COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

TRANSIÇÃO

Na primeira dividida entre o novo e o antigo poder, o Palmeiras ganhou. A decisão do presidente Paulo Nobre de não contratar Román Riquelme revela a existência de neurônios em atividade no comando do clube e expõe, por mais alguns desconfortáveis minutos, as práticas predatórias de seu antecessor.

O último ato de Arnaldo Tirone foi – a exemplo de sua “gestão” – impensado, irresponsável, inconsequente. O ex-presidente viajou a Buenos Aires e deixou apalavrado com Riquelme um contrato do qual o Palmeiras e os palmeirenses, pelo menos aqueles com um mínimo de visão, se arrependeriam. O populismo embutido na ideia de “presentear a torcida” (um disfarce para a sabotagem de recursos que podem ser utilizados de outra forma) serviu para que Tirone lavasse as mãos e repassasse os problemas. Nobre fez bem ao abortar a operação.

Antes de prosseguir, cabe uma explicação: você não encontrará alguém que tenha mais admiração por Román do que este colunista. Minhas defesas do futebol virtuoso do ex-meia do Boca Juniors, em conversas com colegas brasileiros e argentinos que o criticam, certamente emocionariam a mãe dele. Riquelme é magistral, mas tem características muito peculiares, como um software que só roda numa determinada configuração. Neste momento, considerando a aposentadoria, ele não é o que o Palmeiras precisa.

Contratá-lo por duas temporadas comprometeria a montagem do time de 2013, que tem como principal objetivo recuperar um lugar na Série A do Campeonato Brasileiro. E condicionaria a formação da equipe de 2014, cuja missão será resgatar a ambição do torcedor, a ser feita a seu redor. Uma decisão que não pode ser tomada agora. A realidade esportiva e econômica do Palmeiras pede razão e planejamento, método desconhecido pela diretoria que acaba de se retirar.

Tirone apostou na jogada midiática, na espuma, na parcela da torcida que se deixa seduzir pela ilusão de uma Libertadores com Riquelme. Utopia que só enxerga os primeiros seis meses do ano, menos importantes para o Palmeiras do que os últimos. Movimento típico de dirigentes que tomam decisões em nome do clube, baseados numa agenda pessoal que ignora os interesses da coletividade.

É animador que uma das primeiras decisões do novo presidente palmeirense tenha sido se negar a assinar o que Tirone costurou, porque mais fácil seria ir a favor da corrente, concretizar o negócio e depois se isentar da responsabilidade. Sinal de que Nobre tem um plano, o que, por si só, já o diferencia.

Seu desafio agora é notabilizar-se também pelo que faz, pois só assim 2013 será como deve ser: não apenas um momento doloroso, mas o início de uma nova era. A cada acerto, Paulo Nobre aproximará o clube de seu verdadeiro caminho e evidenciará os males causados por quem o antecedeu. O Palmeiras precisa se distanciar – em todos os sentidos – de Arnaldo Tirone. Contratar Riquelme seria navegar no sentido oposto.

BOLA

Comentário atrasado (porque a coluna estava em férias), sobre a última jogada desconcertante de Neymar: o jogador que se sentir “humilhado” por levar um chapéu tem todas as opções para resolver seus dramas em campo. Pode fingir que nada aconteceu, empenhar-se para desarmar o adversário na bola no encontro seguinte, ou até mesmo ser violento como tantos ameaçam ser. No último caso, provavelmente será punido. Que tome a melhor decisão. Chato é ficar reclamando, como se dribles fossem proibidos.

HORROR

Uma casa noturna sem alvará e sem saídas de emergência. Um sinalizador utilizado em local impróprio. Seguranças preocupados em impedir a saída de clientes desesperados. Centenas de mortes que deveriam ter sido evitadas. A tragédia de Santa Maria é uma tragédia brasileira, reflexo de como fazemos as coisas. A apuração rigorosa do que aconteceu não trará pessoas de volta, mas talvez colabore para que não se repita. Talvez.



  • Willian Ifanger

    “Minhas defesas do futebol virtuoso do ex-meia do Boca Juniors, (…), certamente emocionariam a mãe dele.”.

    Hahahahahahaha.

  • Juliano

    AK, bom ter seus textos de volta! Que tuas férias tenham sido tão boas quanto.

    1. Pelo bem do futebol, e do bom exemplo que qualquer cidadão brasileiro deve dar em qualquer esfera, torço muito pela nova direção do Palmeiras. Tarefa das mais árduas. Definitivamente, Riquelme (ou qualquer manobra para ‘alegrar a torcida’) não é a saída.

    2. É possível fazer um paralelo com o Flamengo. E o que Love (ídolo também da torcida alvi-verde) disse a respeito da nova diretoria, é uma piada. Mesmo à distancia é possível observar os primeiros esforços da nova diretoria. Defender a gestão decepcionante (entre inúmeros adjetivos negativos) de P. Amorim é o cúmulo. Quem trouxe prejuízo financeiro pro clube? Love tem sérios problemas de percepção. O Brasil não precisa de atletas que não tem a menor noção do que ocorre ao seu redor e abre a boca. São irresponsáveis, mal orientados, sem a menor instrução. O microfone é poderoso. Tem muita coisa errada…

    3. Até onde eu li em outros portais, a reclamação do jogador do Botafogo de Ribeirão Preto não foi com relação ao chapéu tomado. Foi para a sequencia, quando Neymar pára na lateral e coloca as mãos na cintura. Neste momento, concordo que houve desrespeito por parte do santista, e a postura em campo do time adversário foi normal, não houve revide com violencia ou dividida “mais forte”. Com palavras, após o jogo, sim. Vendo o lance, reprovei a atitude do santista, concordo que soe como desrespeito. Como sempre aviso: sou santista, e pensei desta forma. Sobre o chapéu, foi genial, espetacular, e nada desrespeitoso. Foi brilhante. Gostaria apenas de separar os dois lances e o que foi dito.

    4. Em uma tragédia dessas proporções, a série de erros, falhas, equívocos, somados, resulta no que resultou. Novamente, de longe, lendo e ouvindo que se tem noticiado, pessoalmente acho que o erro está lá atrás, em agosto de 2012, no vencimento do alvará. É incrível a quantidade de estabelecimentos (dos mais variados tipos) que funcionam sem alvará no país. O país do jeitinho, o país do “não dá nada”. Na verdade, acontecem poucas tragédias com tamanha banalidade de normas e leis que não se fazem valer no Brasil. Na minha visão, este é o ponto inicial. Sua nota é precisa.

    Abraços!

    • Juliano, o problema dos alvarás é que a prefeitura estabelece um critério único para todo tipo de empreendimento. Por exemplo, uma costureira não precisa de uma visita dos bombeiros para fazer seu trabalho, mas muitas prefeituras exigem mesmo assim. Dessa forma, quem tem a responsabilidade de fiscalizar fica sobrecarregado. Isso resultado 2 em cada 3 empresas ou funciona sem alvará ou com alvará provisório.

    • Rodrigo-CPQ

      Juliano, ia escrever a mesma coisa sobre o jogador do Botafogo.
      Não há dúvida que o Neymar melhorou, e muito, seu gênio, mas ainda faz provocações desnecessárias. Já falei aqui a mesma coisa que o tricolor de RP: por que jogadores como Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho (e citei exatamente esses dois) sempre jogaram muito mais bola que o Neymar e nunca causaram esse tipo de polêmica? Saber jogar bola é uma coisa, respeito é outra.

  • Marcel de Souza

    Bem vindo de volta André (só vi que você de férias hoje!!). Os textos estavam fazendo falta! Sabe que em toda essa história da contratação do Riquelme eu pensava no que você estaria achando dessa história, sendo que realmente você é um dos maiores admiradores do argentino que eu conheço. Mais uma vez você mostrou sensatez. 1 abraço!!

  • Rodrigo-CPQ

    Três pontos:

    – seu texto é espetacular; trata o palmeiras com toda imparcialidade que qualquer clube deve ser tratado; se alguém o acusar de clubismo para um lado ou para o outro por aqui, dá pra esfregar textos desse naipe na cara desses sujeitos;
    – sobre Neymar: o zagueiro em questão (que não me lembro o nome) reclamou das atitudes de Neymar, como colocar a mão na cintura, e não do drible (coisa de ET) do Neymar (pelo menos foi isso que entendi à partir das declarações dele);
    – sobre o ocorrido em Santa Maria: os seguranças, ao que parece, não perceberam que a casa estava pegando fogo, por isso impediram a saída (por apenas alguns instantes) dos clientes da casa; isso seria facilmente evitado se houvesse comunicação via rádio entre eles; sobre a tragédia em si, não me lembro de ter sentido nada parecido desde a morte do Senna.

    Grande abraço e ótimo retorno ao trabalho.

    • E qual o problema do Neymar por a mão na cintura? Tem muito jogador perna de pau que fica pagando de machão porque não tem recurso pra parar um craque na bola.

      • Rodrigo-CPQ

        Tô numa correria danada que nem lembrava que tinha escrito!!

        Pedro, o ponto é o seguinte: o Neymar joga muita bola, mas muita MESMO. Mas não precisa e nem deve fazer isso. Como disse acima, pro Juliano, Ronaldo e Ronaldinho Gaucho jogaram muito mais bola que ele e nunca precisaram fazer isso, tanto é que não lembro de zagueiro nenhum reclamando de atitudes parecidas, vindas de ambos.
        Claro que tem uma porrada de perna de pau pagando de machão, mas você não acha que essa postura do Neymar piora ainda mais a situação? Numa dessas, o “zagueiro machão” perde a cabeça e entre no joelho dele. O culpado seria o Neymar? Claro que não. Mas poderia (e deve) ser evitado. O árbitro vai punir o zagueiro, ele vai ser julgado, suspenso, todos vão se indignar, mas a nhaca já estará feita.
        Enfim, o cara progrediu pra caramba nesse sentido, mas ainda falta mais orientação pra ele.

        • Rodrigo, entendo seu argumento, mas é absurdo que o Neymar, vítima da violência, tenha que mudar seu jeito para não ofender o zagueiro machão. Isso não deveria ocorrer.

          • Juliano

            Pedro, o lance é pontual, não é o jeito do Neymar. Ele não faz isso como via de regra (desrespeitar adversário, no caso, com a maozinha na cintura). Ele não deve mudar seu jeito ofensivo, com dribles de efeito e que dão muito resultado – tanto resultado que está sempre na festa da FIFA para o premio Puskas, porque tudo isso resultou em GOL!

            A mão na cintura não resultou. Eu, santista, entendi como desrespeito ao adversário. Entendi que foi uma recaída do Neymar. Se ele puder evitar estritamente esse tipo de postura, é lucro pra ele e para todos.

            Abraço!

  • Massara

    Não vejo problema em dar chapéu, rolinho, caneta, lambreta ou qualquer outro drible. Em direção ao gol ou não, o cara faz a opção que quiser quando tem a bola.

    Mas acho que colocar a mão na cintura, dar chapéu com o jogo parado e coisas do gênero são tentativas de diminuir ou de provocar o adversário. Não é vedado pelo jogo, mas nem tudo aquilo que a regra deixa de proibir é moral.

    AK: Um jogador tem o direito de “entrar na cabeça” de seus adversários. Se optar por fazer isso, deve considerar os riscos que corre. O árbitro está em campo para aplicar a regra. Um abraço.

    • Juliano

      AK, novamente, parece que a percepção de todos (como a minha) é que a declaração do jogador do Botafogo foi a respeito da mão na cintura. Eu reprovo também. As palavras dele são de violencia, mas ele não agiu com violencia dentro do campo. Alertou que alguém poderá agir. Como a famosa embaixadinha do Edílson no clássico Palmeiras x Corinthians. Considerou os riscos que corre, não partiu pra violencia. É compreensível que tenha se sentido provocado e o que tenha dito, por mais que eu, voce, e ninguém mais concorde com isso.

      Muito se fala da famosa “blindagem” dentro e fora de campo em Neymar. Dentro de campo acho que já nem existe mais, ganhou tanto a fama de cai-cai (fez por onde) que hoje apanha e o juiz fica na dúvida se é falta ou encenação. Fora de campo, todos exaltaram o chapéu impossível, ninguém observou a postura de desdém no lance seguinte. O jogador do Botinha se manifestou – apenas com relação às maos na cintura, nao com relação ao chapéu – e foi ridicularizado.

      Não me recordo postura parecida de jogadores que já foram eleitos “melhor do mundo” dentro de uma partida (maozinha na cintura, tirando pra dançar, contra um time sem expressão com placar favorável). Ronaldo, Rivaldo, Kaká, Gaúcho, mesmo o polêmico Romário. Citar a elegancia de Messi é desnecessário. Fazendo sempre a ressalva: não sou anti-Neymar, pelo contrário, sou santista e brasileiro, torço pra que ele amadureça e jogue cada vez mais. Com mais chapéus impossíveis e menos mãos na cintura.

      Abraço!

      • Rodrigo-CPQ

        É isso, Juliano. Falou o que penso.

        AK: o zagueiro bate, quebra o Neymar e logicamente vai ser expulso e punido. O zagueiro não vai fazer falta nenhuma pro futebol, mas o Neymar vai. A provocação dele é desnecessária, não precisa disso. Mais orientação, é o que falta.

    • Massara

      Concordo com você nesse ponto. Entrar na cabeça do adversário não é vedado pelas regras. Mas a postura me incomoda. Talvez o problema esteja na via eleita para entrar na cabeça do adversário. Faz com que eu o admire menos, entende? Não estou dizendo que estou certo, mas é o que eu sinto em relação a um jogador quando ele tenta diminuir ou provocar os outros. Principalmente quando o provocador é um popstar multimilionário e o provocado é um cara que está ali tentando ganhar a vida. Num país de desigualdades sociais gritantes, acredito que isso deveria ser levado em conta por um ídolo do esporte. Ou talvez eu esteja indo fundo demais na história.

      Sem querer parecer “puxa-saco”, admiro muito a postura do Messi. Não preciso dizer o que ele faz com os adversários com a bola nos pés. Mas nunca o vi colocar a mão na cintura na frente do zagueiro para provocá-lo. Nem mesmo quando o Barcelona meteu 4 no Santos do Neymar (fora o baile).

  • Emerson

    “A tragédia de Santa Maria é uma tragédia brasileira, reflexo de como fazemos as coisas.” Concordo, afinal este modo de” fazer as coisas” se refletem em diversos seguimentos do país. Aliás, sem fugir do esporte e restringindo um pouco o tema, quantos estádios e ginásios no Brasil teriam condições de evitar tragédias como a da boate Kiss, caso ocorressem situações semelhantes? Creio que uma minoria…

  • Leandro Azevedo

    Prefeito o texto, mas acho que o torcedor Palmeirense, e de outros clubes discordariam da seguinte frase:

    “Utopia que só enxerga os primeiros seis meses do ano, menos importantes para o Palmeiras do que os últimos.”

    E nao estou falando da utopia que tinha a contratacao do Roman como ponto principal, mas do acesso vs Libertadores. Creio que os torcedores Brasileiros dariam mais valor a uma Libertadores, que validaria o segundo semestre pela preparacao para o Mundial e passar mais um ano na Serie-B, ate pq o Palmeiras nao deixaria de receber cotas de TV alta.

    No caso Neymar, acho que o drible e arte, mas no momento que ele coloca a mao na cintura vira deboche. Um direito dele, claro, mas um recurso desnecessario.

  • Bruno

    No caso da boate, o que me marca é a proximidade: o cunhado da amiga da minha mãe estava lá – felizmente, sobreviveu.

    Mas 4 passos? Temo o dia em que uma tragédia ocorrida de maneira tão tola fique a 1 ou 2, somente – pois que irresponsabilidade! Show pirotécnico dentro de um lugar fechado é brincar de maneira maldosa com a senhora Fortuna.

    (Agora, uma pequena dúvida: quando coloco http://blogs.lancenet.com.br/andrekfouri sou redirecionado ao ano de 2012 – isso é algo que está acontecendo com todos ou é atualização do site que ainda não ocorreu?)

    • Bruno

      forget about it, parece q foi soh relatar o problema que ele se auto-resolveu

      • Juliano

        Isso também ocorre nos meus navegadores, Bruno. A solução que encontrei foi ir navegando sempre para o post seguinte, até chegar no mais atual.

        • Hey pessoal, comigo também acontece isso, nos 3 browsers que tenho (Chrome, Firefox e IE). Entrei na “home de blogs” do Lancenet!, e o link para o blog do AK está redirecionando para o último post do dia 25 de dezembro de 2012.

          Será um problema na page do ‘Lancenet!’?

          Abraço!

          • Michel gama

            Estou tendo o mesmo problema acessando via Safari, acabo acompanhando os novos posts via twitter…

    • Agora tá funcionando. Vamos ver no decorrer do dia e do fds.

      Ótimos posts, AK. Só os pude ler hoje!

      Abraço!

  • Rodrigo-CPQ

    Acontece comigo também, mas não é toda hora.

  • Rodrigo-CPQ

    AK, tomo a liberdade de deixar esse link, de um texto do Pasquale, pois acho que cabe (e muito) nas besteiradas ditas por aqui: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/pasquale/1223272-esporte-de-verdade.shtml .

    Se não achar pertinente e deixar de publicar, sem problemas!

    []s

  • Rosalia Gonzalez Isla

    Os primeiros jogos que assisti, fiquei surpresa com a qualidade do atleta Riquelme . Com o passar do tempo aguardei ,sempre ,um algo a mais a respeito de tudo que envolve a carreira de um futebolista que por algum motivo , nao aconteceu ! Talves a timidez, a simplicidade da pessoa deste atleta nao tenha sido favoravel , ate mesmo na selecao argentina , permaneceu abafado . Muito banco , para um atleta deste nivel. Riquelme seria util em qualquer clube , desde que lhe dessem algo que faltou por onde andou….

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