sem fim.

PIADISTAS

A antiga diretoria do Flamengo deveria ser esquecida, se isso fosse possível. As barbaridades cometidas pela trupe da ex-vereadora assustaram até quem está acostumado aos padrões da cartolagem nacional. Nada pode ser pior do que levar Dado Dolabella para fazer uma preleção.



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