COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

FAMÍLIA

Kuala Lumpur, maio de 2002.

A Seleção Brasileira de futebol fazia sua última escala na preparação para a Copa do Mundo do Japão e da Coréia. Vinha de Barcelona, onde havia vencido a Catalunha, para um período de treinamentos e um amistoso contra a Malásia, ensaio final para o Mundial.

A proximidade da estreia e a ausência de boas apresentações combinaram-se para criar um clima de preocupação contida na Seleção, que viria a ser campeã do mundo – vencendo todos os jogos – poucas semanas depois. Luiz Felipe Scolari procurava o melhor sistema de jogo em meio às incertezas e críticas a um trabalho que ainda não havia completado um ano. Na chegada à Malásia, comentários feitos por Pelé a respeito da desorganização do time eram motivo de irritação para o técnico e seus jogadores.

A delegação jantava no restaurante do hotel quando uma informação chegou de repente: Pelé estava a caminho, para uma visita à Seleção. A reação de alguns jogadores indicou que a recepção ao Atleta do Século 20 não seria simpática. Houve quem dissesse que não queria vê-lo. O assessor de imprensa da CBF (hoje diretor de comunicação), Rodrigo Paiva, temeu por uma situação constrangedora que certamente teria repercussão negativa internacional. Não houve muito tempo para pensar, Pelé já estava entrando no restaurante.

Paiva agiu rápido. Retirou, pela cozinha, Scolari e alguns jogadores, deixando Ronaldo e Roberto Carlos incumbidos de receber o maior jogador de futebol da História. A solução evitou maiores rusgas entre a Seleção e Pelé às vésperas da Copa, e ainda gerou um bônus. Horas mais tarde, quando o então presidente Ricardo Teixeira soube do episódio, chamou o assessor e perguntou quanto ele ganhava. Após ouvir a resposta e se certificar se Paiva falava em reais ou dólares (era em reais), Teixeira dobrou seu salário.

A história ilustra com fidelidade o tipo de ambiente que se instalou na Seleção pentacampeã do mundo, resultado de um método de motivação muito comum no futebol: a noção do “nós contra todos”. Há grupos que se alimentam de críticas para reforçar o sentimento de união, que utilizam dúvidas externas como estímulo para alcançar o objetivo a que se propõem.

O conceito de família – marca de Scolari em 2002 – nasce acompanhado de um sentido de proteção que fica permanentemente acionado. Nem que seja necessário criar um “inimigo” fictício. Da mesma forma que certos esportistas precisam se sentir desafiados por antagonismos que nem sempre existem, certos times só são capazes de produzir seu melhor quando se imaginam sob ataque de todos os lados.

Na volta de Luiz Felipe Scolari à Seleção, talvez não seja necessário utilizar os mesmos materiais para levantar uma parede protetora em torno do time. É possível que a Copa do Mundo ajude a formar uma onda patriótica pelo país. A julgar pelas últimas manifestações do atual presidente da CBF, um político com comprovadas ligações com a ditadura, estamos desde já sob o ame-o ou deixe-o.

Se Scolari construir um time que jogue bem, todo o resto se encaixará.

PERDOE A…

José Maria Marin foi personagem principal da entrevista coletiva de apresentação de Scolari e Parreira, anteontem. Fez uma longa introdução dedicada aos treinadores que não foram escolhidos para dirigir a Seleção Brasileira, explicando os motivos pelos quais eles não estavam ali, sentados à mesa. Maneira interessante de conferir protagonismo a quem foi preterido. Chamou Parreira de Parreiras, falha que passa. Mas apresentar “Antonio Carlos Parreira” ao mundo, ao final de uma frase em que elogiava o reconhecimento internacional de Carlos Alberto, foi o ponto alto do encontro.

… NOSSA FALHA

A gafe de Marin lembrou outro momento cômico. O dia em que o ex-presidente do Corinthians, Alberto Dualib, apresentou Paulo César “Castejani” como novo técnico do clube. Dualib abriu a coletiva com as boas vindas ao treinador. Educado, Carpegiani sorriu.



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