COLUNA DOMINICAL



(publicada ontem, no Lance!)

CINEMA NACIONAL

Há uma cena no final de “Questão de Honra” em que Tom Cruise, no papel do advogado de defesa no julgamento militar sobre a morte de um soldado na base de Guantánamo, leva o coronel interpretado por Jack Nicholson ao limite. A ideia era fazer o coronel confessar que havia ordenado uma prensa (“código vermelho”, no jargão da base) no soldado, que acabou morrendo porque as coisas escaparam ao controle durante a “missão”. O diálogo entre Cruise e Nicholson se dá mais ou menos assim:

– Coronel Jessep, o senhor ordenou o “código vermelho”?

– Você quer respostas?

– Eu penso que tenho esse direito.

– (nervoso) Você quer respostas?!

– (gritando) Eu quero a verdade!

– (gritando mais alto) Você não aguenta a verdade!!

O coronel prossegue por dois ou três minutos, lecionando o advogado sobre a liberdade que ele lhe proporciona e demonstrando indignação por ser questionado sobre seus métodos. Mas encerra, irritado, dizendo que, sim, ordenou o “código vermelho”. A confissão desnuda a verdade dos fatos e (desculpe se você ainda não viu o filme, que é de 1992) culmina com a prisão do oficial. Mas o que nos importa aqui é o final da conversa descrita acima: você não aguenta a verdade.

O julgamento de Internacional x Palmeiras, anteontem no STJD, poderia ter terminado da mesma forma. O futebol brasileiro teria sido o grande beneficiado se todos que foram ao tribunal tivessem saído de lá com a verdade. Com um relato claro, crível, de como as coisas aconteceram naquele sábado, a partir do momento em que o árbitro Francisco Carlos do Nascimento validou um gol de Hernán Barcos feito com a mão.

Ao contrário, depois de mais de duas horas de depoimentos, pede-se que acreditemos que o quarto árbitro viu o gol ilegal e alertou o colega sobre o erro. Pede-se que acreditemos que uma pessoa que estava a 61 metros do lance (as medições são da TV Globo) conseguiu detectar o que outra, a 12 metros, não percebeu. E pede-se que acreditemos que a pessoa que viu a mão na bola demorou quase dois minutos para se manifestar apenas porque não conseguiu identificar o jogador em questão. Certo.

Como diz o coronel Nathan Jessep no filme, nós não aguentamos a verdade. Não podemos levar a cabo uma investigação independente e séria sobre o episódio, sob pena de descobrirmos o que não podemos suportar. Não podemos nos aprofundar nas informações divulgadas por Marcelo Damato, neste Lance!, sobre um sistema clandestino de uso do replay durante jogos da principal competição de futebol do país. Não podemos correr o risco de saber, porque não saberemos como resolver.

Cada ator na história (a real, não a do filme) preocupou-se apenas com seus interesses. O Palmeiras pretendia a anulação do jogo. O Internacional, a manutenção do resultado. Os membros da arbitragem não queriam se comprometer de nenhuma forma. E os nobres auditores jamais poderiam desperdiçar mais uma oportunidade de encenar o espetáculo. Roteiro bem ensaiado, sessão encerrada.

Você quer respostas? Pensa que tem esse direito? Alugue “Questão de Honra”. Filmão.



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