COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

REI ARTHUR

Saindo da redação da Espn na última terça-feira, vi uma dessas pessoas que nos fazem mudar de caminho. Zico aguardava, numa sala, o horário da gravação de um programa em sua homenagem. Você sabe, ele comemora 60 anos amanhã.

Entrei na sala para apertar-lhe a mão, desejar feliz aniversário. Conversamos um pouco e fui embora. Já estive com Zico em algumas ocasiões, não muitas, e a sensação com a qual tive de lidar em todos os encontros foi a mesma: saudade.

Há vários tipos de saudade. O óbvio, de algo que passou e nos faz falta. O intrigante, do que ainda não vivemos, que nos atinge quando as coisas parecem conspirar para algo bom. E o que traz certo arrependimento, junto com a lembrança de uma época que deveríamos ter aproveitado melhor. É isso. Ver Zico me condena à saudade do que não vi.

Faço parte, por sorte e privilégio, de uma geração cuja formação futebolística se deu no início dos anos 1980. Se este instante da História tivesse apenas um intérprete, seria a Seleção Brasileira que jogou a Copa da Espanha, em 1982. O meio de campo tinha Falcão, Sócrates e Zico.

Praticavam um futebol litúrgico, como se a eles não bastasse fazê-lo bem. Todos ao redor, do adversário ao público, deveriam aprender como se fazia. Havia uma pitada de arrogância naquelas lições, ainda que eles se conduzissem em campo de forma absolutamente respeitosa. Pareciam dizer aos oponentes: “vocês serão superados hoje, tentem absorver algo”.

Era um jeito brasileiro de jogar, com técnica e virtude, que se conectava com as pessoas porque as inspirava. Era algo nosso. Uma marca de futebol, uma grife. Uma forma de vencer por imposição de qualidade superior, sem subterfúgios. Bola, muita bola, nada mais.

Zico era o jogador infernal que todo time histórico precisa ter. Vestia a dez, jogava como um dez, fazia o que se esperava de um dez. Lembro de um jogo no Paraguai, pelas Eliminatórias para a Copa de 86. Casagrande fez 1 x 0 de cabeça, cruzamento de Renato Gaúcho, no primeiro tempo. Os paraguaios tentaram equilibrar as forças na base da intimidação, mas ninguém abaixou a cabeça. Zico encarou um adversário num empurra-empurra, e depois decidiu o jogo. O gramado do Defensores del Chaco estava horroroso, a bola pulava em vez de rolar. O passe de Leandro veio quicando, Zico ajeitou com o lado externo do pé direito e, dentro da meia lua, chutou forte no canto.

Processar essas lembranças implica em lamentar não ter visto Zico todas as quartas e domingos. Por não ter ouvido o Maracanã rir a cada passe, gargalhar a cada gol. Por ele ter nascido em 1953, e eu, vinte anos depois. O que eu vi, apesar de ter sido poderoso a ponto de me fazer recordar onde estava e o que senti, foi pouco. Boa inveja do rubro-negro que sabia onde encontrá-lo e fez desses momentos um hábito. O consolo é que a saudade dele certamente é maior do que a minha.

Sessenta anos de idade. Não houve outro Zico e não haverá. O Zico que anda por aí, simpático e acessível, é uma recordação ambulante de como éramos bons. Muito bons.

Parabéns, Zico. Saudades.



  • RENATO77

    Durante algum tempo resisti ao talento do Zico…alí, na metade da decada de 70 e a decada de 80…havia muita rivalidade entre RJ e SP. Aqui se dizia que ele era jogador “de Maracanã”…ou “um produto da globo”.
    A seleção de 82 ajudou a quebrar esse preconceito.
    Hoje, tenho Zico como ídolo, ainda o acho o melhor da era “pós-Pelé”.
    Tempos mágicos…
    “Havia uma pitada de arrogância naquelas lições…” muito bem definido, era essa minha sensação também.
    Abraço.

  • Marco

    Poxa, AK, nenhuma palavra sobre as vitórias seguidas do Real Madrid sobre o Barcelona? abs

    AK: Coluna de amanhã, no Lance!. Um abraço.

  • israel

    Valeu Andre, lindo texto. É isso aí mesmo. Zico é isso e muito mais.

    • Claudio

      Mas faltaram os títulos com a seleção!

      • Claudio, Imagina se tivesse conquistado a copa de 82!!! Mas infelismente ele nao podia substituir o Waldir Peres e o Toninho Cereso, que falharam feio contra a Italia.
        Mas nada Tira o valor do Zico, craque em campo e mt mais craque ainda fora dela.
        Alem do mais o que nao falta e craques sem copas…………….

        • Carlos Antônio Barbosa Caminha

          Razão tem o mestre Fernando Calazans quando disse: “Se o Zico não ganhou a copa do mundo, azar da copa do mundo”

  • Thiago

    Lindo texto, eu também não o vi jogar, mas estranhamente sinto uma saudade inexplicável !

    AK: Eu vi. Apenas queria ter visto mais. Um abraço.

    • sonia

      Eu o vi jogando, era mágico, que tempo bom!

  • Emerson

    Salve, Zico!

  • Willian Ifanger

    Emocionante, André.

    Faço parte dessa geração que você citou. Até vivemos de chacotas por conta da seleção de 82, que está no topo do meu Olímpo de times de Futebol. 82 não merecia aquela Seleção como campeã….merecia ter uns 5 meses de Copa pra ver mais jogos dela.

    Zico simboliza pra mim a camisa 10 no Futebol. Depois dele dá pra contar nos dedos os camisas 10 que tivemos por aí. Na Seleção Brasileira então, acho que nenhum.

    Saudades também.

    Você não acha que o Jadson tem um pouquinho de Zico no futebol dele?

    • Paulo Pinheiro

      Ao contrário da maioria, não considero uma “heresia” isso que você falou do Jadson. Sou fã desse jogador. Assim como o Zico ele tem visão de jogo, rapidez de raciocínio, precisão no passe, voluntariedade.
      Mas eu diria que o Zico é o mestre e o Jadson é um aplicado aluno.

      O Jadson me lembra mais outro craque daquela época: o Pita.

      • Eduardo Silva

        Na verdade, eu acho que outro jogador, que também já atuou no São Paulo (na verdade, cria do SPFC), me lembra mais o Zico que o Jadson: o Oscar, hoje no Chelsea. Técnico, inteligente, habilidoso, sabe armar jogadas, vem bem de trás e sabe finalizar. Tudo que o Galinho tinha de melhor.

        Com relação à Copa do Mundo, é aquela velha história: azar dela. Não só o Zico, de craque, que não a conquistou. Podemos contabilizar nesta triste constatação também, os nomes de Platini, Cruijff, Puskas, Sócrates, Falcão, entre outros monstros sagrados.

  • jam

    “Era um jeito brasileiro de jogar, com técnica e virtude, que se conectava com as pessoas porque as inspirava. Era algo nosso.”

    1 Waldir Peres (SPO), 2 Leandro (FLA), 3 Oscar (SPO), 4 Luizinho (AMG), 5 Toninho Cerezo (AMG) 6 Júnior (FLA), 15 Falcão (Roma), 8 Sócrates (COR), 9 Serginho (SPO), 10 Zico (FLA), 11 Éder (AMG).

    Era algo nosso mesmo, literalmente. Com exceção de Falcão, mas fortemente identificado com o Inter. Depois disso, o futebol se globalizou e nunca mais houve outra seleção para chamar de “algo nosso”.

  • Bento Kar

    Vi Romario e R9, vejo Messi e C.Ronaldo, e vejo toda essa idolatria e penso, realmente so tem fera mas se esse povo mais novo tivesse visto Zico jogar nao seriam tao exagerados nesses elogios faceis dos tempos atuais, Zico foi completo, uma mistura de todos esses acima, imbativel, acima so Pele, so quem viu jogar sabe do q estou falando !

    • Paulo Pinheiro

      Fechei com você. Também acho que quem viu Zico (e Platini e Sócrates e Falcão e…) jogar não se rende fácil aos destaques atuais.
      O último gênio foi Zico. O último craque foi Romário. De lá pra cá? Bons e excelentes jogadores.

      • Leandro Azevedo

        Zidane, na minha opiniao, entra nessa lista como um craque/genio de tempos recentes.

      • gustavo monteiro

        Pós Pelé é indiscutivel q ZICO foi o maior 10. ZICO fazia muito mais q Rivaldo e R10 fizeram. E como Genio que foi esta acima dos craques Roamrio e Ronaldo.
        aiiii mas não ganhou a COPA e dai ? Messi tb não ganhou e o CR7 nunca vai ganhar.

        Zico esta no salão nobre do futebol.

    • Celo

      O Sócrates também foi extraordinário …. hoje em dia nem sombras deles

  • Marcel de Souza

    Me sinto assim também, acho que é o “mal” da nossa faixa etária.

    Considero o Zico um cracaço, por muito tempo achei que foi o melhor que já vi jogar. A trajetória extra campo também ajuda para eu ter esse sentimento positivo em relação a ele.

  • JOSE LEONARDO

    Sinto imensa saudade do pouco que vi dessa época. Só me lembro da alegria geral que tomava conta de minha casa nas comemorações das vitórias e dos Títulos do Fla, e era tudo festa até que aos poucos fui começando a entender o futebol e vi ainda um pouco da era de ouro.
    Sou de 77.

  • Paulo RCA Junior

    Gênio! Eu vi Zico jogar! Um privilégio!

  • Que beleza seu André Kfouri!
    Meus parabéns mais uma vez!

  • Anna

    Que lindo, André!Zico é meu maior ídolo do futebol. Por causa da Seleção de 82, que me encantou e me fez chorar. Pela pessoa especial e por todas as recordações que me vêm à mente, principalmente as com meu pai. Saudade de Zico, jogador. Porque o homem, o técnico, está pertinho de nós, sempre!

  • Rodrigo-CPQ

    “O tempo passou (claro que passaria), como passam as vontades que voltam no outro dia”.

    E ainda tem gente que fala borracha sobre a copa de 82. Sinceramente, prefiro a copa de 82, que guardo pequenos flashes na memória que as copas de 94 e 02. Aliás, prefiro até a de 86, que ainda tinha um pouco da magia daquela seleção.

  • Claudio

    O tempo passou e o Zico continua sendo um jogador supervalorizado pela imprensa brasileira. Títulos com a amrelinha que é bom nada!

    Abs!

    AK: Triste que você pense em futebol como se fosse tênis. Um abraço.

    • Vaz

      O que tênis tem há ver com isso? Por que da relação? Algum preconceito? Lamentável.

      AK: “Preconceito”?! Que tipo de raciocínio foi capaz de levá-lo a essa pergunta? Você não consegue enxergar a diferença óbvia entre futebol e tênis? Um abraço.

      • Vaz

        Meu desculpe mas em primeiro lugar não me dirigi a você com desrespeito mas questionei o porque da comparação com o tênis já que no meio do futebol o esporte assim como o voley sempre tem um “Q” de depreciativo. Em segundo lugar, em nenhum momento insinuei qualquer coisa sobre sobre o seu racíocinio e de que forma ele se deu como você está fazendo com o meu. Posso te afirmar que o tipo de racíocinio que tenho não difere do seu. Não entendi apenas qual a relação com o tênis que como você mesmo afirma não tem nehuma e menos ainda com Zico e a falta de títulos com a amerelinha (aliás acho injusta a tentativa de alguns de desqualificar o talento que foi Zico com este argumento que de quebra seria válido também para outros talentos como Sócrates, Falcão, Cerezzo entre outros) de resto achei excelente o seu texto.
        Um abraço

        AK: Na minha resposta não há insinuação ou desrespeito. Há, sim, uma pergunta sobre a diferença evidente entre futebol e tênis. Um abraço.

        • Celo

          Deixe eu responder … pq senão ele vai ficar questionando sem parar ….. o seu pensamento é indivilualista meu camarada …. Teve um outro gênio do futebol chamado Sócrates que disse ” ganhar é só um detalhe “

          • Matheus

            Essa frase do Sócrates é emblemática. Tal qual o futebol que ele, Zico e Falcão praticavam e inspiraram gerações para o bem ou para o mal(como eles não ganharam inspirou muita gente para o mal, ou seja, vieram as retrancas e os volantes marcadores), suas frases também geraram variações acidentais, algumas para o bem outras para o mal:
            Parreira: “o gol é só um detalhe”
            Felipão: ” O importante é vencer, jogar bonito é só um detalhe”.
            Maioria dos técnicos quando perdem: “Perdemos no detalhe”
            desculpa de jogadores quando perdem: “pecamos no último passe, faltou capricho nesse detalhe”.
            Enfim, bons tempos deviam ser esses. Eu não vi, infelizmente. Por isso agradeço a Deus pelo surgimento do Messi, do Zidane, do Romário e de mais alguns poucos.

  • Roberto

    Eu sou são paulino. Morei em São Paulo 90 por cento da minha vida.
    Meu ídolo é o Zico, fui no Maracanã vê-lo jogar nos anos 80, vi um jogo do Brasil no Morumbi nos anos 80, por causa dele.
    Me lembro de ir ver São Paulo x flamengo no Brasileiro de 1989. O São Paulo venceu por 3×0, mas o nosso lateral direito, Zé teodoro deu uma entrada criminosa no zico com 05 minutos de jogo e ele foi substituído e a torcida são paulina vaiou o Zé Teodoro o jogo inteiro…
    A gente queria ver o Zico, o tricolor a gente já via normalmente, a gente queria ganhar deles com zico e tudo…

    Em 1994 eu tive uma oportunidade única de conhecer o Zico. Ele veio a São Paulo gravar um programa e um amigo meu fazia a iluminação do programa. O amigo foi me buscar em casa e eu não estava… Até hoje eu fico bravo quando lembro…

    Essa molecada de hoje que acha que futebol começou em 2002 não tem noção do que seja um cara como o Zico…
    Quero ver um desses jogadores de hoje serem lembrados 25 anos depois de pararem e ter festa de 60 anos…

  • Rita

    De 82 não lembrava (até ver os tapes) de nada, só da tristeza de todos lá em casa. De Zico, infelizmente só lembrava do pênalti que ele perdeu contra a França. E infelizmente de novo, eu mal lembrava do que ele converteu naquele mesmo jogo. Meu pai detestava o Flamengo e implicava com o 10 da Gávea, cresci com meu pai o chamando de pé-frio juntamente com Telê. Pelo Telê pude torcer e vê-lo campeão. Por Zico não tive oportunidade, e bota infelizmente nisso, mas o admiro e sei do seu valor para o futebol brasileiro. Parabéns Zico!

  • tbm sou fã do Zico….sou flamenguista por causa dele…achei lindo o comentario da Rita….talvez por achar estranho que o publico feminino curta essa nossa paixao….lindo vc dizer que curte o Zico…mesmo com a familia sendo contra….aqui vai um Máxima….ZICO NAO É REVERENCIADO APENAS PELOS FLAMENGUISTAS….nao consigo lembrar de outro jogador que seja reverenciado por todas as torcidas…parabens ZICO.

    • Jairo

      Concordo com vc.
      Outro assim, jogando pelo Flamengo, será difícil.Infelizmente.

  • Massara

    Já estou me acostumando a ler duas colunas esportivas na segunda-feira: a do Tostão e a sua. Texto muito bem escrito. Abs.

  • JCNS

    Zico… Putz… Quantas lembranças… Anos 70/80… Criança/adolescente… Meu pai me levava ao Maraca… Não perdíamos um Fla/Flu… No início ia para comer “cachorro quente” e tomar guaraná caçulinha… rsss Naquela época éramos chamados de “geraldinos” (como éramos crianças, sem grana, íamos aos jogos de ‘Geral’ mesmo). Chorei muito lendo o que todos escreveram!!! E concordo com o que já foi dito antes de mim: foi o último ‘Camisa 10’ a jogar no futebol brasileiro. Aliás, sou tentado a acreditar que os que o sucederam – temerosos pela responsabilidade da ‘camisa’ – passaram a valorizar “outros números” para tentar criar um novo paradigma. Mas… Putz… Quem viveu aquela época, sabe disso: craque vestia a ‘Camisa 10’!!! Bons tempos…

    Para os incautos de plantão:
    “Não são poucos também os que o consideram como o melhor jogador de futebol dos anos 1980, sendo chamado frequentemente no exterior de “Pelé Branco”. É o maior artilheiro da história do estádio do Maracanã, com 333 gols em 435 partidas. Marcou 135 gols em campeonatos brasileiros. Foi eleito como o terceiro maior futebolista brasileiro do século XX, o sétimo maior da América do Sul e o décimo quarto entre todos do Mundo, segundo a Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS). É um dos quatro brasileiros a figurar no Hall da fama da FIFA (os outros são Pelé, Garrincha e Didi). Foi eleito pela própria Federação Internacional de Futebol (FIFA), o oitavo maior jogador do século, o nono maior jogador do século XX pela revista France Football, o nono Brasileiro do Século no esporte, segundo pesquisa realizada pela revista IstoÉ, e o décimo maior jogador de todos os tempos pela revista inglesa World Soccer.” Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Zico

    • Matheus

      Dele lembro pouco ou nada, lembro mais do fim de carreira, dos jogos pela antiga Seleção de Masters que ainda encantava com Zico, Zenon, Rivelino, Cafuringa(eu ria muito com ele) e outros craques. Mas eu lembro bem daquele jogo entre Flamengo e a Seleção do mundo em 90.

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