COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

MARIN SE MEXE

A demissão de Mano Menezes sugere que a cúpula da CBF precisa de uma bússola. Interromper um trabalho – de resultados não mais do que razoáveis, é fato – justamente no momento em que um time e uma ideia de jogo pareciam ter sido encontrados é um erro colossal. Mas é um equívoco de porte semelhante imaginar que José Maria Marin está preocupado com a Seleção Brasileira. Ao contrário do que aparenta, ele sabe exatamente o que está fazendo.

Marin é um político profissional. Não se deve esperar do atual presidente da CBF a capacidade de enxergar questões puramente esportivas. Ele não trabalha dessa forma. Marin chegou ao poder na CBF por ser o vice-presidente mais velho e seu projeto é continuar. A queda de Mano foi um efeito colateral da identificação de Andrés Sanchez como um obstáculo no caminho.

A antecipação da próxima eleição para presidente da CBF é central no plano. Ricardo Teixeira, com ajuda de Marco Polo Del Nero, acertou a mudança no estatuto com os presidentes das federações, de modo que o pleito será realizado em abril de 2014, dois meses antes da Copa do Mundo. Marin não precisa se importar com o desempenho da Seleção no Mundial porque nada do que acontecer em campo terá impacto político. Resolvida a questão da eleição, o passo seguinte foi minar um óbvio adversário.

Andrés Sanchez era homem de confiança e evidente sucessor de Teixeira. Foi ele quem levou Mano Menezes para a Seleção Brasileira. A saída do treinador transforma o diretor de seleções em figura decorativa. Sanchez teve de ir aos microfones ontem à tarde para explicar uma demissão à qual ele não era favorável. Disse ter sido voto vencido (por Marin e Del Nero, logicamente), mas obrigado a respeitar a hierarquia. Está isolado, solitário.

Romper com Teixeira, a quem paga salários e deveria gratidão, não é problema para Marin. Na política, as relações existem enquanto são úteis. O ex-presidente da CBF não tem mais serventia. A próxima fase do projeto é tratar com o colégio eleitoral da confederação: os presidentes das federações e dos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro. O que Teixeira consegue fazer sem poder? O que Sanchez pode oferecer de sua atual posição? Pouco perto da capacidade de articulação de Del Nero e Marin, no comando.

Sanchez poderia (deveria?) ter saído junto com Mano e assumido desde já o status de adversário da cúpula. Mas esse movimento não lhe traria nenhum benefício imediato. Ademais, seu projeto pessoal sempre foi ficar, não o contrário. Ele agora se vê forçado a ponderar o que fazer. É um diretor de seleções que não foi ouvido na demissão do último técnico e não será – se ainda estiver no cargo – na contratação do próximo.

A única verdade dita a respeito da devolução de Mano Menezes ao mercado é que não foi produto de maus resultados. Fosse esse o critério, a dispensa teria acontecido após os Jogos Olímpicos. Não creia por um segundo em “mudança de métodos de trabalho”. Essa é uma declaração pública de um político brasileiro, para quem a Seleção é uma ferramenta de acesso.

A Copa do Mundo de Marin também será em 2014, mas em abril.

JEITINHO…

A queda de Mano suspende a ideia de uma Seleção que caminhava para interpretar o jeito brasileiro de jogar futebol. Zagueiros e volantes que sabem participar do início de movimentos ofensivos, com bola no chão. Meio de campo leve e criativo para ativar Neymar. Um indício de personalidade, de virtude. Difícil imaginar que o próximo treinador dará sequência a esse caminho, por mais lógico que pareça. A pressão para “ganhar feio” deve falar mais alto.

… BRASILEIRO

O ano da Seleção Brasileira acabou, de modo que o anúncio do novo técnico somente em janeiro de 2013 não traz prejuízos práticos. Mas, convenhamos, o time anfitrião de uma Copa do Mundo não ter treinador um ano e meio antes de a bola rolar é feio. Bem feio. As próximas semanas serão repletas de especulações, a balança penderá para vários lados, nomes “ganharão força”. Planejamento é isso.



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