COLUNA DOMINICAL



(Publicada ontem, no Lance!)

HERÓIS IMAGINÁRIOS

Foi um momento sublime, cortesia de um personagem inesperado. Um desses gestos que se convertem em modelo. O padrão de comportamento que se deseja e com o qual todas as atitudes são comparadas. Aconteceu em 2000, na Inglaterra.

Everton e West Ham disputavam os últimos minutos de um jogo empatado, quando o goleiro do time da casa torceu o joelho numa dividida, fora da área. O lance seguiu, a bola foi cruzada da direita e, com o gol desprotegido, um jogador do West Ham se viu em condições de dominá-la. Mas em vez de aproveitar uma oportunidade que poderia significar o gol da vitória, ele preferiu agarrar a bola com as mãos, para que o goleiro adversário fosse atendido. Meses depois, a Fifa o premiou como epítome do fair-play. Seu nome é Paolo Di Canio.

Procure no You Tube, o clipe tem apenas 30 segundos. Mas proporcionará uma sensação de bem estar muito mais longa. A recusa a levar vantagem da lesão de um oponente representa tudo o que há de bom no futebol. É uma demonstração de valores há muito abandonados no esporte. O misterioso conceito do “espírito esportivo” está ali, em carne e osso, no ato do ex-jogador italiano que rejeitou a vitória sem caráter.

É provável que alguém tenha se lembrado de Di Canio na noite da última quarta-feira, momentos depois do primeiro gol do Atlético Mineiro, contra o São Paulo. Houve quem identificasse no comportamento de Ronaldinho Gaúcho o oposto do que Di Canio representa. Quem relacionasse o pedido de uma garrafa de água a Rogério Ceni – para depois se valer da posição adiantada e receber a bola da cobrança de lateral – à estratégia de vigaristas de rua. Quem usasse um instante num jogo de futebol para caracterizar uma pessoa. Comparações equivocadas.

Suponha que Ronaldinho tenha premeditado tudo. Que o papo com o capitão são-paulino tenha sido um meio de ludibriá-lo. Que o plano fosse retribuir a gentileza de um adversário com um gol. Mesmo assim, onde está a má conduta? Sim, nem tudo o que é legal é moral, mas o que há de condenável em querer enganar um adversário? Qual é a diferença entre o que Ronaldinho fez e, por exemplo, apenas encostar na bola em cobranças de falta em dois toques? Nada disso se aplica à abominável busca da vitória a qualquer custo.

Fair-play está diretamente ligado a igualdade de condições, justiça, merecimento. Parâmetros que o lance do gol do Atlético não desrespeitou. Se cabe crítica no episódio, é à inocência da defesa do São Paulo, cuja vivência deveria evitar tal constrangimento.

Exigir de atletas mais do que a excelência profissional que eles podem oferecer é um caminho perigoso. Leva a decepções mal compreendidas, satisfações precipitadas. E ao engano de supor que esportistas de primeira grandeza precisam ser seres humanos igualmente elogiáveis.

O caso de Di Canio é exemplar sob esse aspecto. O retrato do fair-play é o mesmo jogador que arremessou um árbitro ao chão, quando atuava pelo Sheffield Wednesday. É a mesma pessoa que se proclama um fascista e admira Benito Mussolini.

MANGUE

É inadmissível que um torneio como a Copa Libertadores da América seja disputado em gramados como o que o Fluminense conheceu, em Caracas. Atrocidades dessa natureza têm se tornado comuns, pois não se faz nada prático para evitá-las. Parece até que a Conmebol gosta do caráter subdesenvolvido de sua principal competição e do mito “Libertadores é assim”. Os clubes, como sempre, não se posicionam.

PRESSA

Por falar em gramados, mas não apenas neles, é cada vez mais evidente que o novo estádio do Grêmio ainda não deveria ter sido inaugurado. O preço da pressa é pago em problemas que se avolumam. E não poderia haver recibo mais escancarado do que retornar ao Olímpico. Uma derrota em casa na Libertadores é capaz de produzir ideias como essa. Mesmo que seja apenas para desviar a atenção, é algo que não se deveria considerar.



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