COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

CONTROLE DE QUALIDADE

Um time da NBA foi multado em 250 mil dólares por tomar uma decisão muito comum no futebol brasileiro. Na quinta-feira passada, os três melhores jogadores do San Antonio Spurs foram poupados do jogo contra o Miami Heat, para que pudessem descansar. Tim Duncan, Tony Parker e Manu Ginobili não apareceram nem no banco de reservas batendo palmas durante o encontro com o atual campeão da Liga. O técnico Greg Poppovich os mandou para casa.

A decisão de Poppovich, possivelmente um dos mais respeitados técnicos da NBA, enfureceu o manda chuva David Stern de tal maneira que o executivo pediu desculpas públicas aos fãs e prometeu disciplinar os Spurs com mão pesada pelo “desserviço prestado à Liga”. A multa foi recebida com divergência de opiniões nos Estados Unidos.

No centro da questão está o conceito de que uma competição esportiva é um produto e que o torcedor é cliente. O jogo entre Miami e San Antonio, evento que só acontece duas vezes na temporada regular, é considerado “top de linha” na NBA. Foi transmitido em rede nacional de televisão, como parte do contrato que representa a diferença entre a Liga operar no azul ou no vermelho. David Stern pensou no torcedor que se preparou para ver as estrelas dos Spurs, não as encontrou na quadra e provavelmente arrumou outra coisa para fazer. Brigar com a televisão não é bom para os negócios.

Ocorre que os negócios não fazem parte da rotina de um técnico que está pensando em ganhar títulos. Poppovich abriu mão de uma vitória improvável (mesmo assim, o Heat venceu por apenas 5 pontos), para ter seu time energizado na noite de sábado, em casa, contra o Memphis Grizzlies, rival de divisão. O jogo contra o Heat aconteceu na última noite de uma viagem de sete partidas em cidades diferentes, em que os Spurs jogaram cinco vezes em sete dias. Poppovich quis proteger seus melhores atletas, que já não estão na flor da idade. É prerrogativa de um técnico fazer o que é melhor para seu time.

Posições à parte, é interessante observar que a Liga – que multou San Antonio – é responsável pelo dilema de Poppovich. O calendário da NBA é feito para punir as equipes visitantes, obrigando-as a viagens desgastantes com jogos em noites consecutivas. A ideia é aumentar as chances de vitória do time da casa, o que vende ingressos, enche arenas e mantém o cliente satisfeito. Ainda mais significativa é a programação do último jogo de uma viagem cansativa para ser exibido ao país inteiro. Se a intenção é mostrar o que a NBA tem de melhor, a escolha deveria ser mais cuidadosa.

No futebol brasileiro, o calendário pune clubes de outra forma. Pré-temporada curta, estaduais longos, excesso de jogos, competições simultâneas. Times são forçados a fazer escolhas conforme a diferença de importância entre os objetivos, o que compromete a criação do conceito de produto. Técnicos preservam seus principais jogadores pois não lhes resta outra opção.

As ligas esportivas americanas são mundos diferentes na gestão, nos objetivos, no tipo de experiência que pretendem entregar aos fãs. Mas têm algo a ensinar ao futebol no Brasil: a preocupação institucional com o nível do espetáculo.

EXPANSÃO

Se o engano no sorteio da Copa das Confederações prejudicar a frequência – algo altamente improvável – nos restaurantes de Alex Atala, abrir uma casa no Uruguai pode ser excelente ideia. A mudança no panorama da tabela do torneio, por causa da gafe, foi uma benção para a Celeste. A seleção uruguaia será a única a disputar todos os jogos na mesma região do Brasil (Nordeste), viajará muito menos do que os outros participantes.

INERTE

Criticar um convidado do sorteio por um erro identificado no ato é um equívoco muito maior. Jérôme Valcke tem a experiência necessária para corrigir a falha e preservar a configuração da tabela. Ele murmurou várias vezes, em francês, que percebeu a confusão. A maior parcela de responsabilidade é do secretário, não do chef.

APROVADO

Os elogios à organização dos eventos no Anhembi devem ser considerados. Por aqui, obrigação é virtude.



  • Emerson

    Sempre é bom a preocupação com o público. Mas a NBA exagera ao punir os Spurs, afinal cada treinador escala quem considera em melhores condições para o jogo, além do mais, e se jogadores sofrerem lesões devido ao excesso de jogos, a NBA irá ressarcir os times?
    Negócios e esporte quando caminham de forma competente lado a lado produzem resultados muito bons para ambos, e o basquete americano é um belo exemplo disso, porém sem excessos.

  • Juliano

    Que satisfação ver o basketball aqui!

    Realmente, o calendário da NBA é de matar! 82 jogos em uma temporada, que não dura um ano. E depois, para os 16 melhores, Playoffs em até 5 séries de 7 jogos. Um absurdo! Queria ver boleiro que joga 2 vezes por semana aguentar o tranco… (tá… nao vou tentar comparar de novo, deixa pra lá).

    Duncan tem 36 anos, Manu 35 e Parker 30. As séries fora de casa são completamente sem noção. Dadas as dimensões do país entende-se porque jogar em sequencia na estrada. O problema é o tempo e o intervalo entre os jogos.

    Popovich está certo, o que conta são os Playoffs. Na última temporada o Spurs foi eliminado diante do Oklahoma City Thunder, justamente um time jovem e com muito gás! Talvez devesse preservar seus atletas em outros jogos da viajem, decidiu fazê-lo justamente no jogo da TV. Talvez justamente pra proteger suas estrelas do embate com Wade, Lebron e cia, onde o matchup seria mais intenso e traria maior repercussão, protegendo não só no aspecto físico. De qualquer maneira acho a punição exagerada. Mesmo com a preocupação em manter o nível do espetáculo, como observa e fecha de maneira precisa o texto.

    Nesta temporada, Duncan, Manu e Parker acumulam suas menores médias de minutos em quadra na carreira. Uma alternativa para o Popovich poderia ser descansar suas estrelas num sistema de rodízio, não todos ao mesmo tempo, no mesmo jogo.

    Abraço!

    PS: Patrícia Amorim caiu!

  • Anna

    Eu acho que deviam multar os clubes aqui no Campeonato Brasileiro tb, quando houvesse exageros. Quando li isso, pensei imediatamente no velho esporte bretão tupiniquim. Tb acho que o maior erro foi de Valcke que nao corrigiu Alex Atala a tempo. Perfeito, André!

  • Roberto

    André,

    Ótimo texto novamente. É interessante a discussão da preocupação institucional com o espetáculo, mas convenhamos que no Brasil, na “Pirâmide de Maslow do Entretenimento Esportivo” ainda estamos bem longe de discutir isso como próximo passo. Problemas de segurança, infraestrutura dos estádios e dos arredores, transporte, calendário, etc são tão mais relevantes como emergenciais para a nossa situação atual. Uma pena.

  • Júnior

    Falando em organização, campeonatos de pontos corridos onde “cada jogo é uma final” a CBF apresenta: http://www.lancenet.com.br/corinthians/Copa_do_Mundo_0_822517782.html

  • Leandro Azevedo

    Totalmente equivocada a atitude do Stern – tem um artigo bem interessante do Wojnarowski (http://sports.yahoo.com/news/nba–david-stern-stumbles-again-in-his-failed-culture-war-against-the-spurs-194828970.html).

    E tem outra tb, o ingresso diz claramente que o torcedor esta pagando para ver Miami Heat x San Antonio Spurs e nao Lebron James x Tim Duncan ou outra variacao do tipo. Popovich sabe bem o que tem em maos e o time que entrou em quadra foi tao competitivo ou ate mais que o time com os titulares seria, pois o estilo de jogo seria mais lento e mais propicio ao Heat.

    Abraco

  • Rodolfo I. Vieira F.º

    André ,

    Fazendo uma comparação simples , sem por menores , os atletas da NBA sofrem muito mais fisicamente , principalmente pelo deslocamento dos jogos fora de casa e estamos falando de uma média de 4 a 5 jogos por semana , você não acha que os jogadores futebol do Brasil reclamam de mais por conta de 2 jogos semanais ?

    Abraço

    Rodolfo

    AK: A comparação não é simples. O desgaste no futebol é muito maior. São dois esportes completamente diferentes. Um abraço.

  • Marcel de Souza

    Muito interessante a coluna, não imaginava que isso acontecesse em alguma liga americana. Na minha opinião o modelo a ser seguido deveria ser sempre o da NFL: poucos jogos no ano, valorização máxima do produto. Fazendo um paralelo com o nosso futebol, a existência do campeonato paulista por exemplo banaliza alguns clássicos.

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