COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

O CORAÇÃO NÃO PENSA

Se Paulo Nobre trabalhasse nos Estados Unidos, comandando uma franquia de qualquer das quatro principais ligas esportivas do país, a repercussão sobre sua última decisão seria amplamente positiva.

Imagine o dirigente palmeirense (como observou o colega Paulo Cobos, em conversa na redação do site da ESPN) no papel de gerente geral de um time da NBA, por exemplo. Imagine que este time está em um ano de reconstrução do elenco e recuperação de sua estrutura financeira. Além dos objetivos esportivos que se apresentam, a necessidade mais urgente é reconfigurar o orçamento e executar um projeto que permita ao clube ser competitivo por um longo período.

Há um jogador neste time que é diferente dos outros. Vamos chamá-lo, por diversão, de Herny Boats. O torcedor o admira por sua qualidade e sua dedicação. Talvez seja um exagero qualificá-lo como ídolo, pelo pouco tempo de casa. Mas ele é certamente o principal condutor da relação entre torcida e time nesta época difícil. Uma razão para ir ao estádio, para ter esperança.

Por todas essas razões, Boats é muito bem pago. Tem um dos maiores salários do time. Mas apesar de seu comportamento impecável em campo, ele já revelou publicamente seu desconforto por jogar num time que não brigará pelos títulos mais importantes da temporada. Há também uma dívida parcelada, do pagamento de sua contratação, que o clube ainda não honrou.

Eis que um dia chega uma proposta de outro time por Herny Boats. Não é apenas uma oferta em dinheiro por ele. Os interessados estão dispostos a pagar uma boa soma, assumir a dívida com o ex-clube do jogador, e ainda mandar cinco atletas em troca. Nenhum é bom como Boats, mas todos têm razoáveis possibilidades de ajudar, agora e no futuro.

Fechar a negociação significaria 1) mover um contrato pesado, 2) livrar-se de uma pendência financeira, e 3) alimentar o elenco com cinco jogadores em diferentes posições. Tudo numa canetada só. O preço? Perder um jogador valioso, cortar – temporariamente – a conexão com a torcida, assumir o ônus por uma decisão questionável do ponto de vista emocional.

Lembre-se, estamos falando da NBA. Um ambiente em que dirigentes são administradores, franquias têm gestão profissional e decisões baseiam-se nos seus melhores interesses a médio e longo prazo. Sim, há sacrifícios financeiros e certas irresponsabilidades cometidas em nome de uma chance de vencer imediatamente, mas (quase) sempre dentro de um contexto estratégico que faz sentido. Na NBA, Herny Boats seria negociado num piscar de olhos e o executivo que assinasse os papéis receberia cumprimentos por sua visão e coragem.

Ocorre, claro, que Paulo Nobre não trabalha no mercado esportivo americano, o Palmeiras não está na NBA, e o futebol tem algo que o distingue: a relação das pessoas com seus times, na enorme maioria dos casos, é irracional. O coração não foi feito para pensar.

O grande desafio do palmeirense em 2013 talvez seja exatamente esse: ensinar o coração a raciocinar. Ou aprender a torcer com o cérebro. E esperar que um dirigente capaz de tomar decisões impopulares tenha sucesso.

TRÊS TOQUES

OPINIÃO…

Joey Barton é aquele cara que esmurra quem lhe dá bom dia na hora errada, que faz xixi embaixo da mesa do bar, que xinga o garçom que deixou seu copo vazio. É um acidente esperando para acontecer, como bem disse Bono (não sobre Barton, que fique claro). Mas é curioso como seu preconceituoso e provocador tweet sobre Neymar e a “liga da selva amazônica” despertou em tanta gente um amor repentino sobre essa região do Brasil.

… TODO MUNDO…

Quanto ao que Barton disse sobre o futebol de Neymar (“não anda na mesma rua de Messi e Ronaldo”), foi uma opinião baseada no que ele vê de perto, com frequência, e no que vê de longe, de vez em quando. Uma comparação que não pode ser feita, porque não há elementos comuns. Mas que não deve estar distante da verdade. Ainda. Aliás, se ele acrescentasse o “ainda”, poucos o criticariam.

… TEM

O fato é que não deveríamos nos preocupar com o que Joey Barton diz.



  • emerson oliveira

    Na nba nauum existe o conceito de emprestimo… mandamos o henry boats pra um rival por 4 jogadores que no final da temporada vao voltar pro seu time..alem doo fato q se quisessemos ficar com ele teriamos qq pagar mais do q o astro henry boats vale.. isso seriaa motivo de mamdar embora na nba…

  • André, concordo plenamente que ninguém deveria se preocupar com o que Joey Barton diz. Ele é irrelevante e seu futebol e sua história não parecem dar qualidades técnicas para uma avaliação ponderada. Pra mim, tem o mesmo peso de um comentário de qualquer torcedor.

    Com relação ao Palmeiras, na minha opinião, foi um dos negócios mais espetaculares da temporada. Conseguiu jogadores jovens em troca de um jogador em bom momento. Imagina se o Náutico tivesse tido a mesma oportunidade quando o Acosta teve aquela temporada espetacular?

  • Esta coluna está irrepreensível.

    Como palmeirense, não entendo a indignação das pessoas com o clube e com o Barcos. O clube, sendo financeiramente responsável e trazendo benefícios práticos a curto prazo. O único detalhe foi revelar o nome dos jogadores que ainda não estão acertados, o que gera expectativas. Mas o negócio foi excelente. Famosa situação “triple win”. Ganha o Grêmio, ganha o Palmeiras e ganha o Jogador. Do ponto de vista de negócios, sucesso total.

    Quanto ao Barcos, é uma injustiça que os meus companheiros torcedores de clube o classifiquem como mercenário. Ele ficou menos de um ano no clube. Do ponto de vista de um profissional de comunicação e relacionamento, não deu nem tempo de se criar uma identidade com o jogador. Tanto é que em alguns meses ninguém mais falará mal do jogador.

    Aliás, crucificar um jogador por mudar de empresa (clube) por que está em busca dos seus objetivos profissionais e que não esconde isso é o fim da picada. Qualquer um que estivesse no lugar do pirata faria o mesmo.

    Bom, mudando de assunto, André, gostaria de saber a sua opinião sobre Rugby. Gosta? Acompanha? Eu me mudei recentemente pra Edimburgo (que cidade!) e calhou justamente de estar acontecendo o torneio Six Nations por aqui. Eu nunca me interessei pelo esporte, mas depois do jogo de ontem entre Escócia X Itália, confesso que me empolguei (culpa da atmosfera criada pela vitória escocesa). Recomenda algum blog ou site pra que eu possa me inteirar a respeito do esporte?

    Abraço!

  • Juliano

    Também acho a negociação do Barcos uma boa. Ele não é nenhum Romário. O futebol por aqui (ou, pelo menos, no Palmeiras) anda tão nivelado por baixo que ele é visto como “o cara”. Parei. E a recusa do Moreno?

    Sobre Barton, fosse eu no lugar no Neymar, diria:
    “Ele está falando sobre mim, mas eu nem sei quem ele é. Isso resume muita coisa. Eu sou titular na seleção com mais títulos mundiais, ele já foi convocado para a seleção dele? O país da ‘liga da selva’ é penta, que ele se lembre disso sempre que for mencionar o Brasil. Aos ingleses, que não merecem Barton, um abraço”.

    Quando ele diz que Neymar não anda na mesma rua que C. Ronaldo e Messi, ele não inventou a roda. Não há novidade nisso. O próprio Neymar refuta as comparações (quando algum bobo lhe indaga isso) e sempre elege Messi como o melhor. Não tem como ser diferente. Atuam em ligas de níveis distintos, possuem formação distinta, estão em idades distintas. Não sei se Neymar chegará ao nível Messi, mesmo jogando na Europa, com seus 25, 28 anos. Tomara que sim. Infelizmente esse tipo de comparação sempre vai existir, desde que um jornalista bobo perguntar ao Edson Arantes quem é melhor entre os dois. E o poeta sempre responder que é o brasileiro. Barton quis seu momento poeta, com o adicional da falta de educação que lhe parece peculiar, e errou no tom.

    Abraço!

  • Leandro Azevedo

    O unico problema que vejo na analise e a diferenca do modelo das ligas e como isso impacta as decisoes tomadas pelos dirigentes. Na NBA quando um time entra em processo de reformulacao nao existe rebaixamento, tem o draft para ajudar e se o time ja sofreu com algum tipo de rebaixamento nao existe a pressao de colocar um time competitivo para voltar ao patamar original.

    Tirando esse “porem”, a transacao foi muito boa para o Palmeiras – o problema que vejo e que no comeco do dia os jogadores mencionados eram bem melhores que os jogadores que virao no fim da negociacao. Isso frustrou muitos Palmeirenses, mas a responsabilidade financeira que os dirigentes estao mostrando tem que ser aplaudida.

  • André

    Concordaria com você, se não estivesse esquecendo de um pequeno detalhe. Os jogadores cedidos pelo Grêmio vêm por empréstimo. Ou seja, no final do ano (um deles que não me lembro qual volta já no meio do ano), quando essa ‘baciada’ voltar para o Grêmio, ficaremos sem esses jogadores E sem o Barcos.
    Nos desfizemos para sempre de um patrimônio valioso do clube, o Barcos, e em troca recebemos jogadores que aqui servirão apenas de vitrine, para que o Gremio os venda mais caro depois.

    Se não fosse este “detalhe” de ser por empréstimo, concordo com você, teria sido um ótimo negócio.

  • Henrique Silva

    Analogia INFELIZ

    Moro em Boston a 27 anos, sou Palmeirense, e so’ tenho uma coisa a dizer.

    FOI O MAIOR MICO DA HISTORIA DE TODOS OS TEMPOS, em TODOS os clubes grandes.

    Os nao palmeirenses ADORARAM essa palhacada.

    Entao, vamos aos fatos.

    Voce DEU, o seu melhor jogador, pra um rival direto, por uma mixaria de 4 ou 7 milhoes de reais, e recebeu em troca, 4 jogadores, POR EMPRESTIMO, sendo que um deles, tem o contrato com o Gremio acabando em Dezembro, ou seja, ja assinaria pre-contrato agora em Junho, e o outro, vem por emprestimo ate Junho ????????

    E o principal do negocio, NAO VEM. que seria a reposicao do Barcos.

    No meio do ano, o Barcos sai do Gremio por 10-12 milhoes de Euros, e o Palmeiras ganha 15% disso.

    Realmente, jogada de GENIO.

    Na NBA, voce tem o conceito de draft, que nao existe no BRasil. Tem o conceito salary cap, que nao existe no Brasil, tem o conceito de reconstrucao de times, que nao existe no BRasil.

    Se fosse REALMENTE uma reconstrucao, como nos seus moldes, eu ate apoiaria, mas o que nao da pra entender e’ o AMADORISMO dessa negociacao.

    A pergunta que voce tem que se fazer e’, se o Barcos nao for vendido ate Fevereiro de 2013, o que REALMENTE aconteceu ?

    O Gremio, com 7 milhoes de reais, ganhou um cara que faz 30 gols por ano, e vai ter, em Fevereiro de 2013, TODOS OS EMPRESTADOS de volta. TODOS.

    O que o Palmeiras tem ?

    NADA !!! Ah, tem sim, 15% dos direitos em caso de uma venda futura do Barcos.

    Coracao ? Na NBA, o cara era SUMARIAMENTE despedido do time, caso fizesse algo assim, pois aqui, as negociatas tem que ser BOAS pros dois lados. E a grana, tem que BATER. Voce negocia o contrato de um cara de 20 milhoes por ano, por 3 que vao ganhar 20 milhoes tambem, e preferem os contratos que estao expirando, pra voce poder limpar espaco under the cap.

    Antes de fazer analogias infelizes como essa, entenda como a coisa funciona primeiro.

    Um abraco

    AK: Antes de comentar um texto, procure compreendê-lo. No caso em questão, nem é assim tão complicado. Um abraço.

  • Marcel de Souza

    André, acho a sua análise perfeita, mas gostaria de colocar 2 pontos que vejo nessa situação toda:

    1. O Palmeiras definitivamente abandonou a Libertadores pra se dedicar à série B e voltar aos bons tempos, no que eu acho que eles estão certos.

    2. O mais incrível dessa história da troca dos jogadores é ver como os jogadores do Grêmio não querem ser envolvidos nesta troca. O Palmeiras virou um destino indesejável da maioria dos jogadores em alto nível do Brasil??

    1 abraço!

    AK: 1 – Eu também.
    2 – Sim, como seria o caso de qualquer outro time que estivesse na Série B e com os problemas de gestão que o Palmeiras tem.

    Um abraço.

    • Matheus Brito

      Mesmos casos de Corinthians e Vasco quando caíram. Os jogadores recusavam simplesmente dizendo que NÃO queriam jogar a série B.

  • Emerson

    O pecado cometido até aqui pela diretoria palestrina, foi o de ter liberado o Barcos, sem ter acertado com todos os atletas envolvidos na troca, correndo o risco de pagar um mico digno da gestão Tirone. Ah, pai falastrão à parte, se o Marcelo Moreno não acertar com o Palmeiras e em definitivo, este negócio do ponto vista financeiro, terá sido ruim para os paulistas, principlmente se levarmos em conta o valor de mercado que os outros atletas do Grêmio especulados na troca possuem, e o valor de mercado do Barcos.
    Creio que na NBA, nenhum executivo faria este negócio sem se precaver de todas as formas possíveis.

    AK: Também creio, e me parece claro que o ponto do texto é a intenção por trás do negócio, e não a forma como ele terminará por ser realizado ou os pormenores (draft, salary cap…) que diferenciam a NBA e o futebol brasileiro. Um abraco.

    • Emerson

      Sim, compreendi e concordo com o texto. Apenas, modestamente, acrescentei o meu ponto de vista, que como você bem disse trata dos “pormenores”da negociação, nada mais. Um abraço

  • Matheus Brito

    Duas coisas a respeito do Palmeiras: ninguém perguntou antes aos jogadores se eles queriam ir? A ultima vez que vi uma “baciada” dessas foi uma troca entre são Paulo e Cruzeiro, não me lembro dos nomes, sei que envolvia o Beletti.
    Analisando somente o que o texto propõe, foi sim uma bela “canetada”.
    Analisando o que o texto não propõe, pode se tornar o mico do ano.

    Três coisas a respeito do barton: acertou realmente quando diz que Neymar está longe de Messi e Ronaldo.
    Acertou,em minha opinião ao dizer que Neymar precisa sair do Brasil.
    No mais, asneiras de um frustrado que não sabe reconhecer aquele momento em que já disse o que precisava dizer, ou seja, o momento de se calar.

  • Paulo Pellegrino

    Concordo com o Henrique Silva. A sua analogia foi bastante infeliz. Pena que não trate seu Corinthians da mesma forma e agora apele para uma certa demagogia ao analisar a triste realidade do rival. E ainda veste sua costumeira soberba na hora de criticar os posts de quem aqui comenta. Simplesmente grotesco, mas bem Kfouri.

    AK: Seus dramas com o idioma são terrivelmente graves. Parece-me um caso terminal. Um abraço.

  • Luiz Gustavo

    Fala André! Desse caso Neymar, Barton et caterva, sobrou a revelação de um atento ouvinte de Who’s Gonna Ride Your Wild Horses, do U2. Não é para qualquer um se atentar a esse verso de uma das mais belas canções já feita sobre desilusões amorosas. Sobre Neymar e seu futebol, a verdade está no artigo de Lucio Ribeiro na Folha: Neymar vê o futebol. Abraço, Luiz

    AK: Achei que ninguém tinha percebido. Obrigado pelo comentário. Um abraço.

    • Juliano

      Luiz Gustavo, graças ao teu comentário fui ler a referida coluna do Lucio Ribeiro. Mesmo eu não tendo uma opiniao formada a respeito se Neymar já deveria ter ido pra Europa (ele RECÉM fez 21 anos, e, aqui vai o viés, sou santista…), acho que no último parágrafo ele mata a pau. Se nosso futebol fosse mais bem tratado, valeria mais a pena ele ficar. Realmente pra jogar o Paulista nao vale a pena. E neste ano o Santos não joga a Liberta. Enfim…

      Tudo conspira para ele ir jogar em um grande clube Europeu após a Copa. Acham que este tempo aqui, jogando estaduais e não participando da Liberta, podem atrasar o seu desenvolvimento?

      Abraço!

  • Paulo Pinheiro

    André,

    Esse Barton tem todo direito de opinar. E acho até que a provocação ao Neymar vai fazer até bem pra este.

    Só acho que o “liga da selva” foi totalmente desnecessário e indelicado.
    Também ignoraria o que esse cidadão (cuja fama nunca chegou antes a este leitor pouco interessado em futebol europeu) fala. Mas a provocação a plenos microfones não foi feita para ser ignorada. Ela merece resposta, e acho que a Liga Européia poderia puni-lo ou ao menos adverti-lo por declarações que roçam na xenofobia de seu eurocentrismo.

  • Teobaldo

    Em princípio esta negociação lembrou-me aquela outra que terminou com DH-12 no Lakers. O Magic (Palmeiras?) entregou seu melhor jogador (DH-12) reforçando um rival (Lakers = Grêmio?), mas livrou-se de um salário astronômico não tendo ficado com ninguém de expressão. Quando todos achavam que o Lakers iria deslanchar e DH-12 se transformaria num potencial sucessor de Kobe, eis que surge o imponderável… Estariam o Grêmio e Barcos fadados ao mesmo fracasso? E o Palmeiras, continuará no limbo, assim como o Magic? Um abraço.

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