COLUNA DA TERÇA



(publicada ontem, no Lance!)

A OPÇÃO BRASIL?

O jornalista e escritor inglês John Carlin publicou, ontem, um artigo no diário espanhol “El País” sobre a possibilidade de Pep Guardiola dirigir o Chelsea em 2013. Carlin, mestre do ofício, apresentou quatro razões para o catalão não se mudar para Londres, e apenas uma para aceitar o desafio em sua volta ao futebol.

Os argumentos contra a ida de Guardiola para o atual campeão da Europa giram em torno das diferenças entre Stamford Bridge e Camp Nou. O Chelsea é a antítese do Barcelona. Um clube que não tem ideia do que é e do que pretende ser, vítima dos humores ciclotímicos de seu proprietário. Guardiola também se veria obrigado a fazer uma reforma extrema no elenco, mostrando a porta para a “guarda real” azul (Lampard, Terry, Cole e Cech) e importando talento da Catalunha, duas missões custosas. Enfrentar o fantasma de José Mourinho, treinador admirado pela torcida, terminaria por convencer Guardiola a riscar o Chelsea de sua lista de empregos potenciais.

A recém-lançada biografia de Pep, escrita com incomparável acesso pelo jornalista catalão Guillem Balague, traz detalhes interessantes sobre a obsessão de Roman Abramovich por Guardiola. O oligarca russo tentou, três vezes, tirar o treinador do Barcelona com ofertas que chegaram a 15 milhões de euros anuais. Numa tentativa de tratar pessoalmente com o técnico, Abramovich fez chegar a Guardiola a ideia de buscá-lo de helicóptero e levá-lo a um de seus iates para uma conversa. Ao mensageiro do russo, Guardiola respondeu: “Pare de me dizer essas coisas. Não quero encontrar Abramovich, senão ele vai mexer com minha cabeça”. A última aproximação do dono do Chelsea aconteceu na semana passada, após a demissão de Roberto Di Matteo. Abramovich estendeu a possibilidade de contratar um interino para terminar o ano e aguardar o fim do sabático de Guardiola, desde que ele respondesse já. Não, obrigado.

Carlin encerra seu artigo com a avaliação de que, se decidir trabalhar no Chelsea, Guardiola terá de lidar com os perigos das grandes apostas. “O risco seria enorme; mas o prêmio também. Melhor opção: Brasil.”, escreveu. Na Europa, as poucas pessoas bem informadas sobre os planos de Guardiola insistem que nenhuma decisão será tomada antes do final do ano. A crescente ansiedade sobre o próximo passo do técnico que comandou a última revolução no futebol terá de aguardar um pouco mais.

Uma pena que as pessoas que comandam a CBF tratem a Seleção Brasileira com tamanho descaso. Que a mentalidade retrógrada não abrace a possibilidade de um treinador estrangeiro dirigir o time. Que as agendas pessoais não identifiquem a oportunidade de contratar alguém como Guardiola, no momento em que ele pondera seu futuro. Que não se faça uma gestão para lhe apresentar um projeto.

O apelo da camisa do Brasil diante de um Mundial em casa é mais poderoso do que os euros de Abramovich. Ainda que seja algo completamente diferente do que Guardiola conhece. Ainda que reste pouco tempo. John Carlin tem razão.

AZUL CLARO

Enquanto descansa – ou tenta descansar – em Nova York, Guardiola sabe que poderá escolher o que vai fazer de 2013 em diante. Talvez ele não tenha um objetivo específico e esteja esperando a melhor situação aparecer. Mas sabe-se que a Premier League lhe interessa. Neste cenário, um clube dá todos os sinais de estar preparando um ataque. O Manchester City tem o talão de cheque e a estrutura necessários, e agora também tem as pessoas certas. Ferran Soriano, personagem central da recuperação do Barcelona entre 2003 e 2008, foi contratado como principal executivo do clube inglês. O diretor de futebol de Soriano é Txiki Begiristain, ex-jogador que ocupou o mesmo cargo no Barcelona de 2003 a 2010. O trabalho deles é replicar o que fizeram no Camp Nou, com investimento nas categorias de base e na criação de uma identidade futebolística. Nomes e filosofia que Guardiola conhece.

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Uma observação, para esclarecer o que penso e facilitar o debate: para Guardiola, assumir qualquer seleção nacional (a não ser a Espanha, onde tudo se encaixaria facilmente) a um ano e meio da Copa do Mundo não é bom negócio.

O trabalho é totalmente diferente, com menos contato e menos tempo. No caso dele, haveria também a expectativa de que o time jogasse como o Barcelona já no primeiro amistoso.

A Seleção Brasileira é uma situação ainda pior. Ambiente insalubre, politicagem, amistosos no Gabão. E a contagem regressiva para um Mundial em casa, com o país esperando ver um time revolucionário do dia para a noite.

Em resumo: é fria. Em caso de insucesso, o pachequismo (alguns já o fazem) colaria em Guardiola o rótulo de “invenção da imprensa”.

Após a Copa, porém, a conversa é outra. Quatro anos para fazer um planejamento, conhecer o cenário e apresentar as condições. Aí, sim, faria todo o sentido.

O problema é que na CBF só se pensa na “afronta” que seria dar a Seleção a um treinador estrangeiro. Sinal do atraso que, somado ao despeito dos treinadores nacionais e às opiniões de jornalistas que não conhecem o trabalho de Guardiola, faz com que uma oportunidade valiosa seja perdida.

A CBF tem – tinha? – obrigação de procurá-lo.



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