COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

EXAME DE DNA

A notícia não é o Barcelona ter perdido três dos últimos quatro jogos. Também não é o Barcelona ter perdido dois clássicos seguidos para o Real Madrid. E também não é o Barcelona estar a uma vitória simples da eliminação na Liga dos Campeões. A notícia é o Barcelona ter sido futebolisticamente superado três vezes nos últimos dias.

Todos os times de futebol perdem jogos. Até as equipes hegemônicas são derrotadas durante seu período de dominação. A questão é como perdem. Nos anos recentes, o Barcelona nos acostumou a um tipo de derrota que aconteceu de vez em quando e não significou, necessariamente, uma preocupação. Jogos em que os catalães foram absolutos em campo, falharam no ataque por excesso de capricho, e sofreram um gol casual.

Não foi assim contra o Milan, em 20 de fevereiro, pelo torneio continental. Os italianos armaram uma muralha à frente da área, correram como condenados e não foram ameaçados. Nos dois clássicos espanhóis da semana passada, o Madrid controlou as ações como se soubesse exatamente o que fazer para prevalecer no final. E como se tal tarefa fosse simples.

O último encontro foi vencido por uma escalação alternativa do Real Madrid, para regozijo do técnico José Mourinho. Depois de conseguir apenas duas vitórias – e seis derrotas – nos primeiros onze clássicos, Mourinho levou seu time a três vitórias e dois empates nos últimos cinco. Para o português, sonhar com o Barcelona deixou de ser um pesadelo.

Decretar o fim de uma era pode ser uma arriscada precipitação. Sem ignorar os méritos dos adversários, os infortúnios do Barcelona podem ser explicados por erros próprios. Desacertos táticos, descompromisso, e o pior: um jeito novo de jogar, cujas falhas não foram expostas pelo baixo nível de competição do Campeonato Espanhol.

A eliminação para o Chelsea na última edição da Liga dos Campeões (em dois jogos que exemplificam o “tipo de derrota” mencionado acima), somada à troca de comando no time, produziu uma busca pela verticalização como forma de tornar o Barcelona menos previsível. Ocorre que o time não tem os jogadores adequados para atuar assim, e nem alcançou os automatismos necessários. Ao tentar se diferenciar, o Barcelona se aproximou dos demais.

A posse de bola horizontal era um mecanismo para gerar caos no oponente, aplicando o chamado “jogo de posição”: superioridade numérica atrás das linhas de pressão. Impondo-se em bloco, o time não só criava como também desarmava no campo de ataque. Hoje, com jogadores mais distantes e posses menos duradouras, o Barcelona perdeu a virtude de se defender atacando. Além de se converter em uma equipe menos perigosa, descobriu que não sabe se proteger da maneira convencional.

A mudança mais radical é também a mais grave. Ao invés de jogar para Xavi, o Barcelona passou a jogar para Messi. Xavi é o organizador que acionava Messi precisamente no momento em que o argentino aparecia para decidir. Apressado, o time tem procurado Messi para iniciar movimentos ofensivos, atendendo a um antigo pedido dos adversários mais fortes.

A solução está no espelho. É ele que nos relembra de quem somos. A diferença do Barcelona era fazer as coisas a seu modo.

DOIS TOQUES

O QUE HÁ

O comportamento de Messi pode indicar algo mais sério. O melhor jogador do mundo não foi um fator contra o Milan (nenhuma finalização no jogo) e nem contra o Real Madrid, na partida no Camp Nou na última terça-feira. No sábado, no Santiago Bernabéu, só se fez ver no lance do gol que marcou. O mais estranho foi percebê-lo estático, mesmo quando a defesa do Madrid lhe ofereceu campo. Messi tem se movimentado como um jogador lesionado. Ou incomodado, o que é pior.

O QUE HAVIA

Não se deve desconsiderar a questão do comando. O técnico Tito Vilanova está nos Estados Unidos, em tratamento de câncer. Jornais espanhóis mencionam jogadores relaxados, satisfeitos após tanto sucesso nas temporadas recentes. Pep Guardiola era quem mantinha o time com fome, por intermédio de exemplos e da aplicação de regras rígidas. O momento atual é um testemunho da capacidade do antigo treinador.



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