ECOS DA FINAL QUE NÃO TERMINOU



No auge da confusão de ontem à noite no Morumbi, após a polícia controlar a briga entre jogadores do Tigre e seguranças a serviço do São Paulo, três dirigentes da Conmebol foram ao vestiário do time argentino.

Eram Francisco Figueiredo Brites, secretário-executivo da entidade; Hugo Figueiredo, diretor de competições; e Romer Osuna, tesoureiro.

Osuna fechou-se dentro da sala e tentou convencer o Tigre a voltar para o segundo tempo. Garantiu, várias vezes, a segurança dos visitantes no estádio. Ofereceu escolta para que a delegação saísse do Morumbi direto para o aeroporto, se quisesse.

Durante a conversa, tensa, a insistência dos argentinos em não retornar deu lugar a palavras agressivas dirigidas ao homem da Conmebol, que chegou a ser ofendido em voz alta. Desistiu.

Mais tarde, na delegacia, era clara a intenção de dirigentes do Tigre de continuar o confronto, de acordo com quem esteve lá. Os grupos tiveram de ser separados enquanto a delegada ouvia os depoimentos.

Uma fonte com amplo conhecimento sobre o funcionamento das coisas na Conmebol espera punições importantes para os dois clubes.

Há muita política em jogo.

A entidade é presidida por um paraguaio (Nicolas Leóz) e tem um vice-presidente nascido no Uruguai (Eugenio Figueiredo). Brasil e Argentina, as duas maiores forças do continente, são mantidos distantes do poder por razões óbvias.

Não há melhor situação para demonstrar força do que aplicar sanções a clubes dos dois países.

Por enquanto, fala-se até em excluir o Tigre da próxima Copa Libertadores. O São Paulo receberia uma multa pesada e perderia mandos de jogos do torneio no ano que vem.

Ainda como repercussão da decisão que não terminou, dirigentes sulamericanos parecem ter se convencido da necessidade de normatizar, no regulamento das competições, o tratamento que clubes mandantes devem dispensar aos adversários.

E estabelecer multas para as transgressões.

Em se tratando de Conmebol, parece bom demais para ser verdade.

(ATENÇÃO, TROLLS: não estou AFIRMANDO que as punições serão essas e que providências serão realmente tomadas. Eu publico o que apuro, e é nisso que se fala hoje).

Os acontecimentos do Morumbi serão analisados em reunião da confederação sulamericana, na próxima quinta-feira, depois de deliberações a respeito do jogo entre Millonarios e Grêmio.

Adivinhe quem será o representante brasileiro na reunião, com voz ativa no processo…

Sim, Marco Polo Del Nero, herdeiro da cadeira de Ricardo Teixeira no Comitê Executivo.

Como são interessantes os meandros do futebol, não?

A questão principal não é o que a Conmebol fará ou deixará de fazer, porque não se pode esperar dela a revolução necessária para que o futebol nesta parte do mundo se dê ao respeito.

Na Liga dos Campeões, a Uefa se apodera dos estádios onde os jogos acontecerão. Do dia anterior à partida até o dia seguinte, quem manda é ela. Organização é controle, supervisão, ação.

Estamos a séculos desse tipo de conceito.

É por isso que quem deve iniciar a mudança são as instituições. Instituições como o São Paulo, por exemplo.

Eis o que o São Paulo poderia ter feito para evitar, ou minimizar, as ocorrências da noite de quarta-feira.

Entrevista coletiva do presidente, dois dias antes do jogo. Leitura de um comunicado do clube, algo mais ou menos assim:

“Em virtude do tratamento que recebemos por parte do Tigre na semana passada, em Buenos Aires, queremos esclarecer publicamente como nosso adversário será recebido para a segunda partida.

Nossos ingressos para o primeiro jogo só foram entregues cinco horas antes. Gostaríamos de comunicar que os ingressos para a torcida do Tigre já foram enviados ao clube.

Não pudemos treinar na Bombonera na véspera do jogo.  O Tigre poderá treinar no Morumbi, desde que o faça sem chuteiras, pois o gramado está prejudicado pelos shows da Madonna.

Nossos jogadores não puderam fazer o aquecimento no gramado da Bombonera, sem que nos fosse apresentado nenhum motivo. Queremos comunicar que os jogadores do Tigre poderão aquecer no gramado do Morumbi, sob acompanhamento de dirigentes da Conmebol.

Lamentamos que membros da nossa delegação tenham sido tratados com truculência por seguranças do Tigre. Garantimos que nada parecido acontecerá aqui. Solicitamos à Conmebol que determine uma pessoa para acompanhar a delegação adversária durante todo o tempo em que estiver no Morumbi.

O São Paulo está interessado em melhorar as relações entre clubes sulamericanos, e por intermédio do profissionalismo, contribuir para o andamento de nossas competições.

Não tememos ser criticados por quem quer que seja, até mesmo por nossa torcida, por não oferecer ao Tigre a mesma recepção que tivemos na Argentina. Mesmo que sejamos derrotados na decisão.

Representamos um clube acostumado a conquistas, mas, acima de tudo, um clube que age corretamente.

Obrigado.”

Eu sei, é utópico.

Mas imagine o poder que uma atitude como essa teria. Ainda mais vindo de um clube tricampeão da Libertadores.

A Conmebol ficaria constrangida. O Tigre também. O exemplo estaria evidente.

E se é verdade que o time argentino veio a São Paulo para arrumar confusão, o anúncio público de que não haveria nenhum tipo de revanchismo ou provocação provavelmente diminuiria seu ímpeto.

O contrário, a reciprocidade, alimenta o que é ruim. E leva a situações como a que vimos, diante do maior público do futebol brasileiro em 2012, encerrando de forma lastimável um segundo semestre que o São Paulo deveria comemorar.

Melhor campanha do segundo turno do BR-12, classificado para a Libertadores, campeão da Copa Sul-Americana.

O poodle queria brigar com o rotweiller, e o rotweiller se deixou provocar.

O futebol brasileiro precisa de dirigentes que estejam interessados em mudar. Gente que dê menos valor a bravatas do tipo “na minha casa ninguém faz isso”, e mais a exemplos como “na minha casa esse tipo de coisa não acontece”.

Dirigentes que queiram se distinguir. Que pensem, antes, e sempre, no que representam.

Enquanto as instituições – muito mais importantes do que as pessoas – não se posicionarem, a malandragem e a cafajestice imperarão.



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