COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

JORDAN, 50

Era um “fim de semana das estrelas da NBA”, como o que terminou ontem. Um domingo, dez anos atrás, em Atlanta. Os vestiários foram abertos para a entrada dos jornalistas, uma hora antes do jogo. A procura pela porta decorada com os dizeres “Estrelas da Conferência Leste” foi muito maior.

Repórteres e cinegrafistas buscaram espaço numa sala com chão acarpetado, em que cubículos acomodavam os pertences e roupas de cada jogador. Acima dos cabides, pequenas placas identificavam os donos. A área diante de um deles era o metro quadrado mais disputado do local, ainda que a esperança de ver o atleta que deveria passar por ali fosse inversamente proporcional ao desejo. Falar com ele, então, seria um incrível golpe de sorte.

“Ele não aparecerá”, disse um jornalista americano, apontando para uma sala adjacente, onde jogadores recebem massagens e outros atendimentos. “Ficará ali até irmos embora, para que os outros sejam entrevistados. Se ele vier, será como se ninguém mais estivesse aqui”, explicou.

Fazia todo o sentido. Mesmo assim, enquanto astros como Allen Iverson e Paul Pierce ouviam música ou vestiam o uniforme, eram apenas observados como se precisassem de crachá. Pensei algo do tipo “se ele vier, estarei aqui”, e lamentei a possibilidade de o colega americano ter razão. Nossa posição, perto e de frente, era ideal para uma entrevista. Checamos o microfone, ligado e funcionando. Eu estava de costas para a cadeira à frente do cubículo, quando percebi todas as luzes se acendendo, todos os cinegrafistas gravando. Virei-me.

Michael Jordan estava ali. Já de uniforme, sorrindo, esperando. Alguém lhe fez a primeira pergunta. Não me lembro do assunto, apenas de agradecê-lo mentalmente por ter dado início aos trabalhos. Enquanto Jordan falava, tentei abortar a sensação de surpresa e avaliar a situação que se apresentava. O melhor jogador de basquete da História, disponível e totalmente ao alcance. Seria uma vergonha indesculpável não fazer ao menos uma pergunta, apesar da selvagem concorrência. Fiz duas na sequência, sobre o último jogo das estrelas da maior delas, generosamente respondidas. E uma terceira ao final da sessão, sobre a chegada do brasileiro Nenê à NBA. O próprio Jordan encerrou a conversa.

Naquele domingo em 2003, Michael Jordan chorou ao se dirigir ao público no intervalo. Acertou um arremesso, faltando cinco segundos, que deu vantagem de dois pontos ao time do Leste e seria o encerramento de cinema para seu último fim de semana das estrelas. O Oeste terminou vencendo após duas prorrogações.

É curioso o que acontece quando nos deparamos com ícones. Há quem diga que eles têm um brilho único no olhar, uma auréola invisível, porém presente. Seja o que for, somos nós os responsáveis pelo fascínio que eles geram, porque essa é a forma como os enxergamos. Ao final do encontro, o que fica é a humanidade de quem, à distância, não parece deste mundo.

Aos 50 anos, Michael Jordan diz que faria qualquer coisa para poder jogar basquete de novo. Super-heróis não sentem saudades.

DOIS TOQUES

MIL PALAVRAS

Em inglês, goleiro é “goalkeeper”. É o sujeito que cuida do gol, em tradução literal. Para aqueles que se importam com a função, cada bola que ultrapassa a linha é como um pedaço do corpo arrancado. Quando acontece por culpa própria, como se deu com Rogério Ceni no sábado, a dor é ainda mais profunda. A reação de encostar na trave e olhar para o céu revela tudo o que ele pensou e sentiu. Nada mais precisa ser dito, ou perguntado.

DEFUNTOS

Interessante a noção de que os clássicos ainda conferem alguma importância aos campeonatos estaduais, esses torneios terminais que interessam a poucos. A rivalidade que os mantém acesos – os clássicos, não os campeonatos – sobreviveria perfeitamente sem a realização de competições defuntas. É só comparar o Corinthians x Palmeiras (bom jogo, sem dúvida) de ontem com o que pode acontecer pela Copa Libertadores.



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