COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

SOLUÇÃO GERAL

A diretoria do Grêmio promete preservar a área da geral de seu novo estádio, onde aconteceu um desagradável acidente na semana passada. A grade de proteção não suportou o peso da avalanche após o gol de Elano contra a LDU, o susto deixou uma dezena de feridos. O fato de o primeiro jogo oficial da casa gremista não ter sido marcado por um desastre é um alívio, por diversos motivos. O principal é o óbvio. Outro é a possibilidade de discutir a questão com tranquilidade.

Vozes se levantaram contra a proibição do tipo de comemoração que parte da torcida do Grêmio gosta de fazer. Um tanto precipitadas, talvez, e condicionadas pela reação típica dos poderes a situações dessa natureza. Proíbe-se, nesses casos, apenas para dar uma satisfação. Passa-se ao largo da solução, por mais trabalhosa. O clube gaúcho agiu corretamente ao interditar o local para, primeiro, entender o que houve. Coleta de informações.

Desnecessário acrescentar que a grade em questão não poderia ter cedido. Não apenas porque o estádio é zero quilômetro. No projeto da Arena, a geral foi desenhada para acomodar o grupo de torcedores que faz a avalanche. Aquele é o lugar deles. Não é exagero dizer que a comemoração característica é tão parte da obra quanto os camarotes. A grade estava ali para aguentar a avalanche. Foi feita para tanto.

A decisão sobre o futuro da geral passa por conversas com as autoridades em Porto Alegre. A capacidade do local (cerca de 10 mil pessoas) foi reduzida para 8 mil torcedores para os jogos do final do ano passado, justamente por questões de segurança. Pelo mesmo motivo, foram instaladas barras antiesmagamento que diminuíram o espaço da avalanche. É necessário que se encontre uma configuração que permita que os gols do Grêmio e a avalanche convivam sem que as pessoas se machuquem. A opção mais fácil de todas é liberar e expôr os torcedores. A segunda mais fácil é proibir. A solução está no meio do caminho.

O pior resultado possível do acidente da última quarta-feira não é o fim da avalanche. É a instalação de cadeiras num setor popular do estádio. A capacidade total cairia em cerca de 4 mil pessoas, privando o time de apoio. E o torcedor perderia a chance de ver o Grêmio pagando menos pelo ingresso. A descaracterização da geral da Arena seria um equívoco do clube e um golpe para a torcida.

Volto ao exemplo do Borússia Dortmund, citado em coluna recente. A chamada “Muralha Amarela” do Signal Iduna Park (o velho, histórico e espetacular Westfalenstadion) é um espaço de 25 mil pessoas atrás de um dos gols, que o clube reserva para torcedores de baixo poder aquisitivo, especialmente os jovens. Carnês para todas as rodadas em casa do Campeonato Alemão, e as três partidas da fase de grupos da Liga dos Campeões, custam 11 euros por jogo. Com cadeiras, o Dortmund lucraria mais 5 milhões de euros por ano, mas prefere “proteger” o torcedor que lota o setor.

Estádios, modernos ou não, devem ter lugares para todos os bolsos. No futebol brasileiro, não há missão mais importante do que ocupá-los. Que o Grêmio acerte em sua decisão.

CAIXA REGISTRADORA

Os estádios de futebol, em quase todos os lugares do mundo em que o jogo é parte importante da vida das pessoas, deixaram de ser apenas praças esportivas. Adquiriram um papel econômico que diferencia os clubes que podem e sabem explorá-los. Não é necessário possuir um estádio próprio para implantar um programa de sócio-torcedor, mas clubes que pagam para jogar deixam de faturar receitas de camarotes, alimentação, shows e marketing. Ademais, estádios antigos, mesmo os particulares, estão saturados em seu potencial de comercialização. Não é por outro motivo que clubes – como o Grêmio e o Palmeiras, por exemplo – constituíram parcerias para erguer novas casas. São geradoras de receitas que têm grande impacto em orçamentos ainda reféns dos contratos de televisão. Oportunidade que todo clube deveria perseguir.



  • Marcel de Souza

    André, desculpe eu discordar de você, mas eu acho essa comemoração da avalanche meio irresponsável…

    • Juliano

      Não é este o ponto tratado pelo texto.

      • Marcel de Souza

        Como não?! Pode não ser o tema principal, concordo, mas em pelo menos 2 parágrafos o André trata do tema proibição da avalanche e deixou claro que na opinião dele o comemoração não deveria ser proibida. Na minha opinião, deveria. Mas enfim, esse assunto já passou 😉 1 abraço,

  • Emerson

    O que me chama a atenção nestas novas arenas, pelo menos as 3 recém inauguradas e ou reformadas, Castelão, Arena Grêmio e Mineirão, é o fato de que elas foram inauguradas e apresentaram problemas sérios e inadmissíveis por se tratarem de estádios caros e “zero quilometro”.
    Em Fortaleza, ao que consta, a acessibilidade estava prejudicada pois haviam enormes dificuldades para se entrar e sair do estádio. Em Porto Alegre além do rompimento da grade da aqrquibancada, o que evidencia falta de preparação para receber a avalanche, o campo era digno de receber apenas partidas de futebol de areia, sem contar as reclamações que o Hamburgo fez sobre as condições do vestiário dos visitantes. Já em BH, fora a bagunça na venda de ingressos e os depoimentos de que haviam muita sujeira no estádio, não havia água nas torneiras e bebedouros, melhor nem imaginar como estariam as condições dos hidrantes, e aparatos necessários para se controlar um eventual foco de incêndio…
    Todas estas situações sugerem que houve no mínimo precipitação na inauguração destes 3 palcos, além de nos fazer refletir sobre a responsabilidade de quem autorizou a realização de eventos em lugares onde não haviam plenas condições para receber grandes públicos.
    Bem, convenhamos, nada disto é novidade no país da danceteria Kiss.

  • Clayton

    Nesta questão de rentabilizar o estádio (ou arena), o Morumbi é uma referência no futebol brasileiro. Em 2012, gerou cerca de R$45milhões para o São Paulo. É há muito o que ser feito, como a construção da Arena para shows de médio porte (“arena 25”), atrás de um dos gols.

  • Massara

    Li no blog do PVC que o ingresso para essa área “popular” do estádio do Grêmio custa R$40. No Mineirão, estádio que frequento, o ingresso mais barato custa R$60. Os serviços oferecidos (transporte, segurança, alimentação e higiene) e os espetáculos proporcionados não condizem com esses patamares. Não vale a pena ir ao estádio hoje. Simples assim. E as pessoas que administram o futebol (clubes, federações e administradores dos estádios) estão fazendo de tudo para tirar o torcedor do campo.

    Se na Alemanha um camarada paga 11 euros para ir a um jogo da UEFA Champions League, faz sentido alguém sair de casa e pagar R$60 (além dos R$30 do estacionamento, porque ônibus e metrô não são opções) para assistir a Cruzeiro e América de Teófilo Otoni, às 22 horas (isso mesmo, vinte e duas horas de uma bruta quarta-feira), em partida válida pela primeira rodada do Campeonato Mineiro?

  • Fala Andre,

    Acredito que voce esta correto – o futebol se tornou o que e baseado nas gerais e arquibancadas, o publico em pe e apertado, mas feliz por ver um jogo. E claro que a modernidade aponta para um maior conforto e uma distribuicao mais racional das pessoas no estadio, mas manter setores a precos populares, e que retem a essencia do torcedor apaixonado, e fundamental para que o futebol continue a ser o esporte das massas.

  • Juliano

    AK, permita-me adicionar essa entrevista do seu colega de ESPN, o PVC, com o presidente da Gremio Empreendimentos. Acredito que soma ao publicado:

    http://espn.estadao.com.br/post/308285_gremio-pensa-em-reduzir-avalanche-sem-elimina-la-projeto-pro-avalanche-pode-ter-criado-problema

    O preço e o setor “popular” são abordados, como no texto do AK. O que o companheiro Massara disse é o retrato da péssima administração e gestão do futebol como um todo no país.

    A nova Arena do Gremio tem acesso difícil, no sentido de transporte público e localização – o Olímpico fica em uma região mais central da cidade, a Arena é distante de tudo, para muitos. O espaço de estacionamento hoje é insuficiente. E no Brasil, qualquer jogo às 22 horas é um absurdo. Independente se é contra o Íbis ou se é uma final de Libertadores. O mais decente pra qualquer torcedor seria às 20h, daria tempo suficiente de sair do trabalho e ir ao estádio, contanto os tempos de alimentação e deslocamento. Mas e aí, quem tem peito de mudar o Jornal Nacional e a novela de horário?

    No Brasil, a gestão do futebol como produto rentável, e de tratamento decente com quem o consome, nem engatinha, porque sequer deseja engatinhar.

    Abraço!

  • Marcelo Caju – Poa RS

    Existe um detalhe que não foi bem questionado.

    1) A barra de contenção foi subdimensionada? Acredito que sim, porque pelas fotos o que mostra foi o rompimento na base da grade. Ou seja, não foi fixada na profundidade correta para aguentar a força gerada pela massa de torcedores.

    2) As “para-avalanches” são apenas para diminuírem a velocidade de descida. Assim diminuem a quantidade de movimento exercida pelo torcedores a grade.

    3) Ocorrendo um óbito, como seria a repercussão!? O clube teve mais sorte que juízo.

    4) Na Alemanha, não ha o fenômeno da Avalanche, o que faz ter outro tipo de estrutura metalica atrás dos gol.

    5) O clube fez questão de construir uma Arena, mas ainda é refém da torcida Geral do Grêmio, que apoiou claramente o ultimo presidente.

    6) Talvez a preservação do local seja devido a alguns torcedores da Geral que cooperam no Conselho Deliberativo do Grêmio. Quero dizer, é preciso pensar nas consequências politicas do clube para qualquer assunto relativo a Geral…

    • Juliano

      Marcelo, tu levantas bons pontos, mas me permita discuti-los contigo:

      A resposta (ou parte dela) para o ponto 1 está na entrevista do PVC com o Eduardo Antonini (link acima).

      Sobre o ponto 3, concordo. O clube teve sorte, pois achava que estava tudo nos conformes para a avalanche sem ter tido um “test drive” antes. Como faria isso? Sim, alguém poderia ter morrido, ou pelo menos, dependendo de como fosse a queda, ir parar em uma cadeira de rodas. Pensando assim, tiveram sorte todos, clube e vítimas.

      Ponto 4: o paralelo com o citado no texto na Alemanha não é com o fenomeno da avalanche em si, mas com um setor popular do estádio, para torcedores com menor poder aquisitivo – muito mais numerosos no Brasil. Está relacionado com a preservação da cultura e tradição do clube, e isso envolve obrigatoriamente sua torcida.

      Os pontos 5 e 6 trazem novos elementos, elementos políticos. Não tinha conhecimento, tu deves ter boas fontes. De qualquer maneira, concordo que devam ser mantidas as culturas particulares de cada região e torcida do país. Todos sentem falta da Geral do Maracanã. O exemplo serve para a avalanche – se não existisse na nova arena, todos iriam ter a mesma saudade e criticar uma gestão que não pensa no torcedor da geral. A cultura deve ser preservada – claro, com segurança ao torcedor – em detrimento de arenas no modelo europeu – não somos europeus. Deveríamos ter um modelo próprio, cada região, cada cultura. Essas arenas acabam por elitizar o público quanto ao seu poder aquisitivo e afugentam o torcedor mais passional – e pobre – dos estádios. Fica um espetáculo com cadeiras vazias e com uma torcida fria. Há de se ponderar todos os argumentos, mas achei interessantes esses novos elementos que trouxeste.

      Abraço!

  • Fabio Alencar

    Você cita no texto a vontade de que se crie uma forma dos gols conviverem com a avalanche de forma aceitável. Mas, pense bem, não é só a parte de infra-estrutura que deve ter importância. Mesmo se tudo for construído de forma a aguentar a pressão das pessoas na murada, ou anteparo, ou o que quer que seja, ainda assim não estarão livres de um acidente, até fatal. Já pensastes se um torcedor tropeça, no começo da avalanche, e cai? Certamente será pisoteado pelos que vierem atrás. Se por ventura ele vier a falecer de nada adiantará toda a infra-estrutura corretamente dimensionada, o espaço reservado, e tudo mais. Alguns vão dizer; mas isso nunca aconteceu… E eu respondo: não é porque nunca aconteceu antes que nunca vai acontecer algum dia. Não estou dizendo que avalanche deve ser proibida, particularmente não participaria, mas que a questão da infra-estrutura não é a única variável, isso, para mim, é claro. Mas, acho que só vão começar a discutir isso depois de um acidente grave.

    • Paulo Pinheiro

      Assino embaixo.

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