A FIEL DO MUNDO



(publicado na revista-pôster especial do Lance!, nas bancas de São Paulo)

Se um desavisado passasse na frente da televisão no último dia 12, por volta das 8h30, veria um estádio cheio de corintianos. Ficaria curioso para saber por que o Corinthians estava jogando àquela hora, pela manhã. Ao descobrir que o jogo, de fato, era à noite, perguntaria: mas em que parte do Brasil, agora, está de noite?

Ninguém poderia culpá-lo. A imagem da torcida do Corinthians se apropriando de um estádio no Japão foi mesmo impressionante. Um deslocamento monstruoso em contingente e distância. Uma invasão – mais uma – para ficar nos livros de História.

Não importa o público do jogo, ou a quantidade exata de corintianos que viajaram do Brasil, ou quantos já estavam lá. A torcida do Corinthians se transformou em personagem principal do Mundial de Clubes da Fifa. E em razão maior de um título imenso.

Nenhum torcedor atravessa o mundo e troca o dia pela noite com a certeza de que voltará campeão. Nem o mais otimista. Os apaixonados vão porque a oportunidade é valiosa demais, porque o momento pode ser bonito demais, porque as memórias podem ser alegres demais. E também porque estar ali não tem preço, vale qualquer sacrifício, é mais forte do que qualquer argumento racional.

Mas há algo particular no corintiano, que ficou evidente neste Mundial. Dizem que ele vai ao estádio para ver o time e, tão importante quanto, para se ver. Que se orgulha por ser parte de algo de proporções epidêmicas, que se espalha pelo ar e não reconhece fronteiras, oceanos, fusos-horários, baixas temperaturas.

O Corinthians começou a ganhar este Mundial quando a torcida foi ao Aeroporto de Guarulhos se despedir do time. Continuou a ganhar o Mundial quando a torcida tomou o estádio em Toyota. E terminou de ganhar o Mundial quando a torcida fez o mesmo em Yokohama.

Dois mil e doze foi o ano da décima segunda camisa. Aquela que é vestida pelo torcedor e joga sem entrar em campo. Não foi apenas uma coincidência o fato de a estreia no Mundial, contra o Al Ahly, ter acontecido em 12/12/12. Dois mil e doze foi ano em que a décima segunda camisa do Corinthians pôde comemorar dois títulos inesquecíveis pelo que representam, cada um com apelos distintos.

A conquista da Copa Libertadores acabou com a piada, com o complexo, com a angústia. E foi perfeita, invicta. Séculos se passarão sem que outro clube consiga a proeza de vencê-la pela primeira vez, derrubando o campeão do ano anterior e, na final, o time que faz brasileiros – os outros, claro – tremerem. A Libertadores é uma caminhada de sofrimento e fé, que transforma quem joga e quem torce, e deixa marcas que não se apagam.

O Mundial é um paradoxo. Efêmero e duradouro. Distante e presente. Acessório e fundamental. Passa-se um semestre pensando nele, semanas dedicando-se a ele, dias lutando por ele. Dois jogos absolutamente diferentes em tudo. O primeiro, contra um adversário desconhecido por muitos, e mais fraco. O segundo, contra um peso pesado do futebol, no nome e na força. No primeiro, a responsabilidade é sua. No segundo, é deles.

Em comum, só duas coisas: a camisa do Corinthians em campo e a torcida do Corinthians abraçando estádios japoneses, como se ficassem em São Paulo. Quando documentários forem produzidos sobre o Mundial de Clubes da Fifa, a edição de 2012 será retratada como o torneio do Corinthians e dos corintianos, o torneio do torcedor que viajou um dia inteiro para ver seu time jogar e sorrir ao se perceber representado por tanta gente. O torneio da toda poderosa Fiel.

Corintiano, o mundo é seu. De novo. E sempre.



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