COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

MARCOS É UM DE NÓS

(No dia em que Marcos anunciou sua aposentadoria, eu estava em férias. Não pude publicar nada no jornal sobre o que vi e o que penso sobre ele. Escrevi o texto abaixo em meu blog, há quase um ano. À luz da despedida, marcada para a próxima terça-feira, ele continua valendo.)

Goleiros bons, vimos muitos. Grandes goleiros, alguns. Goleiros como Marcos, só ele.

Não vou chover no molhado sobre Marcos, o jogador. Não vou? Ah, ok, vou sim: não tenho certeza de onde ele está no meu ranking pessoal. O que sei é que não vi ninguém chegar perto do que ele fez ao redor do ano 2000.

Talvez isso não satisfaça quem espera uma posição definitiva sobre um jogador de futebol, no momento de sua aposentadoria. Os fanáticos exigem que ele seja declarado o melhor, e, desde que os outros concordem, encerra-se a conversa.

Desculpe, não é assim que funciona. Para falar sobre Marcos, é preciso ter a capacidade de tirar as luvas, despir-se do uniforme e sair do campo. Mas sem jamais deixar a grande área. Para quem conseguir, Marcos é único. Porque é exatamente como você e eu.

Num mundo em que esportistas são vistos com o distanciamento que sugere a existência de vida fora da Terra, gente como Marcos é inexplicável. Quem torce pela camisa que ele defendeu o via como um santo. Quem torce contra sabia que ele prevaleceria. Houve ocasiões – e não foram poucas – em que ele tinha poderes, era superior, invencível.

No jogo seguinte, era capaz de ser comum. E ao falar sobre esse mundo em que vivem nossos heróis, Marcos o reduzia à simplicidade da vida cotidiana. Jamais usou o dialeto do boleiro, aquele que diz sem dizer. Marcos fazia ligação direta do coração à boca, cruzava a fronteira do discurso pronto e nos levava para dentro do vestiário. Abria janelas cada vez mais raras no futebol como o conhecemos.

E representava o torcedor, o cara que justifica a existência desse mundo distante, que percebia seu sentimento refletido “do outro lado”. Acima de tudo, Marcos era como era, sem interesses. Sinceridade genuína, assim como a falsificada, é fácil de detectar. Porque Marcos sempre foi palmeirense, como se sabe.

Há uma história sobre ele que é um desses casos que nos mostram que jogadores de futebol são pessoas normais, embora muitos não pareçam. Aconteceu em 2003, se não me falha a memória. Numa noite de folga, Marcos se encontrou – casualmente – com alguns jogadores do Corinthians numa casa noturna paulistana.

Lá pelas tantas, estavam na mesma mesa, batendo papo e revelando alegrias e insatisfações, quando Vampeta o convidou para trocar de clube. Não só o convidou como, num guardanapo, escreveu detalhes do contrato, o salário, o período. E deu o papel para Marcos assinar. Testemunhas da cena dizem que ele olhava para o papel, ria, olhava de novo e dizia para Vampeta tirar aquilo de sua frente. Marcos sempre soube onde queria ser feliz.

Se essa felicidade não durou tanto quanto deveria, por causa do tempo perdido se reconstruindo, foi porque a vida não é perfeita. E porque os craques – até os santos – não são infinitos. Não são infinitos, não são infalíveis. Alguns poucos, como Marcos, também não são inatingíveis.

O legado mais valioso de Marcos não são suas defesas e seus títulos. Não é ter sido um goleiro gigantesco, capaz de esconder o gol com sua grandeza. Não é ter sido um legítimo representante da nobre linhagem de arqueiros do Palmeiras. É tudo isso junto e, ao mesmo tempo, a sensação de que nada disso lhe faria falta.

E a certeza de que o admiraríamos da mesma forma.



  • Roberto Carlos

    Acabo de ler que o Gremio inaugurou o seu estadio porem as propagandas da Coca Cola não tem a tradicional cor vermelha e o Corinthians chegou a solicitar a FIFA para não divulgar na manga das camisas uma campanha de assistência social do órgão, a “Football For Hope”, cujo logotipo é verde. Você não acha um exagero e atitudes deste tipo ajudam a por mais lenha nesta fogueira que é a violência no nosso futebol?
    Abraços

    • Ricardo

      Roberto,

      Eu não concordo com você. Na turquia, os McDonalds próximos ao estádio do Besiktas tinham as cores preta e branca como tema, uma vez que o Galatassaray, seu maior rival, possui as cores amarela e vermelha.

      Abs!

    • Eduardo Rosentall

      Parabéns Grêmio, por jogar no pasto contra os reservas do Hamburgo. Aliás, se tivesse vacas no gramado eu teria dó delas.
      Arena Grêmio – O pior gramado do Brasil.

  • Divaldo A. de Oliveira

    Parabéns André, Marcos é tudo isso e muito mais, Marcos é gente.
    Num mundo de ambições desmedidas, de inveja, traições, maledicências e outras falsidades, ele conseguia ser grande sendo humilde, reconhecendo o valor da concorrência e sendo “escada” para aqueles que aspiravam a sua titularidade.
    Marcos realmente é único e esta fazendo muita falta não só ao Palmeiras, mas ao futebol.

  • José A. Matelli

    Marcos é um deus do futebol.

    • Batista

      Deus do Futebol? Só se for pra voces. Porque aqui é Corinthians…

      • Julio

        Eu sou Corinthians, mas isso não me impede de sentir uma profunda admiração pelo Marcão.

        • Kátia

          Curti! Acho ridículo essa rivalidade, só pq tal jogador joga em tal time, eu não posso gostar dele??? Eu sou palmeirense e chorei com a morte do Sócrates e isso não me faz menos ou mais palmeirense.

          Do mais, parabéns André pelo lido texto.

  • ainda sobre o MARCOS, ele é um homem comum, igual a muitos, mas com carater e humildade.

  • fabio

    Maravilhoso! Parabéns! André Kfouri, você conseguiu externar da forma mais realista possível, os sentimentos do torcedor com relação a seus ídolos. E com que perfeição você descreveu Marcos: parece desprovido da coisa mais “nojenta” que a maioria dos boleiros transmitem: a máscara e a vaidade. Se me permite, peço-lhe humildemente para incluir o Vampeta nesse ‘hall’. Me parece um dos jogadores mais lúcidos e mais “póximos dos humanos” que já vi também. mais uma vez, parabéns!

    • Bruno

      Não costumo comentar, mas não deu…

      Comparar o caráter e o futebol do Marcos com o Vampeta é sacanagem.

      Marcos, que garantiu tantos títulos na carreira e um ser humano simples, humilde, tudo isso que foi escrito.

      Vampeta, um enganador que tem que dar graças a Deus que encontrou Rincón, Marcelinho e Ricardinho, seu futebol é de um Márcio Araújo melhorado, e como pessoa é de uma arrogância e falsidade incríveis.

      • Julio

        Bruno, você tem algum argumento sólido para criticar o futebol do Vampeta e o seu caráter, ou é só achismo mesmo?

        Não acho que seja justo dizer que ele era um enganador, afinal suas conquistas dentro de campo não foram poucas, e ele jogou um grande futebol sempre que esteve fisicamente bem.

        E embora ele tenha sido uma figura um tanto quanto folclórica do nosso futebol, não conheço nada que permita concluir que ele era arrogante ou falso como você sugere.

        • Bruno

          Julio, é uma opinião de futebol. E eu tenho certo conhecimento dos bastidores do mesmo, então posso falar com propriedade. Não são palavras vazias, é coisa de quem conhece um tanto desse meio do futebol.

          Vale lembrar que o Paulo Almeida foi campeão no Santos, e foi talvez o pior jogador que eu já vi atuar no futebol. Te dou uma lista de campeões do mundo medíocres: Edcarlos, Rubens Cardoso, Índio lateral do Corinthians…ser campeão não é sinônimo de qualidade. O Vampeta foi um jogador fraco tecnicamente que viveu de um meio-de-campo com Rincón, Marcelinho Carioca (dois craques) e Ricardinho (não foi craque, mas foi excelente).

          Normal se indignar com comentários – não sabemos quem está comentando, pode ser qualquer pessoa jogando palavras ao vento. Não é meu caso.

        • Bruno

          Ah, Julio, te desafio a falar uma boa temporada do Vampeta depois (ou antes) daquele time do Corinthians. Só eleição de pior estrangeiro da Inter, finjo que jogo no Flamengo e rebaixamento no Corinthians. Abs.

          • RENATO77

            Vampeta foi “TOP” entre 1995 e 2003.
            O PSV, naquela época, não costumava contratar perna de pau, longe disso.
            8 anos atuando em alto nível, definitivamente, não é pouco.

            Quanto ao carater, fica difícil opinar pois trata-se de um meio em que até Rogério Ceni é defendido por muitos como “bom carater”…
            Abraço.

  • Emerson

    Uma pena jogadores com o perfil do Marcos serem artigos raríssimos no futebol.

  • Corinthiano feliz

    Disse o profeta: “O Corinthians só irá ganhar uma Libertdores quando o Palmeiras cair para a segunda divisão”.
    Marcos – O Nostramos do século 21.

    • Corinthiano feliz

      Nostradamus, digo.

      • dede 48

        ..já desmentiram q ele disse isso….busque mais conhecimento..mesmo sendo corinthiano peça p/ alguem q já foi á escola ler a noticias p/ vc…Obrigado pela preferencia ! volte sempre!

  • flavio

    Esse marcos não é aquele que criticava seus companheiros na imprensa diversas vezes quando o time ia mal?? Fazendo explodir crises em cima de crises no clube?? É realmente é um ótimo caráter!! Vamos para de endeusar um jogador somente porque pegou tudoi contra o corinthians nas duas libertadores. Afinal todos nós sabemos que quando um goleiro é o melhor em campo significa que o adversário foi infinitamente superior nos jogos. Um abraço aos iludidos!!

    • Yohan

      Voce só pode ter problemas mentais,ou problema de interpretação de texto.O texto expõe exatamente essa caracteristica do santo marcos,de ser extremamente humilde,mas verdadeiro,apaixonado pela camisa que vestia,exatamente por isso,em entrevistas pós-derrota,acabava falando demais,por excesso de paixão.E pelo amor de deus,endeusando um goleiro so por 2 bons jogos contra o corinthians? qual o seu problema? vc nunca viu o marcos jogar ne? melhor goleiro da copa 2002,melhor jogador da libertadores 99,por favor,nao defeque pelos dedos.

    • Alisson Sbrana

      Triste…

      Afinal, todos nós sabemos que a democracia permite perdemos tempo com comenários infinitamente insignificantes.

      Um abraço, de um iludido (santista) ao iluminado.

  • Caio

    Marcos foi meu primeiro ídolo no futebol! Parabens pelo texto!

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