UM ABRAÇO AOS BETING



Não conheci Joelmir Beting, apenas o vi.

Entre o fim dos anos 80 e o início dos 90, costumava acompanhar meu pai aos antigos estúdios da TV Globo, no centro de São Paulo.

Ele gravava um comentário para o Jornal da Globo, no começo da noite. Joelmir gravava o dele mais ou menos na mesma hora, o que proporcionou encontros frequentes.

Eu os via conversar rapidamente, ficava olhando com a admiração que alguém como Joelmir impunha a quem sonhava em ser jornalista.

Muitas vezes, chegávamos ao estúdio quando ele se preparava para a gravação. Lia o texto, relia, mudava alguma coisa que melhorava o que já era ótimo.

Lembro que um dia alguém disse que os óculos que Joelmir usava na TV não tinham lentes. Estavam ali para compor sua figura. E que as olhadas que ele dava para um papel sobre a mesa eram apenas para conferir naturalidade ao comentário. Um mestre.

Eu também li e ouvi Joelmir Beting. Muito menos pelo assunto do que pela forma. São raros os que manejam o idioma como ele fazia, privilegiados os que conseguem perceber.

No jornal ou no rádio, Joelmir lecionava inteligência, sagacidade, picardia. Repertório capaz de transformar qualquer tema em conteúdo de interesse. Capaz de fazer em qualquer área da profissão uma carreira influente.

Eu não conheci Joelmir, mas conheço o Mauro. Ele é um daqueles caras que já estavam estabelecidos quando eu tentava começar. Um dia o abordei num restaurante para dizer que era um fã e fui recebido com simpatia e gratidão. Ele continua exatamente igual, o que é muito mais importante do que sua trajetória brilhante.

Também conheço o Erich, com quem estive poucas vezes mas de quem sou leitor assíduo.

Eles são os jornalistas que carregam um sobrenome estrelado, motivo de orgulho e responsabilidade. Incalculável fortuna pessoal e profissional.

A eles, e a todos os Beting que sentem a dor da partida de Joelmir, quero mandar um abraço.

Eu vi Joelmir pela última vez há alguns meses, no balcão de frios de um supermercado. Aguardava na fila pela minha vez, sem reconhecer o senhor que estava à minha frente.

A funcionária do supermercado informou o valor de algum produto. Joelmir achou caro. “Por esse valor eu saio daqui e compro um aparelho de som”, disse. Eles riram juntos.

Identifiquei a voz, o dono, e me comportei como fazia no estúdio da Globo, há mais de 20 anos.

Fiquei olhando com admiração.



  • Anna

    Vindo de você, só poderia imaginar que sairia um texto com tamanha sensibilidade sobre Joelmir Beting. A quinta amanheceu mais triste. Perdem o jornalismo e a vida, de uma maneira geral. Meus sentimentos a todos da família Beting, em especial Mauro, que sempre leio aqui no Lancenet! Grande abraço, Anna

  • silas

    André,

    Em verdade, admito de pronto que o único jornalista que eu colocava à sua dianteira, em termos de postura jornalística, identidade de posicionamentos, forma de expressão e, acima de tudo, transmissão de credibilidade, era o Joelmir.
    Você, pelo texto de homenagem, há que entender o porquê da sua colocação “apenas” imediatamente a seguir.
    Agora, órfãos que estamos dessa grande figura, a sua atuação passa a ser de mais responsabilidade ainda.
    Mas que ele nos fará muita falta, certamente fará!
    Durante a caminhada desta vida, o importante é o rastro que deixamos. O dele é marcado pela honestidade, inteligência, ética e competência. Tentemos seguí-lo!

  • Divaldo A. de Oliveira

    Num pais tão pobre de referencias sérias, honestas e competentes, esta perda é irreparável.
    Se o colunista me permite, junto às dele, as minhas condolências à família, testemunhando a mesma admiração e respeito pelo inigualável Joelmir. Que Deus o tenha.

  • Uma pena, pelo jornalista que era, e que ouvi tantas vezes na televisão. Às vezes, parava para ouvir porque era ele quem falava.

    Outra pena, por imaginar que alguém tão bom quanto o Mauro (e que eu acompanho também há bastante tempo), deva estar inconsolável nesta hora.

    Mais um abraço de alguém da blogosfera.

    E uma linha de silêncio.

    …………………………………………………………………………………….

    Alejj

  • Joao CWB

    Lembro que desde criança eu gostava do Joelmir mesmo sem entender nada do que ele falava. Ele transmitia algo bom.

    E todos sabem que criança não analisa, não julga. Apenas sente.

    Abraço

  • Alexandre Barros

    Jornalistas de primeira linha os Betings. Assim como são os Kfouris. Parabéns pela sensibilidade e leveza do texto, André.

  • Alexandre

    O Joelmir Beting transpirava credibilidade.
    Algo tão importante para um jornalista de ofício e, ao mesmo tempo, tão difícil de se alcançar.

  • Willian Ifanger

    Como sempre, sensível e carinhoso. Belo texto. Parabéns pela homenagem.

  • Marcel de Souza

    Que texto sensacional, parabéns. Meu envolvimento com o Joelmir Beting era muito menor que o seu, era apenas um fã, sim fã. Gostava muito dos seus texto e comentários na TV. Concordo com você que o assunto que ele falava não importava, era ótimo ouví-lo seja qual fosse o assunto. Mesmo não tendo nunca o visto pessoalmente ou conversado com ele, fiquei triste ao saber do seu falecimento.

  • josé sidnei

    Joelmir marcou os meios onde trabalhou. Não foi marcado por eles. Mostrou-se mais forte que a Globo e que a Bandeirantes. Seus comentários tinham o efeito de torpedos. Seu olhar refletia as bençãos do padre Donizete, que o mandou ser feliz em São Paulo e não se esquecer de comer bastante quiabo para combater a “gagueira”. No Céu, já está revendo seus grandes ídolos palestrinos.
    Parabéns pelo texto André.

  • Joao CWB

    Caro André.

    Usando esse espaço para falar de outro assunto, o que achou da parceria da AEG e Atlético-PR?

    Abraço

  • Marcelo Morais

    Descobri hoje que admirava muito o senhor Joelmir Beting. Mais do que imaginava.
    Que a familia fique em paz, confortada por saber que Joelmir eh imortal.

  • de fato DEUS quer pra junto de si pessoas de bens….. um grande abraço e sentimentos a toda a familia beting,,,, a todos os brasileiros e a nós palmeirenses, todos estao de luto…… pena perdermos este grande brasileiro, quando convivemos com a sujeira, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha do pessoal do mensalão….

  • Joao

    Belissimas palavras André. Tai um exemplo de um Jornalista de uma grandeza sem fim. Não sou muito de ficar a frente de uma TV para ver tanta noticia ruim, apesar que estas infelizmente fazem parte de nossas vidasm, mas ouvir o Joelmir não era perda de tempo, mas adquirir informação de forma tão simples e de uma grande importancia. Joelmir foi um exemplo de pessoa e continuará sendo, pois seus espirito é um espirito evoluido, tenho certeza disso. Grande abraço a familia e que DEUS os abençoem.

  • José A. Matelli

    O último texto de Joelmir Beting foi o prefácio do próximo livro que o ex-goleiro Marcos vai lançar – palavras ditadas por ele, e digitadas com amor e devoção verdes pelo seu filho Mauro.
    Abaixo, o texto de um eterno palestrino na íntegra:

    “Ver para crer
    Fui coroinha e secretário de um brasileiro cuja vida está sendo estudada pelo Vaticano em um processo de beatificação. É o padre Donizetti, lá de Tambaú, interior de São Paulo, minha terra.
    Como a sua Oriente, Marcos. Ao lado daquele homem de Deus, vi e vivi muitas coisas que não têm explicação. Apenas fé. Assim como não têm explicação muitas de suas ações, defesas, palavras e orações, Marcos. Ao longo de vinte anos de nossa paixão: o Palmeiras. Para quem viu de perto o que o padre Donizetti fez pelos romeiros em Tambaú, para quem torceu de perto – como um verdadeiro devoto do anjo da guarda palestrino –, atesto e dou fé que conheço duas pessoas abençoadas. Você pode até não achar. Mas, para nós, palestrinos de verde e de credo, doentes de paixão, você é são. Você é santo.
    Fui repórter esportivo por cinco anos. Em 1961, vi o Pelé fazer um gol no Maracanã que me inspirou a dar uma placa a ele – a que gerou a expressão “gol de placa”. Desde que o vejo na nossa meta, Marcos, a partir de 1996, gostaria de ter continuado na imprensa esportiva só para coroá-lo com honras. Especialmente na Libertadores de 2000 (contra quem, não preciso dizer). Mas, pensando bem, melhor ter seguido como jornalista econômico. Assim, nunca tive de criticá- lo pelas poucas falhas que cometeu em sua limpa carreira – tão limpa como seu caráter. Pelo contrário. Apenas o aplaudi pelas defesas do tamanho do nosso clube. Não carreguei o dever da crítica. Apenas o prazer, o privilégio e a honra de ser mais um devoto de São Marcos do Palestra. Do Pacaembu. De Yokohama. Do mundo todo, que foi seu em 2002.
    Como maravilhoso santo de casa, você não fez milagres apenas em nosso lar. Você fez de tudo em outros campos e cantos. Por estes dias e semanas, estou bem perto do Morumbi – estádio onde você foi canonizado, em maio de 1999. Estou de cama tentando melhorar de uma doença complicada. Por isso, escalei o Mauro, que você conhece, para me ajudar a botar no papel um pouco do tudo que você fez por nós. Meu filho, que costuma dizer que você, Marcos, e eu, Joelmir, somos as pessoas que melhor o defenderam na vida.
    Por isso, eu te peço, Marcos, que você me dê mais uma vez a mão. Uma força. Para me erguer de onde estou e poder celebrar com meus filhos e netos mais uma grande vitória pela sua santa proteção.
    Não é milagre. É fé. Trabalho. Esperança. Superação. É tudo o que o Palmeiras me ensinou. É tudo o que você deu ao Palmeiras. Quando temos pessoas como você para nos defender, com a paixão que você dedicou, com o amor que nos deliciou, sei que tudo já deu certo. Que ninguém que nos ataca vai vencer. Que só quem defende e ataca por nós será inatacável.
    Seu Marcos, você pode não ser santo, mas sei que você faz milagres. Você pode não recuperar quem não está bem. Mas nunca é doente quem é Palmeiras. Sadio é quem torceu por você.
    Tenho uma frase que foi reproduzida no vestiário do velho Palestra: “Explicar a emoção de ser palmeirense a um palmeirense é totalmente desnecessário. E a quem não é palmeirense… É simplesmente impossível”.
    Explicar a emoção de torcer por Marcos é totalmente desnecessário. E a quem não é palmeirense… meus pêsames.
    Parabéns, amigo. Obrigado por tudo e por essas imagens que, mesmo vendo, a gente ainda não acredita. Mas como é Palmeiras, eu boto fé. Sempre creio no nosso time.
    Até quando duvido de Deus (que é pecado), sei que temos alguém para nos salvar. Alguém para nos defender. Alguém como Marcos.
    Em nome do Pai da Bola Waldemar, do Filho do Divino Ademir e do Espírito São Marcos, amém.
    Joelmir Beting,
    Palmeirense há 75 anos, jornalista há 55.”

    • OctacampeãoPalmeiras

      Caramba, emocionante só poderia ter sido escrito pelo Joelmir, e que o Mauro continue semelhante ao Paizão dele nos proporcionando tantas palavras belas.
      “Explicar a emoção de ser palmeirense a um palmeirense é totalmente desnecessário. E a quem não é palmeirense… É simplesmente impossível”.

  • RENATO77

    Gostava dos comentários do JB, não sabia que ele havia começado a carreira no jornalismo esportivo…Mauro tem dignificado o nome da família, um palmeirense que escreveu um dos melhores textos sobre o SCCP, tem que ter algo especial.
    Abraço.

  • Joao Henrique Levada

    Foi mesmo um grande pesar a morte do nosso querido Joelmir.

    Seu texto está excelente Dézinho. Parabéns. Li atento, mesmo com o sono terrível, crédito de uma noite mal dormida.

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